O Paraíso na sarjeta
O ensaio "Meu Doce Paraíso", que retrata sua vizinhança, no bairro da República, em SP, foi o principal premiado pelo LensCulture em 2016 nessa categoria
É difícil encontrar reações tranquilas em relação ao trabalho fotográfico que Fabricio Brambatti, 28, desenvolve no centro de São Paulo. Para parte do público, seus registros despertam algo entre assombro e repulsa. Mas para um dos mais prestigiosos e disputados espaços da fotografia contemporânea, o site LensCulture, Brambatti é hoje a principal revelação da foto de rua do mundo.
O ensaio Meu Doce Paraíso, que retrata sua vizinhança, no bairro da República, foi o principal premiado pelo LensCulture em 2016 nessa categoria. O júri é composto por figurões de veículos como o jornal Washington Post e das revistas gringas Foam e COLORS.
Moradores de rua, transsexuais, prostitutas (e às vezes a intersecção dos três grupos) são as estrelas. Há ainda um vizinho morto no elevador de seu prédio, restos de comida na calçada e muito sangue, no chão ou no rosto dos retratados.
MICROCOSMO
Brambatti não raro anda com os olhos pregados na sarjeta, para onde muitas vezes aponta a câmera. Sua fala é tranquila e seu método de trabalho, obsessivo. Todas as fotos que saem da máquina analógica, uma Leica, são reveladas numa cozinha transformada em laboratório, o que já lhe rendeu coceiras e irritações estranhas na pele.
Encontramos com Brambatti para uma saída fotográfica de 10 km a pé pelas cercanias de seu doce paraíso. Ele escolheu que fôssemos num sábado, às 6h da manhã. É nesse o horário que os inferninhos abrigam uma população ainda agitada em busca do prazer e da felicidade que a madrugada prometeu, mas não entregou.
Seus registros são instantâneos em cores de um microcosmo em extinção. Com puteiros cada vez mais “ocupados” por baladinhas hipsters e empreitadas gastronômicas estreladas avançando sobre seu quadrilátero, a República é a bola da vez para o capital do lazer paulistano, que outrora colonizou a rua Augusta.
Em entrevista ao Trip TV, o fotógrafo fala sobre essa mudança na cidade e comenta o caráter controverso de seu trabalho, em que as fotos de situações limite nem sempre são consensuais –e às vezes terminam em porrada.
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