por Eduardo Lemos

46 anos depois, livro que inaugurou o gênero continua influenciando gerações de autores

Uma das mais importantes obras da literatura ocidental do século XX, A Sangue Frio foi o trabalho mais cultuado do escritor Truman Capote. Publicado inicialmente no final de setembro do ano de 1965 pela revista americana The New Yorker, a história saiu em quatro capítulos que esmiuçavam os detalhes do brutal assassinato da família Clutter, ocorrido nos Estados Unidos. Lançado em livro um ano depois, a obra causou uma pequena revolução nas redações e elevou um gênero ainda obscuro a uma espécie de nova arte da escrita.

Mesmo com o sucesso do livro Bonequinha de Luxo, de 1958, o autor resolveu encarar uma dura empreitada de reportagem no ano seguinte, após ler um artigo de 300 palavras no jornal New York Times sobre um homicídio quádruplo na minúscula cidade de Holcomb, que contava na época com apenas 270 habitantes. Durante a pesquisa, o autor compilou mais de oito mil páginas de anotações, acompanhando de perto os passos de todos os habitantes que estivessem remotamente associados às vítimas. O caso do massacre da família Clutter foi solucionado em apenas seis semanas, mas Richard "Dick" Hickock e Perry Edward Smith só foram condenados à morte e executados por enforcamento em abril de 1965. A demora adiou o lançamento do material e deixou o escritor à beira da depressão.

Quando finalmente foi publicada, a reportagem esgotou edições da The New Yorker por todos os EUA. Com o êxito, a edição em livro chegou às livrarias apenas quatro meses depois e passou dez semanas no topo da lista de mais vendidos do New York Times, permanecendo 32 semanas entre os dez mais vendidos dos EUA. Só em 1965, “A Sangue Frio” vendeu mais de 100 mil cópias. Depois que a adaptação para o cinema foi indicada ao Oscar no ano seguinte, o livro passou da marca de 158 mil exemplares vendidos. Aqui no Brasil, só uma das edições, lançada pela Companhia das Letras na coleção “Jornalismo Literário”, já vendeu quase 25 mil cópias desde que foi lançada, em 2003.

O selo já publicou 26 volumes que reúnem as mais importantes produções do chamado “novo jornalismo” em edições tradicionais e de bolso. “São textos clássicos do gênero reunidos em uma série, sempre com posfácios que ajudam a esclarecer o contexto em que essas grandes reportagens foram produzidas”, conta o jornalista Matinas Suzuki, diretor de comunicação da editora. Ele promete uma comemoração especial no cinquentenário da obra, em 2015. “Nós temos uma grande afeição por este livro”, admite.

Jornalismo Literário
Gênese do romance de não-ficção, A Sangue Frio causou um choque sem precedentes no mundo do jornalismo, embora não seja o primeiro livro a ser classificado nessa categoria (é quase um consenso que o título pertence a Hiroshima, de John Hersey). “O jornalismo literário não é propriamente um gênero. É mais um estilo, um jeito diferente de produzir matérias. Mesmo em um cenário de experimentações, Capote fez história ao produzir uma espécie de híbrido entre jornalismo e literatura, com todos os pontos positivos das duas linguagens", destaca André Santoro, professor de jornalismo literário da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

No Brasil, o jornalismo literário vem aos poucos retomando seu lugar nas bancas e nas prateleiras das livrarias. O lançamento da revista Piauí, em 2006, abriu um novo espaço para o gênero ao publicar reportagens mais longas, com ênfase em crônicas e perfis que sempre valorizam a narrativa – três características caras ao jornalismo literário. O idealizador João Moreira Salles, no entanto, prefere não usar o termo para classificar sua publicação. “O que nós fazemos é contar uma boa história”, diz ele, citando, sem querer, um quarto elemento fundamental do gênero popularizado por Capote.

Outros sinais dão conta de que o “novo jornalismo” está voltando a causar interesse em leitores e escritores, como o relançamento de “Honra Teu Pai”, de Gay Talese. Originalmente publicado em 1971, o livro só foi traduzido para o português em 2011, em edição caprichada da Companhia das Letras. André Santoro ressalta que a ‘retomada’ do gênero pode ser vista também na internet. “O site ProPublica ganhou o prêmio Pulitzer de reportagem por dois anos seguidos graças à produção de reportagens em um estilo mais literário”, observa.

O escritor mexicano Juan Villoro, um dos autores de maior sucesso no México na última década, defende a valorização da narrativa como caminho para a sobrevivência do jornalismo em tempos de internet. “Para os veículos, parece ser necessário publicar aquilo que todos publicam”, analisa, em entrevista cedida à Folha de São Paulo em agosto. “É preciso valorizar a narração de histórias, pois elas dão sentido ao mundo. Creio que, nesse momento de confusão e transição, é preciso recobrar a confiança nos recursos do próprio jornalismo”, diz ele, apontando a estrada que Truman Capote já havia colocado no mapa há 46 anos.

O professor André Santoro preparou uma lista com os 5 livros nacionais e internacionais que mais bem representam o jornalismo literário. Veja abaixo.

Internacionais:
- Hiroshima (John Hersey)
- O Segredo de Joe Gould (Joseph Mitchell)
- Fama e Anonimato (Gay Talese)
- Medo e delirio em Las Vegas (Hunter Thompson)
- A Luta (Norman Mailer)

Nacionais:
- Abusado (Caco Barcellos)
- Rota 66 (Caco Barcellos)
- A Milésima Segunda Noite da Av. Paulista (Joel Silveira)
- O Esqueleto na Lagoa Verde (Antonio Callado)
- Chico Mendes: Crime e Castigo (Zuenir Ventura)

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