por Autumn Sonnichsen
Trip #276

“Para, presta atenção. Me engole, me consome, estou aqui para isso”

Ontem saí com um amigo sommelier, um homem gato, forte, bonito e bem-vestido, com aquele sorriso xavequeiro de quem gosta de festas péssimas e mulheres elegantes. Foi uma garrafa e um tanto, e uma conversa afetada entre ele e o sommelier da casa onde estávamos jantando – virou uma competição de conhecimento sobre terroir, uvas... E depois de muitas frases presunçosas deixadas por todos os lados, me deram um pequeno gole de um vinho branco, daqueles naturais sem sulfitos, que as pessoas eruditas falam que têm gosto de terra mineral, enquanto o povo sem filtro fala que tem cheiro de xixi de cavalo. Tomei esse pequeno gole no fundo da taça e me veio um cheiro forte de limão-cravo, um azedo suave, uma sensação de pasto, do suor fresco de uma mulher andando a cavalo no sereno.

Eu me recordo da última vez que andei a cavalo com uma amiga e ficava balançando na sela tentando pegar os limões das árvores durante o galope. Lembro que esse cavalo não gostava de mim e lembro também dos meus amigos que abandonaram os cavalos deles para namorar atrás de uma pedra. Vem à minha memória a textura da pele do limão-cravo na minha mão, da parte áspera e da macia, do cheiro do zesto, que é diferente do cheiro do suco, do barulho da folha quebrando entre meus dedos, tudo isso enquanto ouvia meus amigos sussurrando os pequenos prazeres do amor. Lembrei-me de tudo isso em menos de dois segundos, o tempo de arejar o vinho, o tempo do gole, a expectativa de antes e o calor silencioso do depois.  

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Como meu amigo sommelier me disse: “Autumn, por um momento, você não estava aqui. Você estava muito longe, com suas lembranças de outras terras. Não estava aqui na mesa, comigo, com esse prato de peixe e a luz baixinha e o barulho da conversa do casal do lado. Esse gole de vinho te fez viajar. Por isso que eu gosto de vinho”.

Meu amigo é gringo e não conhecia o limão-cravo, por nenhum de seus tantos nomes – limão-rosa, caipira, galego –, todos eles poéticos, simples e amorosos. Mas ele conhece esse vinho dourado e sutil, então, em parte, já conhece.

Uma taça de vinho te diz: “Para, presta atenção. Eu, taça nobre, estou aqui. Me engole, me consome, estou aqui para isso”.

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