por Marcela Paes

Fomos a uma apresentação do cantor e contamos o que vimos por lá

A calma no foyer meia hora antes do oitavo show de Chico Buarque em São Paulo poderia sugerir aos mais desavisados que a histeria feminina provocada pelo compositor em outros tempos finalmente estava apaziguada. Tudo parecia mais tranquilo que o esperado na noite que teve, assim como todas as outras 21 datas, ingressos completamente esgotados. Mas ao fazer-se valer da máxima "as aparências enganam" Edgar Rezende, barman do HSBC Brasil, desvendou sem dificuldade o mistério "No começo elas ficam quietinhas, mas se soltam lá dentro. Aqui a bebida preferida é espumante mesmo. Em show do Chico Buarque sai pouco uísque. Espumante é mais selecionado", revela Edgar com um sorriso, além de informar que a garrafa mais cara da bebida sai por R$ 350 e a taça mais barata por R$ 30.

Mesmo com a aparente organização, um burburinho se formava na frente do banner com a foto do
compositor. "Junta todo mundo!", gritava Paula Bernardelli, 30. Ela veio de Belém com o pai, a mãe e o irmão só para assistir ao show do compositor. "Fã faz o possível para ver o ídolo de perto.", completa. Logo em seguida, na fila formada para as fotos, um casal faz pose e explica porque está ali. "Nós dois gostamos muito dele". Perguntado sobre qual era sua música preferida, o administrador passou a bola pra namorada: "Não me lembro o nome, acho que ela sabe mais."

 

"No começo elas ficam quietinhas, mas se soltam lá dentro", disse o barman


Acompanhando a movimentação sentados, um homem e uma mulher com mais ou menos a mesma idade de Chico Buarque (67 anos), diziam conhecer o cantor dos tempos em que todos cursavam arquitetura na FAU. “Íamos beber cachaça no Quitanda, um bar bem pequeno perto dali.”, conta Jorge. A mulher Celina comenta a fama de galã do ex colega de faculdade: “O Chico faz mais sucesso no palco. Na faculdade ele era muito tímido”, ri.

Para Letícia Pedroso e Carlos Bustamente, outro casal presente no show do cantor, o difícil foi definir quem era mais fã. "Eu sou mais fã dele e ela do Vinícius de Moraes", disse Carlos, que recebeu um "Nunca falei isso" da namorada e rebateu "Ah, a gente já discutiu isso mil vezes e você sempre falou do Vinícius... Se você quiser mudar de opinião você pode, mas vou te lembrar disso pra sempre", gargalha.

Muitos outros casais de namorados dividiam mesas do lado de dentro da casa de shows, onde garçons apressados corriam para cima e para baixo como formigas munidas de cardápios e máquinas de cartão de crédito sem fio. Receber quitutes ou uma bebida (um espumante, claro) na mesa não era possível por menos de R$70, mas isso não era nada comparado à dificuldade de conseguir dois minutos de atenção do pessoal que corria para lá e para cá para anotar os pedidos.

 

"Eu sou mais fã dele e ela do Vinícius de Moraes", disse Carlos, que recebeu um "Nunca falei isso" da namorada  

 

Apesar do desafio para conseguir encher o estômago, tudo virou só alegria quando Chico iniciou a apresentação. E, como havia dito o barman Edgar, quem assistia ao show realmente se soltou. Coros bem ensaiados acompanhavam as canções antigas e as novas e entre uma e outra só o que se escutava eram os gritos de "Lindo, gênio!". Sem nunca ter negado a fama de tímido, a reação do compositor só reforçou o estigma. Chico olhou diretamente para a plateia em pouquíssimos momentos e parecia ligeiramente desconfortável nas vezes em que cantou de pé sem seu violão. Tudo isso, diga-se de passagem, sem perder o carisma que sempre o acompanhou.

Terminada a apresentação, um grupo de fãs mais afoitos ignorou os lugares marcados e correu em direção ao palco para ver o esperado bis e o par de olhos mais famoso da música brasileira. Mais solto, o compositor deu uma de roqueiro e ameaçou um stage dive ao se despedir, mas recuou e não se jogou em direção ao público (os seguranças agradeceram!).

Final apoteótico o suficiente para colocar as pessoas em estado de graça, muitas delas cantando canções que não integraram a lista do show. Uma noite para os fãs lembrarem por muito tempo depois que já tiverem pago as salgadas despesas do show nas faturas de seus cartões de crédito.

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