por Caio Ferreti
Trip TV #191

As musas do Pânico e do CQC são mais parecidas do que você pensa

Reunimos Sabrina Sato e Monica Iozzi para falar das diferenças e semelhanças entre Pânico e CQC, política, humor, namoro com deputado e eleições. Acredite: elas são bem mais parecidas do que você pensa.

 

Conseguir colocar Sabrina Sato e Monica Iozzi frente a frente custou semanas de malabarismo telefônico. Quando uma tem a tarde livre a outra está em Analândia a tirar satisfações com um prefeito. Quando a outra pode jantar, uma está no México atrás de um ex-cantor do grupo RBD. Talvez fosse mais fácil marcar em Brasília, onde as duas vez ou outra se trombam enquanto correm atrás, literalmente, de membros do Congresso Nacional. Mas não há por que elas embarcarem para a capital por uns tempos. É que eles, os excelentíssimos, estão de folga.

Tempos de campanha... e durante uma campanha para um cargo público não sobra muito tempo para trabalhar no cargo público para o qual foram eleitos. E foi na casa de Sabrina, uma cobertura triplex em São Paulo, que, na boca do fechamento desta edição, conseguimos reuni-las para um lanche da tarde.

As duas não poderiam ser mais parecidas. Despachadas, donas de uma cara de pau e de um talento de improvisação incomum, são as duas mulheres escaladas para cobrir política em Brasília pelos dois programas humorísticos mais bem-sucedidos do país. Sabrina no Pânico na TV e Monica no CQC.

As duas não poderiam ser mais diferentes. Sabrina foi garimpada no perecível lodo das celebridades instantâneas depois de participar do terceiro BBB. Se tornou fenômeno ao combinar carisma, falta de noção e trajes curtíssimos. Monica foi a escolhida para o CQC dentre 28 mil candidatos. Formou-se em artes cênicas e trabalhava com teatro alternativo. E vai ganhando fama como repórter trajando um fleumático paletó e gravata. Tão diferente de Sabrina que nem considera o que faz humor. “O CQC é uma charge na TV. Tem humor, mas é fonte de informação.” Sabrina dá a sua versão da dissidência: “O Pânico é a turma do fundão. O CQC são os alunos da frente da sala”.

Diferentes sim, mas tudo numa boa. “Querem criar uma rivalidade entre nós que não existe. Outro dia, em um evento, até falei pra Sabrina: ‘Vamos fingir que estamos brigando de verdade?’. Eu adoro essa japa!”, diz Monica.

Foi para falar das impressões que as duas enviadas especiais a Brasília têm dos nossos eleitos que elas toparam nos encontrar. Abaixo, Sabrina e Monica contam como é escancarar o ridículo do poder e tentar fazer o povo deixar de ser palhaço dos políticos enquanto ri deles.

Falta humor entre os políticos?
Monica Iozzi: Falta humor, mas o que falta mesmo é seriedade. Eles são mal-humorados, mas não são sérios. Acho que, em geral, os mais bem-humorados são os mais sérios. E os mais inteligentes são os que aceitam falar com a gente.

Sabrina Sato: Claro! Os que fogem são os que têm algo a esconder. Com o [senador] Renan Calheiros [PMDB-AL], nunca consegui falar.

Monica: Mas mesmo os que não devem nada... tem cara que você puxa a ficha e ele não é um escroto. Mas eles não falam porque acham que a gente faz chacota deles.

Mas no seu caso é difícil definir o que é brincadeira e o que não é...
Monica: Não faço um programa convencional. A gente não quer ser politicamente correto, mas não quer desrespeitar. Por isso não tratamos todos como farinha do mesmo saco. Não vou tratar o [deputado federal] Chico Alencar [PSOL-RJ] como eu trato o [presidente cassado Fernando] Collor.

E esse jeito de cobrir política aumenta o interesse do público pelo assunto?
Sabrina: Isso é que é o bacana. Tenho que passar a informação, mas de um jeito que agrada quem não gosta de política. Minha mãe não sabia quem era o Álvaro Dias [senador tucano que quase foi vice de Serra], e agora sabe porque vê o Pânico. Eu mesma não sabia a cara deles. Mas comecei a me interessar, querer saber mais... E passei a gostar.

Vocês preferem as pautas em Brasília do que as outras?
Monica: Gosto muito de cobrir Brasília. Não porque é prazeroso, mas porque eu vejo o resultado.

Sabrina: Do Pânico só eu vou pra lá. Os caras viram que não dava para ficar indiferente ao que acontecia em Brasília. Mas não pode entrar no Congresso fantasiado de Dilma, de Lula... E assim me tornei repórter investigativa política do Pânico na TV! No início ninguém queria falar comigo, todo mundo tinha medo. Resolvi começar a conversar com eles sobre outros assuntos. Hoje em dia eu sei tudo sobre a vida deles: quem planta açúcar, quem faz banana. Eles me contam da vida, virei psicóloga dos deputados. Converso com eles meia hora pra ter 1 min. de entrevista.

Monica: O CQC não é um programa de humor. É diferente do Pânico, que é mais escrachado. O CQC pode ser engraçado, mas pode ser mais contundente, crítico. Me identifico mais com isso do que com humor. E sempre fui meio topetuda. Se uma celebridade me tratar mal eu saio andando.

Sabrina: Mas e se o político sair andando?

Monica: Aí eu corro atrás dele. Se o político for sem educação eu continuo atrás.

Sabrina: Sabe o que é pior? É que a gente vai entrevistar e eles são muito fedidinhos. Pra não ser indelicada, quando eu sinto o cheiro pego meu perfume e passo até não sentir mais. Ou pego uma balinha e ofereço... gente, isso acontece muito.

Mesmo com bafo, eles dão em cima?
Sabrina: Comigo nunca, nunca, nunca...

Só certo deputado... (Sabrina namora o deputado federal Fábio Faria, do PMN-RN)

Sabrina: Conheço ele há muito tempo, antes de entrar no Congresso! Hoje ele me ajuda, explica coisas do Congresso.

Monica: Ninguém deu em cima de mim também. Mas a menina que contratamos pra recolher assinaturas para a PEC da cachaça... Quase todos deram em cima! [O CQC conseguiu 11 apoios para um projeto de lei que incluía a cachaça na cesta básica, porque os deputados assinavam sem ler.]

Mas, Sabrina, o fato de você namorar um deputado atrapalha seu trabalho?
Sabrina: Não! Ele me ajuda... me explica coisas, tira dúvidas. Acho que eu é que atrapalho mais ele. De vez em quando brigam com ele porque eu sacaneei outro deputado. Ou ele fica bravo com alguém que falou mal de mim.

E vocês acham que o trabalho que fazem vai influenciar o voto das pessoas?
Sabrina: Eu espero que sim, mas a gente precisa rebolar pra poder fazer as coisas dentro das leis eleitorais, tem muita restrição pra TV. A gente não pode nem declarar nosso voto.

Monica: As revistas podem, e acho isso ótimo. Acho bem melhor uma Carta Capital, que assume que apoia a Dilma na capa, do que a Veja, que diz ser imparcial e todo mundo sabe que não é.

Vocês sentem diferença no tratamento que recebem de partidos de direita e de esquerda?
Monica: Isso varia de cada um, independente do partido. O Lula, por exemplo, sempre fala com a gente. Em compensação com a Dilma quase não falamos até agora. E o [deputado federal José] Genoíno [PT-SP] só conversa comigo com a câmera desligada. Aí ele é meu amigo.

Sabrina: Você tem que dizer pra ele: “Deputado, com a câmera desligada eu não quero ser sua amiga!” [risos].

Politicamente falando, vocês veem diferença entre direita e esquerda?
Monica: Esse discurso de dizer que não existe diferença entre direita e esquerda é muito fácil. É claro que existe diferença. Se você pegar o que foi feito nos últimos oito anos para diminuir a pobreza e o que foi feito antes são escolhas gritantemente diferentes. A esquerda teoricamente se preocupa mais em acabar com a desigualdade. Não é que não existe essa preocupação na direita, mas a maneira como isso é feito é diferente.

Sabrina: Mas cada vez a diferença diminui mais. Essas coligações de partidos ajudam muito para isso. Você vê o Michel Temer ser vice da Dilma. O DEM exigir o Índio da Costa vice do Serra.

Monica: A diferença diminui por causa da governabilidade. Senão fica igual ao PSOL, ao PSTU. Legal se agarrar às origens, mas e pra governar? Não tem cultura de partido, votamos na pessoa.

Mas os partidos não têm programas nem ideologias tão sólidas. Nesse sentido não é mais fácil avaliar uma pessoa do que um grupo de gente cheia de interesses ocultos?

Monica: Com 30 partidos fica difícil mesmo. E aí você precisa fazer coligação com gente que nem conhece. E isso queima o filme com a população. O pessoal acha estranho o Temer ser vice da Dilma. Ou o Serra escolher pra vice um deputado de primeiro mandato que ele nem conhecia.

E o que vocês acham do Serra?
Sabrina: Vou dar um conselho pra ele. Ele não tem que tentar ser simpaticão e brincalhão igual ele está tentando. Ele é apagadinho, fazer o quê?

Monica: Sabe o que é? Os assessores estão avisando a eles que as pessoas prestam atenção nos nossos programas. Aí eles querem interagir. Mas é o que a Sabrina falou, o Serra tem que ser autêntico. O FHC não foi eleito duas vezes por ser amigo da garotada.

E a Dilma? Como é pessoalmente?

Sabrina: Eu fiquei muito tempo atrás dela pra ela dançar o “Rebolation”. Um dia ela falou assim: “Porra, Sabrina. ‘Rebolation’ de novo não”, e riu. O Lula é outra coisa. Já viram um discurso dele? Ele é um ator de stand-up comedy. Ela faz você rir, chorar, se emocionar, fala errado, come um monte de “s”... E não adianta ele tentar transferir isso pra Dilma.

Monica: Com a Dilma eu mal consegui falar. A única vez que consegui perguntar algo a ela foi sobre cirurgia plástica.

E a Marina Silva?

Sabrina: Ela é sempre muito simpática comigo. A última vez pedi pra ela fazer uma chapinha no cabelo, passar uma maquiagem, um rímel... Ela disse que é alérgica.

Monica:
No “Povo fala” do CQC perguntaram pra ela: “Marina, por que você não solta esse cabelo e passa um batom?”.

E ainda tentam barrar vocês no Congresso?

Monica: Depois da história da PEC da cachaça, eles pegaram mais pesado e tentaram proibir de novo. Um deputado tentou restringir o acesso de quem não tem o registro de jornalista.

Sabrina: Eu tenho o registro! Eu tenho!

Monica: Mas independente da desculpa que vão arrumar pra impedir nosso acesso, vem cá... é democracia ou não é?

Então me diz, é democracia mesmo?
Monica: É uma democracia que não está funcionando bem, mas é democracia. Se o Maluf tá lá de novo, se o Collor voltou pra lá... a culpa é nossa. O que começa a se tornar questionável, se é ou não democracia, é o jogo de interesses. Em tese eles estão lá para melhorar a condição do povo. Mas muitos estão lá pelos próprios interesses. Muitos já disseram pra mim: “Você acha que é fácil? Então se candidata”.

E você pensa em se candidatar?
Monica: Sabe quando eu me candidataria? Quando houvesse uma reforma política e eleitoral. Essa quantidade de partidos é ridícula. Voto obrigatório é um erro. Esses conchavos de partidos que trocam de lado pra ganhar vantagens também. O Maluf dizia que era pra não votar no Serra, e agora apoia ele.

É possível ser presidente sem se corromper um pouco?
Monica: Eu acho que não... Mas é um círculo vicioso que uma hora tem que acabar. O problema é aquela pergunta: você prefere ficar sem fazer ou fazer algo pra melhorar participando do esquema?

Sabrina: O que eu sinto um pouco lá é que os muito honestos têm poucos amigos. O Suplicy, por exemplo, não tem nenhuma mancha. Ele é um puta de um idealista, sonhador. E por que aquele Congresso não consegue aprovar essas ideias tão boas dele? O Suplicy não tem amigos [risos].

De certa forma é um pouco decepcionante?
Monica: É injusto falar que eu fiquei só decepcionada em Brasília. Porque, se você só fala mal, as pessoas vão se desinteressar ainda mais. Mas é claro que eu me decepcionei. Eles chegam terça à tarde, vão embora quinta depois do almoço. E pior... tem gente que eu nunca vi lá. São 513 deputados, eu sempre falo com os mesmos 50...

Sabrina:
Eu fico mais no Senado. Dos 83 senadores, entrevisto 20 no máximo. O pessoal do Pânico reclama comigo que não entrevisto outros. Mas não acho eles. E olha que eu fico o dia inteiro na porta do Senado, de salto alto.

Monica:
Vou de tênis pra correr atrás deles.

Tirando o calçado, vocês veem relação no trabalho de vocês?

Monica: Pânico e o CQC são muito diferentes, mas querem criar uma rivalidade que não existe. Eu digo que o CQC é como uma charge na TV. Tem humor, mas a gente é fonte de informação.

Sabrina: Outro dia eu falei assim: “Gente, o CQC é da primeira fila, a gente é do fundão. Eles usam uniforme e têm roteiro, nós não”.

Legal, acho que é isso.

Sabrina: Então vamos falar de coisas legais agora! [Gargalhadas]

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