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A cultura do abandono

Nosso colunista fala sobre o que o preso produz a partir de sua bagagem criminal

Por Redação

em 6 de março de 2006

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Depois de ficar preso durante 31 anos e 11 meses, em abril de 2004 ganhei minha liberdade. Vivo, agora, um complexo processo de reintegração social. Publiquei três livros: Tesão e Prazer, pela Geração Editorial, e Memórias de um Sobrevivente e Às Cegas, ambos pela Companhia das Letras. Há quatro anos também assino uma coluna mensal na revista Trip e outra semanal no site da mesma publicação.

De minha parte, não há ressentimentos. Concordo que os erros que cometi sejam passíveis de severas penalidades. Também, como todos, quero segurança para minha esposa e meus filhos. Cumpri pena lendo e escrevendo. Refleti e analisei tudo o que vi e vivenciei, tentando compreender o que realmente acontece, o mais importante, por que acontece. Aqueles que orientam a opinião pública acerca da vida intramuros pouco sabem sobre o que estão falando. E, como ninguém cobra veracidade, a prisão permanece obscurecida. A conseqüência é óbvia: ninguém sabe como atuar nessa área.

Prisão tornou-se depósito em que se enterram homens em pé. Tudo é simples e claro. Os transgressores são recolhidos da ação criminosa diretamente para as prisões. Cada qual com seu modus operandi e conhecimentos especializados no crime. O homem é um ser que produz cultura. Onde estiver e em que condição estiver, é produtor cultural por natureza e necessidade. Que cultura poderá produzir, a partir das informações criminosas que traz consigo, abandonado às suas próprias cogitações, entregue a seus desvarios e à sua visão distorcida do que seja a vida?

Dadas tais condições, se conclui que o ser aprisionado só poderá produzir a cultura do crime. Trata-se de algo espontâneo. Algo que podemos chamar de "a cultura do abandonado". Mas o que contém essa cultura? A ciência de quem aprende a sobreviver ao meio adverso, ora. De quem aprende a esvaziar-se de seus sentimentos mais nobres. Como diz o ditado, coração de malandro é na sola do pé.

Qual o diálogo possível entre um assassino e um seqüestrador? Ou entre um ladrão e um traficante? Fica fácil concluir que será sobre crimes, já que não há outro assunto que lhes venha de fora. O nordestino, depois de décadas morando no sul do país, continua gostando de comer a comida, ouvir a música e estar com o povo de sua terra. Cultura não morre, permanece para sempre. São segmentos que, em seqüência, formam cada um de nós. Quando não se toma atitude alguma e se julga que essa cultura criminal deve ser lesiva apenas à sua vítima, erra-se longe. Tal qual jogasse uma bomba para o alto e esperasse que ela criasse asas, como pássaros, e voasse para longe.

Cultura pra quê?
A ação direta de qualquer cultura visa sua expansão. Qual vírus social de contaminação espontânea, devorará culturas mais enfraquecidas, absolutamente. O exemplo mais claro disso está acontecendo presentemente no Rio de Janeiro. Ao misturar presos comuns com presos políticos em Ilha Grande e abandoná-los às suas vicissitudes, criou-se a necessidade da autoproteção. Assim nasceu a Falange Vermelha e sua contrapartida, a Facção Jacaré. Matavam-se pelo domínio físico e econômico das prisões.

Posteriormente, deram ênfase a organizações com maior capacidade econômica, política e de fogo. Nascia o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. Do domínio das prisões para o controle dos morros e favelas, foi um pulo. A cultura dos morros sempre esteve fragilizada pela miséria, pelo analfabetismo e pelo desemprego. Prato cheio para uma cultura poderosa como a criminal, alimentada pelo tráfico de cocaína.

A solução, claro, não é invadir o morro com fuzis e metralhadoras. Antes é preciso trazer cultura, escola, livros. Proporcionar lazer, arte, esporte, emprego, cursos profissionalizantes… enfim, instrumentos sociais de valorização humana. Abrir portões e colocar o homem fora das grades não significa libertá-lo. Para que a liberdade seja verdadeira, necessário que seja cultural e psicológica. Posto que moral e social.

Atitudes urgem a serem tomadas. Cultura é o único remédio para os males sociais. Afinal, as bombas não vão criar asas.

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