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Comentários acerca de Blues

Quando entrevistado no Programa Jô Soares, fiquei muito triste e decepcionado

em 29 de dezembro de 2009

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BLUES

 

Quando entrevistado no Programa Jô Soares, fiquei muito triste e decepcionado. Sei que ninguém é enciclopédia viva, mas ele era ídolo para mim há décadas. Não perdia programa dele, por mais tarde fosse. Considerava-o uma das pessoas mais inteligentes de nosso país. Bebia sofregamente aquelas citações e sacadas. Aquilo era puro gênio para mim. Quando vi texto na mesa, telepronto virando palavras e o ponto no ouvido ligado a uma sala com pessoas e computadores, percebi que aquilo que admirava, não era bem o Jô. Havia uma equipe por trás daquela “genialidade”.

Caiu o ídolo. Demorei a entender que não era possível mesmo tamanha genialidade em um homem só. Mas que o fato dele ser o ator de todo aquele show já o distinguia profundamente. A admiração continuou.

Há anos esse grande artista havia me dado um tesouro. E, por conta disso, meu coração lhe era gratíssimo. Durante anos escutei seu programa diário na Rádio Eldorado de São Paulo “Jô Soares Jan Session”. Nunca havia ouvido Blues e estava preso há muitos anos sem saber se um dia sairia. Aos primeiros acordes já me identifiquei. E quando escutei Baddy Guy pela primeira vez, entendi que Blues é onde devo estar com minha vida. Sempre fui um homem envolto em angústias, ansiedades e paixões. O Blues canalizava isso tudo, era minha música.

Quando estou muito triste, uma dose cavalar de Billie Holiday cantando “Strangers Fruit”, “Love Man”, “Blue Moon”, “Sommer Time” e outras canções, suaviza e torna a tristeza mais pessoal, algo a ser curtido sem sofrimento. São meus sentimentos vivos e sem intermediários.

O Jô foi me ensinando John Lee Hooker; o grande Muddy Waters; Esses músicos atuais e não menos interessantes, como Robert Cray e Rory Gallgher; depois o guitarrista Clarence “Gatemouth” Brown; o pianista Dr. John; o excepcional B.B.King e sua eterna guitarra “Lucile”. Temos sempre os preferidos e eu gosto demais de Baddy Guy. Tenho um show em que ele toca “Red House” e “Voodoo Child” ao estilo do autor, Jimi Hendrix, que me emociona até as lágrimas. Ainda há o mito Robert Johnson que tenho escutado em outras vozes e que me encanta por demais. Não há paz e não há felicidade, tudo parece uma piada mal contada e que ninguém mais ri, mas tem o Blues e a gente pode chorar sem parecer bobo ou afrescalhado.

Desde que sai da prisão, há cerca de 6 anos, venho me envolvendo nessa cultura. É ai que gasto boa parte do meu dinheiro. Claro, compro tudo pirata, ou em sebo. Não há como comprar atuais; é só para quem tem dinheiro. E, mesmo assim, já tenho uma coleção considerável. Tenho quase todos os clássicos do Blues no original. Estou me tornando um conhecedor. Eu que destoou com meu inglês rudimentar e nem corneta sei tocar. Entendo tudo o que dizem com a alma e geralmente coincide com a tradução. Amo essa cultura.

Quando apresento o Blues para a rapaziada, eles até gostam de alguns shows, mas parece que é pouco para eles. Querem algo que mexa o corpo e não só a alma. De verdade, desde que sai não conheci uma só pessoa que realmente gostasse de Blues como eu. Claro, sei que existem, mas como eu, são pessoas que curtem alma e isso é intimo, particular. Fico imaginando como seria bom conhecer aficionados. Conversar, aprender, escutar variações, ampliar e expandir a sensibilidade e o conhecimento. Quem sabe aparece, não é mesmo?Estou aguardando ansiosamente.

                                               **

Luiz Mendes

29/12/2009.

 

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