por Nathalia Zaccaro

Trip Transformadores 2017 convida personalidades para uma cápsula do tempo e pergunta: você está preparado para ver o mundo acabar?

De frente para o começo do fim. Na noite do dia 9, o Trip Transformadores 2017 confrontou todo mundo com as seguintes perguntas: você está preparado para ver o mundo acabar? O que deixaria como legado em uma cápsula do tempo? Um vídeo anunciando caos, pânico, calamidade pública e escalada militar atômica anunciou o hipotético fim dos tempos com imagens de Donald Trump e Kim Jong-un.

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A cápsula do tempo do Trip Transformadores, instalada no museu A Casa, em Pinheiros, recebeu em seguida alguns dos CEOs mais renomados do país e outras personalidades para passar a limpo nossa existência em uma única noite, transmitida ao vivo no Facebook e no canal Youtube de Trip e Tpm. O artista visual Tadeu Jungle convidou a filósofa Djamila Ribeiro, a ialorixá e ativista cultural Nívia Luz, mediadas pela jornalista Milly Lacombe, para refletirem sobre as estratégias possíveis para garantir o futuro pós-apocalíptico.

“O candomblé é a religião do futuro na perspectiva de que tem a natureza como essência e entende o humano como sagrado”, explica Nívia, que chamou atenção para os recentes episódios de intolerância religiosa enfrentados pelas religiões afro-brasileiras. Djamila reforçou a riqueza da diversidade: “O diferente só é ruim quando é desigualdade”. No palco, o telão transformava os movimentos das convidadas em arte eletrônica assinada pelo artista gráfico e designer da Trip Heitor Loureiro.  

Filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz, a escritora e compositora Estrela Leminski transbordou de arte a cápsula do tempo. Em um poema inédito, ela questionou: “Qual é a engrenagem que temos que reinventar?”.  O destino do meio-ambiente inspirou a conversa entre Tadeu Jungle, o navegador Amyr Klink e ao CEO do Grupo Boticário Artur Grynbaum, que tomou o palco em seguida.

ASSISTA: Cobertura da Cápsula do Tempo na íntegra 

“O legado não é só o que a gente deixa. É o que a gente não faz. Os barcos que eu não afundei, os lugares que eu não desmatei... O que eu não fiz também é um legado”, disse Amyr. Em um papo sobre responsabilidade e transformação, Artur pensou sobre o papel da iniciativa privada na cruzada das questões climáticas. “As organizações tem um poder muito grande. Mas não é só dinheiro. São milhões de pessoas conectadas. Você precisa inspirar”, disse.

Luiz Sanches, CEO da agência de publicidade AlmapBBDO, se propôs a pensar uma campanha publicitária para salvar o planeta do apocalipse. “A criatividade do ser humano seria o assunto dessa propaganda, nossa capacidade de improviso é uma virtude incrível”, disse. A diretora de cinema Joana Mendes da Rocha foi a próxima convidada da cápsula do tempo da Trip. Ela contou um pouco do que aprendeu com o pai, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos homenageados do Trip Transformadores 2017.

“Entre muitas outras coisas, ele me ensinou que compartilhar o que aprendemos é muito enriquecedor.” Joana se emocionou ao contar do processo de dez anos de filmagem do documentário Tudo é projeto, sobre a vida de Paulo, que ela lançou este ano. Em cena do filme, ouvimos o arquiteto: “Todos nós sabemos que vamos morrer. Mas todos sabemos que não nascemos para morrer. Nascemos pra continuar".

A jornalista Milly Lacombe voltou ao palco da cápsula, dessa vez acompanhada de Daniel Izzo, CEO da Vox Capital, e Claudio Sassaki, CEO da Geekie.  “Atenção é a forma mais rara de generosidade”, disse Milly, abrindo a reflexão. Sassaki lembrou de quando trabalhava no mercado financeiro, ganhava muito dinheiro, mas não se sentia feliz. “Quando eu quis as coisas só para mim foi quando mais fui infeliz, mas quando consegui começar a retribuir foi quando mais amei”, contou. Daniel aprofundou a discussão sobre a maneira como lidamos com dinheiro. “Nesse mundo novo a gente precisa colocar o dinheiro, ou essa energia de troca, no lugar que ele deveria estar. O dinheiro tem o papel de cristalizar, viabilizar coisas importantes. O lucro é consequência”, concluiu.

Para anunciar o próximo convidado da cápsula do tempo, Tadeu Jungle disse: “Sempre que ouço o que esse cara fala sinto que ilumino minhas ideias”. Em seguida, Luiz Alberto Oliveira, curador do Museu do Amanhã, subverteu o jeito como olhamos para nós mesmos e refletiu sobre o conceito de átomo e sua relação com nosso entendimento de mundo. “Sabendo que pertencemos aos cosmos, o cosmos cabe dentro de nós.” Pensando sobre os cenários do fim do mundo, ele declarou que “temos o poder de destruir o planeta, mas não temos o poder de abandoná-lo”.

Um debate sobre o futuro das interações entre homem e máquina guiou a conversa entre Milly Lacombe, o neurocientista Stevens Rehen, o diretor de marketing da Gol Maurício Parise e a CEO da Microsoft Brasil Paula Bellizia. Stevens defendeu que já não somos mais a mesma espécie que nossos antepassados, e afirmou: “A gente já se fundiu com a máquina”. Para Paula, a humanidade e a tecnologia nunca estarão em posições contrárias. “A computação quântica, por exemplo, pode nos ajudar a encontrar soluções para nossas questões climáticas”, disse. Maurício destacou a importância das redes sociais para a construção de um debate mais rico, em que possamos compreender melhor as perspectivas daqueles que são diferentes de nós.

A força das rimas do rapper Rincon Sapiênca trouxe o movimento negro para a cápsula do tempo. O flow do rapper dominou o palco e pediu: “Questionem a realeza!”. Em seguido, em um vídeo, o futurista e fundador da consultoria Oxymore Jean Christophe reforçou a importância de resgatarmos um senso único de humanidade. “Se não conseguirmos concordar sobre para onde estamos indo, vamos buscar um entendimento sobre como encontrar a estrada", disse. 

Por fim, o Trip Transformadores 2017 deixou um pouco mais de música para o futuro pós-apocalíptico com uma versão de André Frateschi para a "Space Oddity", de David Bowie. "Now it's time to leave the capsule if you dare...", cantou Frateschi, encerrando a noite.

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