por Camila Eiroa

Arnaldo Antunes lança seu 16º disco, inspirado em viagens e descobertas na Índia. Marisa Monte e José Miguel Wisnik são algumas das participações

"Eu decido fazer um disco quando é a hora", diz Arnaldo Antunes, que aproveitou seu período de férias para buscar inspiração. Seu novo disco, Já é, apresenta canções que nasceram durante as viagens do cantor, especialmente a que fez para a Índia, destino que mais influenciou o álbum.

Com temáticas que exploram a espiritualidade, Arnaldo também se aventura em composição inédita que fala sobre política, a faixa Óbitos. O trabalho é resultado de parceria inédita com o carioca Kassin, um dos principais produtores musicais da nova geração. Outras participações, já tradicionais como Marisa Monte, também marcam presença no novo álbum. 

Leia abaixo entrevista com Arnaldo Antunes sobre o recém lançado Já é.

Além do álbum, você também lançou um novo livro - Agora aqui ninguém precisa de si. O que muda no seu processo criativo na literatura a musical? Geralmente ao escrever eu já sei se aquilo é pra ser cantado ou lido no papel. São atitudes diferentes. A música é mais coletiva, e o livro, tanto na feitura, quanto na recepção, é mais introspectivo e individual. Na canção existem as parcerias, o tocar junto com outros músicos. Mas as exceções também são muitas, porque já fiz poemas que depois de algum tempo foram musicados. Esse trânsito é muito vivo.

São dois anos desde Disco (2014), as canções de Já é nasceram neste período? A maior parte foi escritas até o começo de junho deste ano, que eu viajei muito e aproveitei pra compor boa parte do repertório do Já é. Percebi que componho muito durante as férias e de um jeito mais espontâneo, tenho uma disponibilidade emocional mais propícia, sem prazo ou demanda específica. É um período que eu posso ler, escrever e tocar sem muito compromisso. 

Uma dessas viagens foi à Índia, certo? Sim, e o encarte do disco traz fotos de lá. Acho que a Índia de certa forma impregnou algumas temáticas nesse trabalho - tem canções que eu compus por lá, inclusive. Existe todo um ambiente cultural, filosófico e religioso que eu entrei em contato nessa minha primeira ida e que está presente nas canções.

Você acha importante o artista sair do seu lugar comum para conseguirproduzir coisas novas? Não, não acho que é necessário para um artista… É necessário pra qualquer pessoa [risos]. Viajar é enriquecedor. Conhecer outros povos, outras culturas, outros cheiros e outros sabores é enriquecedor, mas ninguém depende disso pra criar.

O clipe da faixa Põe fé que já é mostra você caminhando por uma diversidade de pessoas e de relações. Acho que a gente vive um mundo com muita intolerância, muito sectarismo. É um clipe que aposta nisso, na diversidade e na riqueza da diferença. Essa mensagem pode servir pra qualquer pessoa, é positiva, põe fé que já é! A gente quis aproveitar a oportunidade de fazer o clipe pra expor essa coisa da diversidade, de tipos humanos dos mais variados. Isso criou uma outra mensagem, subliminar a música.

Por outro lado tem a faixa Óbitos, que é mais política e sem tanta positividade. Como você acha que isso se contrapõe? A Óbitos é uma música que quer jogar luz para uma realidade muito específica, muito focada na responsabilidade dos legisladores, dos políticos e das pessoas que estão, de certa forma, gerenciando o futuro de grandes populações através das leis. É uma responsabilidade sobre a vida e morte das pessoas e que é um pouco invisível. Tem gente que não está muito ligado nisso, que pensa que violência é só o que ataca diretamente... Mas não, existe uma realidade cruel por trás do que se legisla. Faz tempo que queria falar desse assunto, então veio essa melodia do Péricles que, por ser um reggae de raiz, tem essa tradição de falar de uma maneira contundente da realidade social.

"A arte tem uma coisa indomável e livre"

Você acha que a música tem esse papel também? Tem. A arte de certa forma é um pouco isso, de você reparar no que não está sendo visto ou estranhar o que está sendo visto com normalidade.

Dentre as canções, muitas falam sobre olhar pra dentro, sobre meditação. A música ajuda nesse processo? Acho que a arte não é um instrumento de transformação social no sentido pragmático, mas a arte está alterando a sensibilidade e a consciência do indivíduo. Esse papel é ao mesmo tempo maior e menor do que o dos políticos, porque a gente faz uma transformação de micro política, de estar agindo sobre as pessoas. Não é uma coisa com resultado previsível ideologicamente, é uma coisa que você faz pra nutrir as pessoas de impulsos, de insights, sem uma meta pragmática. E é muito mais interessante que seja assim, um veículo de transformação individual, sem outras missões que possam ser atribuídas à arte, senão você passa a fazer propaganda. A arte tem uma coisa indomável e livre.

Como foi trabalhar com o Kassin? Ah, foi muito legal. Ele é muito versátil e tranquilo. Adorei a maneira como o trabalho fluiu e os músicos que foram chamados, fiquei muito à vontade no estúdio.

E dessa vez foi gravado no Rio. Foi! Eu queria dar uma renovada no jeito como eu vinha gravando os últimos discos, sempre com os músicos que me acompanham ao vivo. Pensei: vou gravar diferente. Fui pro Rio, com um produtor que eu nunca tinha trabalhado, mas queria trabalhar faz tempo, chamamos os músicos de lá e o único que a gente levou foi o Marcelo Jeneci. Tudo isso traz um ar novo pra sonoridade do que eu vinha fazendo.

Qual é esse ar novo? É um disco mais sereno em relação aos outros, tem só dois rocks e algumas temáticas que acabam fazendo as músicas comporem o contexto de contemplação e de atenção ao instante. A viagem à Índia de certa forma contribuiu para essa espiritualidade latente, que não tem nada a ver com religião, mas que possibilita uma percepção diferente das coisas. 

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