Vidinha provinciana

“Perdemos a nossa gatinha. Quem achar, por favor, nos avise,” dizia o cartaz da porta de um aconchegante restaurante. Famoso pela simpatia da equipe, pelo fondue delicioso e por vender a melhor baguete do bairro (a gente se sente pariense saindo de lá) o sumiço sensibilizou toda a vizinhança. Sim, há vida comunitária em Manhattan. No meu quarteirão, por exemplo, há quem se cumprimente com um good morning ou, pelo menos, com um olhar mais simpático. Meus porteiros, albaneses, me abraçam quando volto de viagem e se amarram em me dar conselhos de vida. O cara do Fedex repara quando me ausento: “tá sumida hein?”. O entregador de compras, quando atrasa, diz logo “você sabia que eu não ia falhar, né?” A carteira é outra, que quando me vê já grita um “hey, honey!” Tem também o George, o grego que revela as minhas fotos. Sem falar na faxineira do escritório onde eu trabalhava, uma senhora polonesa, que preparava doces para mim. Outro dia, uma amiga veio me visitar e entrou no prédio errado. O porteiro de lá disse: “a Tania? Não é aqui, é naquele prédio ali.” Minha amiga gelou com a sabedoria do rapaz. Acredite, isso aqui é vida de cidade do interior!
***
E tem o mendigo da rua. Um só. Ah, esse mendigo é um mistério. Trata-se de um senhor, sempre limpo e arrumado. Na dele. Não fala. Não bebe, que eu saiba. Senta sempre na mesma esquina – e desenha. Meu porteiro disse que o idioma dele é espanhol. Mas hoje, quando passei, ele folheava um jornal em inglês. Fica lá, o dia todo, e sem pedir esmola. Inverno, verão, numa esquina onde antigamente havia uma delicatessen, com uma floriculta do lado de fora. Por sinal, o mexicano da tal floricultura, a quem eu sempre cumprimentava, certa vez me parou e disse: “cada vez que você passa e sorri, eu ganho o dia.” Gentil, ensinou de onde vinha cada flor (todas da América Central) – e me presenteou com uma rosa branca. A delicatessen pegou fogo. Ele perdeu o emprego. E ali fica o mendigo. Não sei de onde ele vem, nem pra onde ele vai. Isso me intriga. Nesse ínterim, a gatinha do restaurante foi achada. E devolvida. Acredite, isso aqui é vida de cidade do interior!
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