por Josie Moraes

Filme revela a trajetória da banda em imagens de bastidores e shows históricos


O documentário Titãs – A Vida até Parece uma Festa, com estreia marcada para 16 de janeiro, é uma surpresa para o cinema nacional. Uma dosagem na medida certa das imagens de bastidores e apresentações históricas registradas em 28 anos de trajetória. Foram editadas mais de 200 horas de gravação realizada pelos próprios integrantes desde o começo da banda. De Rock in Rio e Hollywood Rock ao programa da Hebe, Chacrinha, Faustão e Gugu. Tamanha dificuldade de selecionar e recuperar algumas imagens, o filme demorou seis anos para sair.

O roteiro apresenta uma linguagem não cronológica, mas cumpre o papel de transmitir a sequência de um longo casamento responsável por 15 álbuns lançados. As próprias músicas ajudam na construção de tempo e deixam claro o peso e a importância dos Titãs para o rock brasileiro. Bom para a nostalgia da geração que acompanhou todo o contexto pós-ditadura e o nascimento dos conflitos musicais sobre a identidade nacional. Bom também para informar quem não faz ideia do que foram os anos 80 e 90 no país.



Na hora da criação fica nítida a atmosfera de diversidade. Oito mentes completamente diferentes que, entre doideiras e molecagens, conseguem um alto nível de produção musical. Com o tempo, os penteados, roupas, rostos e a forma de apresentação dos integrantes vão mudando de um jeito até cômico. Uma evolução natural e despretensiosa e sem preocupação com rótulos.

Tem a fase da guitarra pesada, das inúmeras letras de protesto, do envolvimento com drogas, da influência de ska e reggae, do desplugado com grande projeção, do apogeu, dos álbuns pouco vendidos, dos clipes premiados. Branco Mello adoece, se recupera, sai Arnaldo Antunes e depois Nando Reis, entra produtor gringo, morre Marcelo Frommer. Apesar de trechos tristes é uma história feliz. O bom humor e o tesão pela música parecem ter sempre prevalecido na versão do filme dirigido por Branco Mello em parceria certeira e antiga com Oscar Rodrigues Alves.



Na pre-estreia em São Paulo, emoção nos olhos e cabeças balançando ao som das clássicas “AA UU”, “Sonífera Ilha”, “Bichos Escrotos”, “Polícia”, “Cabeça Dinossauro”, “Pulso” e das baladinhas “Epitáfio” e “Flores”. Com certeza um filme para fazer os fãs vibrarem e os “simpatizantes” descobrirem que são fãs. Sobretudo, um filme que abre as portas do cinema nacional para uma linguagem diferente de documentário – sem narrador, depoimentos de frente para a câmera e off –, que vai ao encontro do sucesso dos vídeos caseiros e da sensação de compartilhar a intimidade de artistas. Alguém tinha de fazer.

*Josie Moraes é jornalista dedicada especialmente ao estudo da música brasileira. Seu site é www.josiemoraes.com.br

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