Concurso de Beleza na PFC
Nosso colunista volta à penitenciária onde esteve por 21 anos para eleger a presidiária mais bonita de SP
Por Redação
em 5 de dezembro de 2005
Fui convocado para ser jurado do II Concurso da Presidiária mais Bonita de São Paulo. Não me achei à altura, mas me senti muito honrado. Particularmente por conta das meninas. Elas mereciam melhor, mas daria o máximo de mim para justificar aquela convocação.
Conhecia o clima, a febre que me tomaria assim que transpusesse os portões de entrada. Aquilo seria uma nova travessia. Além dos portões previa caras de pedra, sorrisos de gelo e bocas mostrando dentes. Pouco ou nada mudara do itinerário que vivo a refazer. Horas difíceis que novamente se aproximavam.
O vento levava o fogo e trazia a febre. Tudo o que fora vivido ainda doía nos ossos. Mas o que o tempo plantou em mim foi solidez, riqueza sem par. Então não havia por que fugir. Mesmo porque o vazio e o medo eram frios que nunca passariam.
Contornava as muralhas da antiga Penitenciária do Estado, onde sobrevivi quase 21 anos, quando senti que o tempo dormia naquele espaço. O guarda que abriu o portão da portaria exterior era meu conhecido. Fora funcionário do Choque da penitenciária por muitos anos. Embora já envelhecido, continuava alto e forte. Lembrei do episódio em os funcionários do Choque racharam minha cabeça e trincaram meu braço esquerdo, num dos espancamentos mais violentos a que fui submetido. Claro, havia motivos. Até cerca de 23 anos de idade eu era um bólido na autopista. Mas nenhum que justificasse.
A lembrança, essa opressora implacável, desenhava o passado em minha frente. Afirmei fazer parte do júri do concurso e perguntei por onde me encaminhar. Chamou-me de senhor e mostrou, cheio de solicitude, o portão de aço da efetiva entrada da prisão. Tenho pensado ultimamente que vingança é forma bem fácil de sofrer. Prefiro as mais difíceis. O difícil condensa, desafia e confere méritos.
Dentro, o ambiente acelerado pelo clima de festa tomava a portaria. Pulseira de plástico; identificação no pulso. A assessora de imprensa da secretária dos Assuntos Penitenciários, Rosangela Sanches, muito gentil como sempre, me conduziu a um largo e enorme corredor. Ao fundo, a vida estaria acontecendo.
No alto, o disco incandescente e dourado afundava-se no horizonte, como navio que se apaga. Aqui e ali mulheres aprisionadas. O uniforme, como sempre, amarelo, essa cor deprimente. Alguns artistas conhecidos: Raul Gil; Silvia Popovick; Rita Cadilac; e Saulo Gomes. Doutores, notáveis, havia até um promotor de Justiça. Tudo muito estranho.
Sentamos em torno da passarela. Ah! Sim, havia também um jogador de futebol famoso no júri. Não consigo guardar nome dessas eminências. Aos poucos, as cadeiras brancas ao fundo foram sendo ocupadas pelas internas. Lindas internas, diga-se de passagem.
Vestidas com rosto e roupa de esperar visitas, cabelos arranjados, pareciam brilhar. Aquela espécie de beleza tinha a ver com inteligência do corpo e turvas paixões. Olhei longamente cada uma delas. Queria entender o que elas estavam sentindo. Sob a batida dançante do som, algumas garotas ensaiavam passos.
As mulheres começaram a ser anunciadas. Primeiro as participantes do concurso de poesia e prosa. Uma após a outra, vestidas, maquiadas e penteadas, expressavam seus textos.
O que mais marcou foi a atitude firme e corajosa daquelas que, homossexuais, caracterizavam-se como tais. Corte de cabelo e roupas compunham o tipo "macho". Olhar desafiador e queixo erguido completavam o estilo. Lindas, achei.
Os textos falavam de suas esperanças de futuro. Nada sobre preconceito, filhos, e do amante que abandonou na prisão. Ao final é que surgiu alguma coisa: textos verdadeiros e poesia de sensibilidade.
Pegou fogo quando a madrinha da festa, Leci Brandão, belíssima, vestida em generosidade, subiu ao palco. As garotas foram ao delírio. Suas músicas são as mais conhecidas nas prisões. Fazem parte de todas as "rodas de samba" que se formam, em cima de latas e mesas onde se possa improvisar arte. É da cultura, da vontade e do amor do povo aprisionado.
O concurso da mais simpática mulher aprisionada foi vencido pela menos bonita das concorrentes. Seu sorriso enorme nos convenceu todos de sua simpatia.
A parte mais esperada da festa veio no ritmo forte das pistas de danças. As mulheres entravam na passarela injetadas pela música contagiante. Lindas, fantásticas, brilhavam fibra por fibra, como flores aos primeiros fiapos de raios de sol. Garotas plenas de mistério, expandiam em todas as direções, fecundas de presente. Rapidamente, fui tomado de prazer e alegria. Aplaudi até arderem as mãos.
Uma enorme generosidade se esparramava. De fato, somente com os outros encontramos o que nos falta para sermos felizes. Aquelas belas mulheres estavam sendo reconhecidas com toda paixão. A torcida vibrava febril; havia frenesi no ar.
Ninguém esqueceu que "o barato" é cadeia. Estávamos apenas vivendo a gravidade fecunda que o instante nos franqueava. Não havia dinheiro envolvido e ninguém seria miss de verdade. Vivíamos somente o prazer da brecha aberta na rotina e na dor. E era muito.
Meu voto foi vencido. O júri votou com a platéia. Venceu a garota que saíra daquela penitenciária para o concurso. Angelica, uma linda africana. Erika Pedroso, a candidata da prisão de Rio Claro foi, de longe, a mais bonita. Ficou em terceiro lugar.
Ao fim do concurso, iniciou-se show com Alexandre Pires. Artista de grande sensibilidade que, além de encantar, seduziu aquele povo todo. As mulheres subiam ao palco inconscientemente, como aranhas, fincando unhas no tablado, fascinadas.
Minha amiga Silvana (interna) me conduziu para o meio daquele turbilhão voraz. Glorioso estar no meio daquela mulherada, de preto e elas todas de amarelo, cantando, chorando e vivendo toda alegria e prazer que elas geravam. Imensurável.
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