por Lina Chamie
Tpm #71

Em meio ao congestionamento de São Paulo, surge o filme A Via Láctea

Em meio ao congestionamento de São Paulo, surge o novo filme de Lina Chamie, A Via Láctea. Aqui, ela conta como conseguiu extrair poesia de um dos piores trânsitos do mundo

Um dos grandes desafios de A Via Láctea era como filmar, com um baixíssimo orçamento, uma história em que o protagonista passa a maior parte do tempo engarrafado nas ruas de São Paulo. Um casal de namorados, Heitor e Júlia, interpretados por Marco Ricca e Alice Braga, tem uma violenta briga por telefone. No calor da discussão, ela decide terminar tudo. Desesperado, Heitor pega o carro e sai para encontrar Júlia e resolver as coisas cara a cara. Detalhe: é rush hour e, entre eles, está a cidade de São Paulo, congestionada!

Sem dinheiro para produzir meu próprio engarrafamento, decidi filmar de maneira semidocumental, isto é, engarrafada de verdade. Com uma pequena câmera digital, encontrei a agilidade necessária para filmar continuamente pelas ruas de São Paulo, “roubando” cenas da cidade. Saíamos da produtora de carro já filmando e acompanhávamos Heitor (Ricca) em sua angustia ao tentar chegar à casa de Júlia (Alice). Acho que é o único filme em que toda a equipe torcia para o trânsito estar muito ruim, e que o ator principal guiava o carro! Enfim, um filme de amor num cinema de guerrilha. Não seria o amor uma espécie de guerrilha?

* Lina Chamie, 45, é cineasta e formada em música pela Universidade de Nova York. Dirigiu, entre outros, Tônica Dominante (2000) e o curta Eu Sei Que Você Sabe (1995)

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