Ainda dá tempo de garantir a sobrevivência da nossa espécie?

por Redação

O cineasta Fernando Meirelles e o biólogo Rodrigo Medeiros refletem sobre como reagir às mudanças climáticas, à devastação da Amazônia e aos desastres que ameaçam a biodiversidade e o meio ambiente

Que as mudanças climáticas são uma realidade e o aquecimento global é um risco real para a sociedade como a conhecemos ninguém mais pode questionar. O que se debate é a amplitude das consequências dessas alterações para a sobrevivência da nossa espécie e a urgência das ações necessárias para minimizar os seus já inevitáveis impactos.

Pra discutir clima, biodiversidade, crescimento sustentável e o futuro da vida humana no planeta Terra, o neurocientista Stevens Rehen recebe o cineasta e ativista ambiental Fernando Meirelles e Rodrigo Medeiros, biólogo, mestre em Ecologia, doutor em Geografia e pós-doc em Ecologia e Gestão da Biodiversidade. A conexão com a natureza é o ponto de encontro dos dois convidados. Enquanto Meirelles redescobriu o amor pelo meio ambiente em suas duas fazendas, Rodrigo despertou seu interesse pela ciência da sustentabilidade na graduação de biologia.

Ao falar de Biosfera – um dos pilares essenciais da história da Trip –, os convidados refletiram sobre a necessidade de olhar também para o sistema econômico ligado a esse assunto. Além da carne, já conhecida pelos efeitos da criação de gado ao planeta, a indústria têxtil também torna-se vilã ao produzir e descartar produtos muito rapidamente. "Ao invés de quatro lançamentos de roupa por ano, tem empresa fazendo 52 lançamentos. Aí você vê que 8% das emissões de carbono são associadas à produção de tecido”, comenta Stevens Rehen.

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Para Meirelles, conhecido por ter dirigido filmes como Cidade de Deus e Dois Papas, a educação passa por mudar a forma como consumimos e trazer novos critérios para as escolhas do que comprar. "Você não consegue desativar o consumo sem desativar o sistema econômico. Nós temos um prazo curto e eu, honestamente, sinto que não vai dar tempo. Mesmo com tudo o que a ciência está fazendo, o aquecimento do planeta e a crise do clima estão andando mais rápido, e nessa curva aí a gente não vai conseguir alcançar”, diz.

“Você não consegue desativar o consumo sem desativar o sistema econômico”
Fernando Meirelles

O cineasta também falou sobre como as prioridades econômicas geram uma verdadeira devastação dos nossos recursos naturais. "No caso da Amazônia, eu não tenho dúvida que a floresta em pé vale muito mais que um hectare de soja ou um hectare com bois. Se você usar todos os produtos medicinais da floresta, que você pode coletar e plantar, de madeira, é muito mais rentável. Só que quem usa a riqueza da floresta são ribeirinhos, quilombolas, indígenas, e não tem dinheiro e não tem apoio para essa turma. O dinheiro vai para os fazendeiros”, diz Meirelles. "As decisões relativas ao clima são todas decisões de Estado, então o número um é votar certo. A gente pode fazer tudo certo, mas se os caras continuarem bancando o petróleo, nada vai mudar. Não vote em quem não acredita que isso existe”. 

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Rodrigo Medeiros, que é membro da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável para a ONU no Brasil, acredita que é necessário mobilizar as pessoas para que elas também embarquem no que precisa ser feito para proteger o meio ambiente e reverter efeitos nocivos, desconstruindo a ideia de que falar sobre sustentabilidade é coisa de cientista. "Se daqui a dez anos a temperatura média do planeta aumentar um grau e meio, isso significa que vamos perder 2% dos polinizadores disponíveis para a agricultura no Brasil. E, quando a gente perder 2% dos polinizadores, a gente vai produzir menos comida. Se a gente vai perder comida, ela vai ficar mais cara e escassa. Então isso afeta a você e a mim. Isso as pessoas entendem: comprar comida vai ficar mais difícil”, exemplifica. 

“A economia, o PIB e o desemprego você conserta no curto prazo, mas o prejuízo ambiental não. ”
Rodrigo Medeiros

No papo, os convidados também falaram sobre como sobreviver ao momento de extremismo que estamos vivendo. “Para o meio ambiente e para o clima, perder quatro anos é muito”, diz Meirelles. "A economia, o PIB e o desemprego você conserta no curto prazo, mas o prejuízo ambiental não. Estamos falando de florestas centenárias que você não vai recuperar”, complementou Rodrigo. 

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