Quando o último fiapo de sonho se extinguiu Mergulhado em silêncio grosso De livro fechado, somente então Pude arriscar, os nervos acompanhando cada respiração Sabia o rigor de meus caminhos não teria fim, De ferro se constituiria meu destino. De fracasso em fracasso construí meu princípio de vitória Encurtei o espaço entre o que era e o que queria ser Porque o que está oculto é que não há nada mais oculto. Tudo é muito claro, apenas a vida que se curva sobre o tempo E assim os destroços sempre se rejuntam A construir, do aniquilamento, aquele sentimento De que as coisas voltam a ser o que sempre foram Cansado de perder e de nunca ter razão Espremido entre silenciosas tempestades sobrepostas Escapei daqueles seres sem alma a mudar como vento Só então percebi que princípio, meio e fim são pedaços Das vidas que carreguei para dentro de minha história Desabrigado em escombros que estava Entre as pedras e poeira de todos meus enganos Coração soterrado na argamassa ressequida Que compus com meus erros desenraizados das fúrias Tudo porque homem é coerção E o limite da liberdade é civilização, invadindo, alastrando-se Enquanto todos esperam em silenciosa oração O oco, o medo de arriscar-se à vida e perder Estão mortos, parecem estátuas alimentando pombos Eu os vi. Olhos parados, nas filas dos ônibus, nas delegacias Pelos hospitais doentes, horríveis, ainda bem que saí Eu e meus pecados distribuídos pelos dias que me verão existir Estou vivo! É vertigem, tudo parado e eu que me julgava perdido Estou me reavendo, procurando indícios de mim Esse inimigo que, de tão antigo, se tornou melhor amigo Tudo parecia seguir descompletando-se vida afora A fome de mim mesmo disfarçada em carência Um suspiro que ameaça se desmanchar em ruínas Distraído da ansiedade, inventei o tédio, o crime inominável De tentar ser feliz Sei que pareço rude, quase um bêbado balançando nas calçadas Livre de meus vilões, fantasmas de cera, das casas, Perdido de meu enredo, já não vivo minha história Hoje, enquanto com as mãos e o sentimento faço a vida De pensamentos comporei meu futuro.
E eu era um trem a me fundir com as sombras
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