Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Sempre que o personagem de um filme confessa um crime no seu diário, o público já sabe que esse diário vai ser encontrado mais tarde.
Alguns acusam o roteirista de recorrer a uma fórmula fácil. Mas isso é injustiça. Vejamos esse tal médico pedófilo. Jogou a prova do crime no lixo, intacta. Podia ter queimado as fitas, jogado no lixo de casa, mas não. Por alguma estranha razão que foge à compreensão, ele jogou as fitas prontas para serem vistas num lixão. Será que ele esperava que as fitas fossem assistidas por mais alguém?
Não sei, mas aproveito a deixa para imaginar que o criminoso deve ter um prazer em revelar o crime a poucos. Quem sabe ele busca dessa forma certa conivência e, portanto, absolvição.
Foi assim em Festim Diabólico, de Hitchcock, filme inspirado num fato real que conta a história de um casal que esconde a vítima do seu crime num baú e resolve fazer um banquete em cima dele. Enquanto todos perguntavam pelo convidado que não chegava, um dos dois se divertia dando pistas do crime para seu antigo tutor da escola.
Voltando à vida real, podemos nos lembrar do ACM contando ao procurador Luís Francisco que tinha a lista da votação secreta do Senado. É claro que alguns cometem deslizes e acabam por confessar crimes que não cometeram. Como uns alunos de Medicina da USP que foram brincar em frente à câmera dizendo que tinham ‘afogado o japonês’, numa referência ao calouro que morreu afogado na piscina da universidade. Acabaram presos e soltos mais tarde.
Por que ninguém acredita então nas confissões presentes nos diários dos roteiros? Não sei, mas lembro a trama da novela da Globo em que a personagem trocou o seu bebê sadio com o bebê morto da filha na maternidade e não contou a ninguém, só ao diário. Este veio à tona mais tarde. Por que não?
Posto que essas coisas acontecem, imagino aqui, sem mais delongas, o diário* mais esperado do Brasil, o diário de Paulo Maluf.
‘Querido diário,
(…)** por isso ninguém acredita mais em mim! Eu não tenho conta na Suíça. Não estou mentindo, especialmente porque a conta está em nome de outra pessoa. Ninguém me entende! Outro dia fui contar uma piada num programa de TV:
— Um árabe faz um negócio com um judeu. Qual dos dois sai perdendo?
Ninguém acertou, mas era fácil: o fisco! Mas por que não acharam graça?’
Não, pensando bem, Maluf não escreve diário. Afinal, por que se confessar ao próprio diário em busca de absolvição, enquanto se tem o Diário Oficial para isso?
De qualquer maneira: sim, eu acredito em diário, especialmente naqueles não oficiais.
P.S.: 1) Esta coluna é produto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera inspiração.
2) A referida piada foi contada por Maluf num programa da Rede Vida – foram censurados os trechos referentes a taras com queimadura de bituca de cigarro.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu