por Giulia Garcia

A marca PanoSocial trabalha com 50% de seus funcionários sendo egressos do sistema prisional, ressocializando ex-detentos por meio da moda

O cenário é uma clássica confecção: máquinas de costura, mesas de corte e computadores. A surpresa está em quem está atrás de cada estágio da produção, cuja equipe conta com 50% de egressos do sistema prisional. Foi assim que o designer austríaco Gerfried Gaulhofer, 45 anos, fez da PanoSocial um instrumento de inclusão para um grupo que muito dificilmente consegue se reinserir no mercado de trabalho — e é importante lembrar que o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo, segundo o relatório de 2015 do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (Infopen). "A maioria das pessoas pensa 'ele é ex-detento, vou esconder meu celular, minha bolsa’. Julgam muito sem saber, sem conhecer”, conta Igor, 23, ajudante geral na PanoSocial. Ele passou um ano e meio na cadeia, condenado por assalto a mão armada. "Cheguei a procurar outros empregos, consegui uma entrevista. Falaram pra eu comparecer com os documentos e tal. Quando apresentei o antecedente [criminal], me dispensaram. Fiquei chateado, né?", lembra.

A intenção de Gerfried é justamente transformar essas vidas. "Vários brasileiros os enxergam como uma massa de gente, acho que tem que se olhar cada caso individualmente. Tem casos em que a pessoa nem tinha que ter sido presa e casos em que o preso foi esquecido porque é pobre, não tem família, não tem condições de pagar um advogado", explica.

LEIA TAMBÉM: São tantas as inteligências e as capacidades jogadas fora na prisão. Não as temos em profusão para que possamos desperdiçar potencial assim. Por Luiz Alberto Mendes

A resistência do mercado de trabalho é um dos reflexos mais nocivos da exclusão social. "Grande parte das pessoas que está na prisão está lá porque sai e fica parado. Eu fiquei durante um ano, mas não quis voltar pro crime. Só que tem cara que tem família passando fome. Isso mexe com a pessoa", explica Igor. Segundo dados de 2015 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um em cada quatro condenados reincide no crime. "A gente não está ajudando só ex-presidiários. Estamos ajudando a nós mesmos e a sociedade, porque vários dos delitos são por reincidência", pensa Gerfried.

O modelo de trabalho da PanoSocial foi criado em 2014, junto com a produtora de moda e sócia-fundadora da marca Natacha Barros. Fazer uma grife acarretaria em preços muito altos para o consumidor final, acreditam, por isso optaram por  confeccionar para outras marcas e empresas. Hoje, a empresa conta com um ateliê e uma pequena oficina e vendem roupas para outras marcas, uniformes para empresas e também fazem algumas roupas exclusivas. Pedidos de até 300 peças são confeccionados dentro da Pano; o restante, repassam para fornecedores terceirizados, os quais buscam sensibilizar para a contratação e capacitação de egressos.

Mais do que um trabalho

A indústria da moda é protagonista de diversos escândalos trabalhistas. “A gente vê pessoas trabalhando em regimes análogos a escravidão, em lugares insalubres. E não é só no fast fashion, ocorre também com marcas de luxo e pequenas grifes”, diz Natacha.

Pela dificuldade em arrumar emprego, os egressos são vulneráveis a esse tipo de situação. Por isso, Robson, 26, preso pelo porte de 50g de maconha, resolveu investigar se a empresa adotava tal prática. E encontrou mais do que uma oportunidade de trabalho. "Não sei se eu ‘trabalho’ na Pano, não parece trabalho, é uma experiência bem legal. Eu me sinto muito bem, não ia curtir estar em lugar nenhum por obrigação. Venho pra somar”, afirma. Sensação semelhante tem Igor: “A sensação não é de trabalhar. É como se você estivesse construindo alguma coisa com um grupo de amigos. Não é cansativo ou estressante.”

LEIA TAMBÉM: Ponto Firme, projeto que ensina crochê a detentos, abre o São Paulo Fashion Week

A percepção dos funcionários vai ao encontro de um desejo compartilhado por Gerfried e Natacha, de criarem um ambiente humano de trabalho. “Dedicamos 80% do tempo a produção, 10% a capacitação profissional e 10% para o desenvolvimento humano”, explica o austríaco — entre as ações, todas as segundas, todo mundo participa de um momento de meditação, há também funcionários que fizeram trabalhos externos focados em comunicação não violenta. "O cara colocou a mão no revólver pra roubar porque já tem alguma questão pessoal ou com a sociedade. A meditação ajuda a controlar essa raiva interna", acredita Robson.

Mais do que empregar os ex-detentos, a Pano Social se preocupa em capacitá-los. Na hora da contratação, a preferência é de quem já tem contato com a área. Mas os que nunca tiveram contato não são descartados, são indicados para cursos em instituições parceiras, como é o caso do Senai, ou são treinados durante o trabalho.

Isolar não é libertar

Em 2015, todos os funcionários eram ex-detentos. Atualmente, a situação é outra. "Se tivéssemos só egressos nas máquinas de costura, não deixaria de ser uma cela fora da cela, e isso não é ressocialização", defende Natacha. A medida parece positiva não só para os que tiveram passagem pelo cárcere, mas também para desmistificar os preconceitos de quem nunca se aproximou de uma cela. "A pessoa que está ali, e não é egresso, vai convivendo com você e começa a enxergar de outra forma, vai entendendo. O relacionamento que eu tenho com as pessoas aqui é demais, é minha segunda casa", conta Igor. "Eu não me apresento dizendo que sou ex-detento, a galera na verdade nem percebe. Depois que eu falo, escuto: ‘Pô, é mesmo? Você não tem o perfil!’. Não tem um perfil. Todo mundo comete delito todo dia. Juiz bebe uma cerveja e vai dirigir, diversos outros”, lembra Robson.

Nem só nas máquinas de costura estão os egressos. A empresa conta com uma assistente social, também vinda do sistema prisional, e um apoio psicológico — antigamente feito por um ex-detento, atualmente por uma pessoa sem passagem pelo cárcere. “O importante é empregar. Pode ser em várias áreas da empresa”, diz Natacha. A divulgação das vagas é feita pelas redes sociais e também no contato e parceria com assistentes sociais e instituições de apoio a esses grupos. 

Esse tipo de trabalho é, ao fim, muito mais do que dinheiro. “Eu pude dar orgulho pra minha família, né? Agora meus pais pensam ‘pô, meu filho ta procurando um caminho melhor, diferente. Tá querendo mudar, tá se esforçando.’ Mudou bastante a forma deles me enxergarem”, conta Igor.

Confira na galeria abaixo algumas das peças criadas pela PanoSocial.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

matérias relacionadas