Assassinos por natureza
'A prisão sempre foi um deposito de 'lixo humano'. Claro, não eram normais. Mas o que é ser normal?'
Costumo dizer que vontade é uma coisa que dá e passa. Os pensamentos atravessam as mentes sem que lhes seja exigido documento na entrada. São o que são, simples assim.
Dito isso, quem nunca pensou em matar alguém, pelo menos algumas vezes em sua vida, não está vivo. O homem tende ao assassinato. Talvez por razões atávicas. Mas criou contensores poderosos que o impedem. Mas, na hora da raiva, a fúria toma conta e pode nos cegar.
Conheço pessoas extremamente educadas e cultas de quem jamais se esperaria uma atitude mais hostil, e que afirmam, com todas as letras, que não estão a salvo de serem presas. Isso porque se julgam plenamente capazes de, num descontrole, ferir ou até matar. No fundo, sabemos bem quem somos. Podemos enganar os outros, às vezes até nós mesmo, mas não sempre. Como tudo neste mundo, até para sermos estúpidos há limites, embora às vezes pareça que a imbecilidade humana é infinita.
Reconheço o perigo que represento para mim mesmo. Talvez não mais para os outros, porque sou violento comigo mesmo para não ser com os outros. Em entrevista, o astro cinematográfico Mickey Rourke afirmou que, em parte de sua vida, andava constantemente escoltado. Isso não seria novidade se ele não complementasse afirmando que o segurança era para os outros, e não para ele. Estava tão agressivo que precisava pagar para que um especialista defendesse as pessoas dele. Era sua maneira de ser violento consigo mesmo para evitar ser com os outros.
Já li, nem recordo onde, que agressividade tem a ver com insegurança, fraqueza pessoal. Concordo em parte. Eu sempre fui pequeno (1,68 metro, talvez menos). Em terras em que a força e o tamanho físico eram a lei, sempre estive armado e pronto a reagir ferozmente a qualquer ataque. Aprendi que não é o tamanho do homem que vale. Antes vale o tamanho da briga desse homem.
Depois, aprendi a lutar boxe e tornei-me muito menos agressivo. Sabia que poderia enfrentar o que viesse que não me sairia tão mal. Era capaz de me defender, o que me tranqüilizou. Conheci pessoas, na prisão e até fora dela, cuja violência e agressividade me pareciam gratuitas. Faziam por prazer, sadismo ou loucura mesmo. Personalidades psicóticas ou psicopatas. A prisão sempre foi um grande depositório do "lixo humano" que a sociedade renegou. Claro, não eram normais. Mas o que é ser normal?
Normalidade picada
Os padrões hoje estão se tornando cada vez mais elásticos. Provavelmente para abranger as paranóias e neuroses que a existência nas grandes metrópoles produz. Chico Picadinho é uma "p.p.", segundo ele mesmo. Personalidade psicopática. É um grande pesquisador de si mesmo, leu tudo o que há de mais avançado no campo das pesquisas psicológicas e psiquiátricas. Está plenamente consciente de sua patologia. Esse meu infeliz amigo de tantas décadas de sofrimento prisional é a pessoa mais doce, amiga e amena que pode existir. Possui cultura invejável e seu diálogo é extremamente interessante. Pinta quadros e trabalha com papel machê com sensibilidade fina do grande artista que mora lá dentro dele.
Não é um psicopata. Tem sentimentos, gosta de pessoas e é um bom amigo. Desenvolve-se bem na convivência prisional, é querido e apreciado até pelos guardas. É um vendedor profissional, daqueles que efetuam grandes negócios, dada sua simpatia natural e excelente articulação. Chegou a vender grande parte dos livros e coleções catalogadas nos antigos índices de livros da Biblioteca da Penitenciária do Estado.
Está preso há muitos anos. Não sei se um dia o deixarão sair. Todos temem, ninguém quer assinar um laudo de liberação. Certa ocasião, depois de cumprir 10 anos de prisão por haver assassinado uma mulher, picado em pedaços e colocado dentro de uma mala (o famoso "crime da mala"), ele foi solto. Trabalhava dentro da penitenciária, no setor de Biotipologia, onde, antigamente, se emitia pareceres e laudos de caráter psicológico ou psiquiátrico sobre os presos do Estado. Não ficou claro, mas ficou parecendo que ele conquistou a confiança dos médicos e psicólogos.
O fato é que acreditaram nele e resolveram lhe dar uma chance. Emitiram parecer favorável à sua liberação em livramento condicional. Após efetuar a venda dos livros à biblioteca da prisão e chefiar enorme equipe de vendedores por um período, tornou a cometer o mesmo tipo de crime.
Levou uma prostituta ao hotel. Depois ou durante o ato sexual (ele não esclarece), estrangulou, cortou o corpo metodicamente e acomodou em pedaços dentro de uma mala. Perguntado, respondeu-me que não picava as mulheres como escandalizavam os jornais. Não era por prazer ou paranóia. O fim era prático: adequar os restos ao tamanho da mala para poder dar fim ao corpo sem que ninguém percebesse.
Isso caracteriza psicopatia. Não havia sentimentos com relação às vítimas. Eram apenas corpos que ele tinha que se desfazer. Mas ele não é sempre assim. Segundo ele, aconteceu quando bebeu algumas doses. No mais das vezes, é um pacato e honesto chefe de equipe de vendas. Deve, neste instante, estar atirado no fundo de alguma casa de tratamento e custódia, preso feito bicho, sem esperanças de ser solto. E lá se vão muito mais de 30 anos.
O que fazer com esse homem? Creio que já ultrapassou os 60 anos de idade. Deixá-lo preso até que definhe e morra? A questão é que nenhum de nós deixou de ser atingido pela sanha assassina. A única brutal diferença é que a maioria consegue se conter.
* Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há dois anos Mendes conquistou sua liberdade. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Não deixe a noite morrer
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu