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A importância de se ter alguém

Por Luiz Alberto Mendes

em 9 de julho de 2010

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A  Sobrinha

 

Depois de mais de 30 anos preso, ao sair minha sensibilidade estava aguçada. Quase o gume de uma faca. Arrepiava na pele, os olhos arregalavam, doía no estômago e o sangue cavalgava dentro das veias. Foi então que reencontrei minha sobrinha.

Eu a conheci com 10 meses de vida. Estive com ela por cerca de outros 6 meses quase que diariamente, antes de ser preso. Passei mais de 32 anos vivendo a idéia de que aquele fora o bebê mais bonito e gracioso que eu vira em minha vida. Nem meus filhos a superaram em beleza e graça. E olha que Renato era lindo e doce quando nenezinho. Os pais se separaram e nunca mais soube notícias daquela criança. Mas ela morava no coração de minha imaginação.

Ficava especulando no que tinha dado aquele nenezinho tão querido. Sempre que ouvia o nome Carla, ficava atento ao sobrenome. Havia uma Carla Mendes que aparecia sempre ao final dos capítulos de algumas novelas da Globo. Ficava lendo aqueles nomes em todo final de novela, para ver se passava o que imaginava ser o dela. Ai me perguntava: já pensou encontrá-la agora? Como estará, quem será? Será que me aceitará? Mas ainda era o bebê que estava em meu imaginário.

Logo após minha saída, ela e a mãe me procuraram. O bebê tão querido havia se transformado em uma bonita mulher. Desde o primeiro momento juntou-se a mim. Era como se nunca nos houvesse afastado. Não precisei dizer nada. As décadas em que estivemos separados desapareceram. O bebê se transposicionou naquela garota e nunca mais fui sozinho. Consegui incluí-la em meu desespero por viver. E ela foi paciente, de uma tenacidade muda. Tem suportado minhas neuroses (ninguém sai impune)esses 6 anos, sem reclamar.

Quando morreu minha mãe, pensei que algo em mim morria também. Estava preso, não pude sequer despedir-me ou enterrá-la. Nunca mais encontrei quem pudesse fornecer a intimidade e profundidade que ela sempre me ofertou. Até reencontrar Carla, minha sobrinha. Se existe alguém que sabe de mim, é ela. Participa e esta sempre junto em tudo. Lê o que escrevo, se interessa pelo meu trabalho, mesmo não gostando de ler. Ouço sempre sua opinião e a aviso sempre onde estou ou vou estar. Estamos sempre juntos e nos ajudamos mutuamente.  

Carla tem me ajudado a viver. Com certeza a vida seria muito mais difícil sem ela. Sua generosidade para comigo é comovente. Como poderia imaginar que aquele bebê pudesse significar tanto para mim? Ainda o vejo aqui em minha tela mental, tenho fotos e jamais esqueço.

De verdade, apesar de tudo o que vivi não posso reclamar da vida. Deu-me inteligência, força, capacidade de perseverar, criar, inventar e… uma sobrinha maravilhosa!

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Luiz Mendes

09/07/2010.

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