por Ricardo Guimarães

Temos um grande obstáculo nos separando do futuro: uma realidade cada vez mais complexa em diversidade de raça, gênero, religião, política, estilo de vida, tudo!

Caro Paulo,

“Diga a Israel que marche!”

A ordem foi dada por Deus a Moisés quando o povo judeu se viu diante do obstáculo intransponível que se colocava diante de seu futuro: o mar Vermelho.

Abro esta nossa conversa sobre o futuro pagando tributo a Nilton Bonder e Clarice Niskier (que abriu a Casa Tpm deste ano) pelo extraordinário A alma imoral, livro e peça que tenho usado no meu trabalho e recomendado para todo mundo que conheço. Fica aqui minha gratidão e também meu pedido para que mantenham o livro e o espetáculo em cartaz. Ali tem a solução para o maior desafio para o futuro da humanidade, Brasil incluso: gostar da tensão entre opostos e diversos.

Explico: Nilton Bonder fala da relação tensa entre o corpo e a alma – o corpo tem o propósito de conservar, manter o equilíbrio, e o propósito da alma é experimentar, aprender, inovar.

A relação é tensa porque ao mesmo tempo que o corpo quer ficar, a alma quer ir. Enquanto o corpo nos diz que está satisfeito com o que comeu, nossa alma quer comer mais porque está muito bom. Tarde da noite, nosso corpo nos diz para irmos para a cama descansar e nossa alma quer aproveitar mais um pouco, está divertido, afinal. Nosso corpo dá o limite para o atleta, mas nossa alma quer expandir o limite, correr mais rápido, ir mais longe.

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Esse embate faz a relação entre o corpo e a alma ser tensa – e boa, porque é assim que se evolui! Um precisa do outro e vice-versa numa relação de dependência mútua. O corpo sem alma vai vegetar e permanecer o mesmo a vida toda. A alma sem corpo não vai a lugar nenhum, nada se materializa, uma vez que não tem como se expressar.

Nessa tensão, reside a genialidade da evolução da vida, porque é dessa tensão que surge o novo e a possibilidade de se marchar em direção ao futuro.

O rabino diz: “O futuro existe se vocês marcharem”.

Marchar sem saber se o mar vai se abrir? Só vai quem acredita em Deus. Que alternativa sobra para quem não tem essa fé?

Marchar ou marchar! Ou bem vamos em direção ao futuro ou ele vem em nossa direção. A questão, portanto, não é se vamos marchar, mas como iremos!

Nós, os humanos, temos um grande obstáculo nos separando de nosso futuro: uma realidade cada vez mais complexa, com crescente diversidade de raça, gênero, religião, política, de estilo de vida, de tudo, e com relações sociais cada vez mais interdependentes! Esse é o nosso mar Vermelho. A terra prometida está do outro lado, com uma ciência e uma tecnologia que nos prometem o maior potencial de solução para todos os problemas que não conseguimos resolver até o presente.

Para chegar lá, no entanto, precisamos acreditar que é boa a tensão entre os diversos e entre os opostos, e entender que o que vai surgir dessa tensão é algo novo, melhor e desconhecido. Eu, pessoalmente, gosto de chamar o processo de aprender a lidar com a tensão entre opostos de amadurecer. A gente sabe o que é amadurecer, embora muitas vezes a gente prefira continuar jovem, imaturo, e escolher excluir o outro como solução dos conflitos. Existe, sim, o risco de o passado continuar mandando no nosso presente e de nossa travessia colapsar em guerra e deterioração, potencializadas com tanta ciência e tecnologia.

Para mim, a ordem é amadurecer. E rápido, porque atrás vem gente e o futuro já vem pela frente.

Abraço do amigo que, assim como você, está fazendo de tudo para esse futuro chegar logo,

Ricardo

Créditos

Imagem principal: Celina Portella Auto-sustentável

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