O ex-jogador o artista plástico garantem que felicidade vai além do sucesso profissional

Famosos pela excelência em suas atividades e reconhecidos pela seriedade de seus trabalhos sociais, o ex-jogador de futebol Raí e o artista plástico Vik Muniz não se conheciam pessoalmente até serem apresentados no sexto e último encontro entre homenageados do Prêmio Trip Transformadores 2010. Descobriram que, além de pais cearenses, têm em comum o desejo de usar o sucesso pessoal para diminuir a desigualdade social. “O maior luxo é ter a consciência tranquila, saber que você faz sua parte”, observa Vik Muniz. Radicado em Nova York e com obras exibidas nos principais museus do mundo, o artista plástico de 49 anos mantém seu estúdio em Parada de Lucas, bairro pobre da zona oeste carioca: “O sucesso te distancia do mundo. Você começa a circular em áreas exclusivas, ver um grupo restrito de pessoas. Comecei a ficar com medo disso. O topo é muito solitário”, diz Vik. “Tive que parar de querer ser o melhor e me imaginar repartindo a ideia de ‘ser o melhor’’’, conta o artista, que tem intermediado o apoio de empresas a entidades de cunho social.

A conversa acontece na Vila Albertina, zona norte de São Paulo, onde Raí, 45 anos, mantém a Fundação Gol de Letra, oferecendo programas de educação através da arte e do esporte, além de reforço escolar e apoio às famílias dos estudantes. “Chegamos a montar um escritório na zona central da cidade, mas percebemos que precisávamos funcionar dentro da comunidade”, diz o craque, que acumula, entre outros, os títulos de campeão do mundo com o Brasil em 1994 e campeão mundial e da Libertadores pelo São Paulo. Há 12 anos, desde que se aposentou do futebol, Raí criou a instituição com o amigo e também ex-jogador Leonardo. Funcionando em uma antiga escola pública, na região conhecida como Morro do Piolho, a Gol de Letra também atua no bairro do Caju, na zona norte do Rio. Reconhecida pela Unesco como instituição-modelo, a fundação atende mais de 1.200 crianças e jovens por ano. Seus métodos pedagógicos viraram políticas públicas do Estado de São Paulo e começam a ser reproduzidos em Goiás e Guiné Bissau, na África.

“É muito bom promover o impulso da mudança em cada um”

Alfabetização visual
Quando Vik chegou à Gol de Letra, um pequeno grupo de estudantes do curso de artes o esperava. Munidos de blocos de notas e uma câmera, aqueles meninos e meninas por volta de 15 anos queriam saber o segredo do sucesso do artista. “Mais de 90% dos brasileiros nunca foram a uma exposição de arte. E é o artista quem deve mudar isso. As empresas me procuram e eu repasso a encomenda do trabalho a instituições sociais”, conta Vik, ressaltando a importância de as pessoas terem em sua formação, além da alfabetização de escrita e leitura, também uma espécie de alfabetização visual, introduzindo-as ao mundo da imagem e da arte.

Sua série “Imagens de lixo”, criada a partir de lixo reciclado do imenso aterro sanitário do Jardim Gramacho – no bairro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ) –, inspirou a abertura de Passione, atual novela das nove da Globo. As instalações de “Imagens de lixo”, cuja renda foi revertida aos catadores do material reciclado, geraram outro projeto social, desta vez em parceria com a ONG carioca Spetaculu, do cenógrafo, artista e diretor de arte Gringo Cardia, cujos alunos realizaram as três obras exibidas na abertura da novela.

Interessado nas ações da Gol de Letra, Vik se propõe a organizar para os alunos da fundação uma exibição do filme Lixo extraordinário, coproduzido pela O2 Filmes e uma produtora inglesa, sobre seu trabalho em “Imagens do lixo”. “A gente esquece que tudo está interligado. Hoje em dia é preciso ter a capacidade de fazer conexões. Não é o homem que vai salvar a humanidade. É a humanidade que vai salvar o homem”, diz ele, seguido por Raí: “É muito bom tocar as pessoas, promover o impulso da mudança em cada um e na sociedade. E agradeço à Trip por promover esses encontros entre os homenageados. Faço questão de fazer parte desse movimento de transformação”.

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