por Tiago Brant

Numa vila escondida no Chile fica a maior pista esquiável do continente, paraíso na neve

A sensação de velocidade na neve é intensa. Uma fina lâmina de aço crava a prancha de snowboard na superfície lisa da ladeira branca. As pernas tremem, o coração dispara.

E pensar que, até poucas semanas atrás, a cena seria impossível. Esta é uma temporada tardia nas montanhas do continente sul americano. A maior nevasca da temporada acaba de  cobrir a cordilheira dos Andes. Neste exato momento, a neve soterra tudo ao redor do vulcão nevado, o pico mais alto da área. E, para a alegria de esquiadores e snowboarders, já faz praticamente uma semana que o sol não é visto na região.

A primeira das seis nevadas desta temporda aconteceu no princípio de junho, mas a cobertura não foi suficiente para abrir a maioria das pistas. Até o início de agosto, grande parte dos 10.000 hectares de superfície esquiável da tradicional estação de Termas de Chillan continuava impraticável. A área abriga a maior superfície esquiável da América do Sul, com 28 pistas, num total de 35 km em 1.100 metros de desnível. Fica ali a mais longa pista da região, a famosa Três Marias, com 13 km de extensão. Isso sem contar as imensas possibilidades de ski fora de pista, com o apoio de motos de neve, tratores de neve e, claro, helicópteros. 

Estações de ski costumam ser bastante parecidas, com uma cadeia de montanhas nevadas ao redor, pistas bem desenhadas, roupas coloridas por todo lado, filas nos “ski lifts” e um certo  glamour que só o inverno é capaz de imprimir. Mas aqui, nos arredores de Termas de Chillan, não é bem assim. Principalmente nesta temporada, espremida entre uma crise financeira mundial e a pandemia da gripe “porcina”. A cadeia de montanhas está lá, assim como a neve e os veículos 4x4. Mas o lugar está vazio, tranqüilo ao extremo, apesar da boa qualidade das pistas vigiadas por sete vulcões, agora que a neve domina a paisagem.

A maioria das estradas é de terra e a vila de Las Trancas não passa de uma concentração de pequenas lojas comerciais, uma pizzaria e um albergue da juventude. Nos arredores da vila, estradinhas encharcadas de lama e neve levam os mais desapegados para um vale distante da civilização. É a minha primeira vez no vale do Shangrilá, apenas um riacho pedregoso na veia de uma cadeia de vulcões quase 500 Km ao sul de Santiago, a capítal. Para chegar até aqui é necessário ter experiência, conhecimento e contatos cultivados ao longo de anos.

Mauro Cláudio Vieira Borges, vulgo Macau, skatista e snowboarder de Guaratinguetá, frequenta a região há 10 anos. Conhece os meandros locais e troca mais que palavras com os habitantes do vilarejo. Passa alguns meses por ano nas ladeiras nevadas da região, como se aquelas montanhas fossem aqui ao lado (“e são!”, ele diz). Helder Correia, seu comparsa nessa trama internacional, concorda em termos, “Foram seis dias de viagem, mais de 4.000 km rodados, muitas cidades, paisagens e pessoas no caminho, mas o corpo paga um preço, alto.”

Os dois saíram de São Paulo num domingo de sol, passaram por Foz do Iguaçu, Corrientes (já em terras argentinas), Córdoba, Mendoza e Santiago, antes de chegarem ao escondido vale de Shangrilá. Mas não estavam sozinhos. A idéia do Dedé era produzir um programa de TV com a aventura e, para isso, chamaram um amigo produtor com larga experiência em tecnologia, Luiz Fernando Amoasei, que, entre longas tiradas ao volante, atualiza o blog da experiência. A essa altura a turma já está na estrada voltando para casa com as imagens da aventura na bagagem, mas se você está afim de ver o que os meninos estavam fazendo no Shangrilá, é só acessar: www.outroscaminhos.com.br !
   


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