por Milly Lacombe

A polêmica que Fidelix causou pode nos levar a um lugar mais colorido

Enquanto o discurso de ódio contra os gays saía da boca do candidato à presidência Levy Fidelix no debate da Record desse domingo, o Twitter se inflamava em revolta e eu tentava entender por que exatamente o que ele dizia não estava me incomodando; e, pelo contrário, até me fazia achar que eu talvez estivesse experimentando um certo tipo de prazer. 

E então, depois que o debate já tinha acabado e eu tentava pegar no sono com minha mulher dormindo encostada em meu ombro, finalmente entendi. A despeito de todo o ódio que havia naquelas palavras, o tema da homossexualidade estava sendo debatido nacionalmente e, mais do que isso, o time contrário aos gays era representado por uma figura tão ordinária, de discurso tão vazio e empobrecido, que ficava impossível não se colocar do lado oposto.

Fiquei imaginando que havia pessoas em casa assistindo o debate que imaginavam ter as mesmas ideias de Fidelix até ouvirem elas sendo verbalizadas daquela forma tosca. E essas pessoas teriam parado para pensar que talvez não quisessem compartilhar de uma ideia com figura tão equivocada e desencaixada.

Certamente há aqueles que concordam com o “somos uma maioria boa que precisa eliminar essa minoria”, seria ingênuo achar que Fidelix está sozinho em seu horror intolerante. Já houve líderes assim na história que acabaram arrastando multidões a pensar como eles, mas não é o caso de Fidelix, que não é líder, muito menos alguém que tenha uma célula de carisma no corpo. Fidelix, portanto, não é uma ameaça, menos ainda seu discuro. Por outro lado, a discussão a partir do que foi dito pode nos levar a um lugar mais colorido, de menos ódio e mais afeto.

A reação em minha Time Line no Twitter me encheu de orgulho. Eram homens e mulheres, quase todos héteros, muitos até com tendências direitistas, revoltados com o que Fidelix tinha acabado de dizer. Não teria sido assim há dez anos, e a noção de que estávamos caminhando para um mundo sem homofobia me encheu de alegria.

Mas, ainda tentando pegar no sono, me coloquei no lugar de Luciana Genro e imaginei o que eu teria respondidoa ele se fosse ela, e as respostas passavam por “o senhor é um ser humano desprezível”, e “num país mais desenvolvido humanitariamente o senhor sairia daqui algemado e dentro de um camburão”, e “já houve na história discursos supremacistas como o do senhor que levaram a humanidade a um lugar de pura escuridão, discursos proferidos por líderes maquiavélicos e intolerantes, mas que eram pergiosos justamente porque eram carismáticos. E o senhor não é um líder, muito menos carismático, é apenas um verme”.

Enquanto me entregava a devolver o ódio exalado por ele com mais ódio fui visitada por um pensamento assustador: não há muito tempo minha mãe pensava como Fidelix, e reagiu como ele quando eu contei que era gay, ficando quase cinco anos sem falar comigo. 

Hoje de manhã liguei para minha mãe para saber o que tinha achado do discurso homofóbico de ontem. “Achei um horror”, ela me disse. “Um horror”, repetiu, agora brava. “Esse homem deveria ter sido tirado de lá, e nunca mais autorizado a participar de nada público, muito menos ter em mãos um microfone. Que homem doente”. 

Se apenas nos transformamos no amor e na dor, credito à mim, e ao amor de minha mãe por mim, essa maravilhosa transformação: a de alguém que achava que ser gay era uma doença e um crime para uma pessoa que entende que a doença e o crime se chamam homofobia, e que, portanto, Fidelix é um homem profundamente adoentado.

Tudo isso para dizer o seguinte: as pessoas mudam. Ou podem mudar. E temos que pensar que trazer os temas de homossexualidade e da homofobia para o palco não tem como ser ruim, a despeito das cretinices que tenhamos que escutar pelo caminho. 

Pode não existir ex-gay, mas certamente existe ex-homofóbico, e Fidelix talvez tenha acelerado um processo de transformação – se não dele – de uma sociedade que, com leis justas, tratará de celebrar qualquer tipo de amor e de punir qualquer tipo de ódio.

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