As malas e nossa maturidade
Se você não aprendeu a fazer a mala, ainda não chegou ao mundo adulto
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Há anos que tento o impossível: fazer a mala com estilo, eficiência e eficácia. Já nem penso em elegância, pois esse é o estágio supremo da perfeição na arte de preparação das malas. Sempre foi um martírio, e o fracasso na empreitada representava um aborrecimento perturbante. Porque fazer as malas exige não só um alto grau de organização. É preciso também um pouco de paciência, um traquejo manual e, sobretudo, um senso acurado de importância das coisas. Ou seja, o fulano que faz bem a mala está pronto pra vida civil e todos os seus discretos desafios. Pois a preparação da mala é, necessariamente, um ato de engajamento. Você precisa fazer escolhas a toda hora, renunciando às leviandades. Levo essa segunda camisa pólo ou deixo espaço pra camiseta branca da Hering? Levo a calça jeans ou só vou de social? E aquela meia de corrida? Vou precisar de quatro mesmo ou não vou correr sequer um dia e me afogar nos drinques do fim da tarde? Mais do que uma frescura estética, é quase um ato de estadista, ao admitir que certas atividades não serão cumpridas e não adianta levar o tênis de corrida, na expectativa do cumprimento da agenda esportiva, pois, admita, ela não será cumprida. Ao menos naquela viagem.
Mas cada viagem é um diferente desafio. O fim de semana no campo requer um senso apurado de escolhas. Levar cinco camisas por estar na dúvida revela um alto grau de postergação do maleiro. O desafio inicial, portanto, é fazer um corte de itens básicos. Se passar essa etapa, é possível afirmar que este é um indivíduo pró-ativo e tende a tomar decisões incisivas. O tempo na escolha dos itens também revelará traços importantes de comportamento. Se mais de um minuto se passar entre a escolha da camisa, há grandes chances de esse ser nunca virar CEO de alguma empresa. Se, porém, estiver em dúvidas de comportamento sexual, estará desculpado e até mesmo 3 minutos pras camisas serão aceitáveis.
A mala na praia é a do tipo mais fácil. Aqui, mais do que 5 minutos na preparação revela sérios distúrbios de personalidade. É preciso dar descontos às mulheres, onde o cronômetro deve ser interrompido na parte da escolha dos cremes. De volta aos itens básicos, o cronômetro deve rodar sem perdão.
Viagens mais longas, daquelas do tipo 2 ou 3 semanas na ásia estão entre as mais difícieis. O fulano não só precisará de todo senso apurado de escolhas, como também necessitará dos traquejos manuais. Mala desarrumada, ainda que entulhada com os itens corretos, invalida toda pré-seleção de peças bem escolhidas. O fulano é bem prático, mas não tem poder de finalização, deixando o acabamento de lado. Há traços de engenheiro na personalidade.
Mas a pior de todas são as viagens longas, aquelas de um ano e de mudança de território. Estas equivalem ao vestibular para o estágio adulto. O fulano precisa não só separar tudo, prevendo mudanças climáticas e alterações de humor, como também tem que encaixar toda uma vida num saco com rodinhas. Contêiner não vale. Colocar tudo num caixotão e despachar por navio, embora ganhe pontos em praticidade, revela a desistência diante do desafio das escolhas e um apego quase religioso aos bens materiais. O indivíduo não consegue, sem um aperto no coração, se livrar de peças de jogo de botão soltas no fundo da gaveta. Manda empacotar tudo.
Não é à toa que malas são feitas com muito maior competência por mulheres. E não se caia na justificativa fácil de que ‘isso é coisa de mulher’. Mentira. As moças levam a melhor porque são naturalmente precoces. Amadurecem mais rápido.
Quanto a mim, não tenho dúvidas. Quando combinar em três malas, muito bem dispostas, anos de moradia (os livros não contam), estarei um homem maduro.
Por enquanto, ainda preciso de quatro valises.
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