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Avidez

Versos perfeitose imperfeitos de nosso colunista sobre a vida

em 21 de setembro de 2005

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Quando o último fiapo de sonho se extinguiu

E eu era um trem a me fundir com as sombras


Mergulhado em silêncio grosso


De livro fechado, somente então


Pude arriscar, os nervos acompanhando cada respiração


Sabia o rigor de meus caminhos não teria fim,


De ferro se constituiria meu destino.


De fracasso em fracasso construí meu princípio de vitória


Encurtei o espaço entre o que era e o que queria ser


Porque o que está oculto é que não há nada mais oculto.


Tudo é muito claro, apenas a vida que se curva sobre o tempo


E assim os destroços sempre se rejuntam


A construir, do aniquilamento, aquele sentimento


De que as coisas voltam a ser o que sempre foram


Cansado de perder e de nunca ter razão


Espremido entre silenciosas tempestades sobrepostas


Escapei daqueles seres sem alma a mudar como vento


Só então percebi que princípio, meio e fim são pedaços


Das vidas que carreguei para dentro de minha história


Desabrigado em escombros que estava


Entre as pedras e poeira de todos meus enganos


Coração soterrado na argamassa ressequida


Que compus com meus erros desenraizados das fúrias


Tudo porque homem é coerção


E o limite da liberdade é civilização, invadindo, alastrando-se


Enquanto todos esperam em silenciosa oração


O oco, o medo de arriscar-se à vida e perder


Estão mortos, parecem estátuas alimentando pombos


Eu os vi. Olhos parados, nas filas dos ônibus, nas delegacias


Pelos hospitais doentes, horríveis, ainda bem que saí


Eu e meus pecados distribuídos pelos dias que me verão existir


Estou vivo! É vertigem, tudo parado e eu que me julgava perdido


Estou me reavendo, procurando indícios de mim


Esse inimigo que, de tão antigo, se tornou melhor amigo


Tudo parecia seguir descompletando-se vida afora


A fome de mim mesmo disfarçada em carência


Um suspiro que ameaça se desmanchar em ruínas


Distraído da ansiedade, inventei o tédio, o crime inominável


De tentar ser feliz


Sei que pareço rude, quase um bêbado balançando nas calçadas


Livre de meus vilões, fantasmas de cera, das casas,


Perdido de meu enredo, já não vivo minha história


Hoje, enquanto com as mãos e o sentimento faço a vida


De pensamentos comporei meu futuro.

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