por Flora Paul

Se você não vai até o teatro, o Teatro para Alguém leva ele até sua casa, ao vivo e de graça

O elenco grita “merda”, para dar sorte. As luzes diminuem, focadas no palco. Fumaça, silêncio. A peça começa. E o público, cadê? Quem gosta de teatro sabe que a falta de público não é tão rara. “Às vezes havia uma plateia lotada, às vezes só tinha duas pessoas”, conta Renata Jeison, sobre sua última temporada no tablado. Depois de se revoltar com o fato, a atriz, diretora e produtora resolveu o problema idealizando o Teatro para Alguém: se você não vai ao teatro, ele vai até você.

Transmitido pela internet, você assiste a peças ao vivo e de graça. Mas isso é teatro? Sim e não. “É teatro, é cinema, é um pouco de TV e não é nenhuma dessas três: é uma quarta linguagem”, explica Renata. Na sala de sua casa, adaptada com panos negros e refletores de luz, diversas peças são encenadas para o site www.teatroparaalguem.com.br. Em cartaz este mês, está o conto “Maçã Argentina”, texto de Índigo, com a atriz Maria Manoella, na Sala de E-star da casa virtual. Já na sala de sua casa real, de onde são transmitidas as peças, a diretora falou ao site da Tpm para explicar como, afinal, funciona esse teatro.

Como surgiu a ideia do Teatro para Alguém?
Tenho 18 anos de carreira e, como toda carreira, tive sucessos e fracassos. Durante uma temporada, há dois anos, deparei com um teatro em que às vezes havia uma plateia lotada, às vezes só tinha duas pessoas para assistir à peça. Depois de tanto tempo, você pensa que enche o saco fazer teatro assim. Você quer fazer, mas nem sempre as pessoas querem estar na plateia. Então um dia fui para casa revoltada, falei para o meu marido: “Já que me é tão vital fazer, vou começar a fazer teatro para ninguém”. Mas também é burro pensar isso, porque o teatro é uma arte que necessita da testemunha, não é como um pintor, que pinta um quadro em seu ateliê sem precisar de público. Então decidi fazer para alguém que queira ver. Não me interessa saber se são 100, 500 ou 1 pessoa, se está na sala da própria casa. E aí, ao longo de dez meses, no ano passado, fui construindo essa ideia, criamos o site, até que, no fim do ano passado, a gente estreou.

Você falou sobre a questão da testemunha. Parte do teatro não tem a necessidade da presença física?
Então, totalmente. Todo mundo tem me perguntado: “Porra, mas isso é teatro?”, e eu falo: “Porra, é teatro”. Também é teatro, mas busca uma nova linguagem. Tem quem fale que eu quero que o público deixe de ir ao teatro, mas não é isso. É uma soma, não uma ausência, é mais uma forma de a gente se expressar, é mais uma mídia para o artista. É uma busca dessa quarta linguagem que a gente nem sabe o que é ainda – é teatro, é cinema, é um pouco de TV e não é nenhuma dessas três, é uma quarta linguagem. É óbvio que é diferente fazer sem a pulsação do público, sem ele ver o teu suor saindo dos poros, mas a gente faz dentro de um formato acreditando que é teatro, só que com uma câmera como um meio de transmitir isso para quem está longe desse espaço.

 

"Todo mundo tem me perguntado: “Porra, mas isso é teatro?”, e eu falo: “Porra, é teatro”"

 

E como é a resposta do público?
Temos resposta de inúmeras formas. Fazíamos só uma sala ao vivo – são três virtuais, mas todas são uma sala da minha casa – e agora tentamos fazer quase tudo ao vivo. Nesse ao vivo chamamos o público, começou a ter um público assistindo da sala da minha casa. Mas é minha casa, não posso colocar no jornal falando que vai ter uma apresentação ao vivo e abrir a sala da minha casa. A minha vontade era fazer isso, mas não dá. Então tem atores que querem ver como isso acontece, críticos querendo escrever sobre o projeto, curiosos que mandam e-mail querendo saber como que é isso, então tem o público ao vivo. Na casa virtual também tem o banheiro, um blog de discussão que todo mundo pode participar. As pessoas querem saber mais sobre os textos, mandam aplausos virtuais, é superbacana.

Como vocês sustentam toda a estrutura do projeto? Tem patrocínios?
No começo peguei meu dinheiro e investi para começar o projeto. Vislumbrei, me iludi, que teríamos patrocínio rápido. Seis meses depois, isso ainda não aconteceu. É uma coisa muito nova, as empresas, a mídia, a publicidade ainda não entendem. Está difícil, já acabaram as economias. Eu continuo pagando as pessoas, os autores, os atores, mas simbolicamente. Queria remunerar todos merecidamente, mas ainda não dá. Mesmo assim, o site nunca será pago, nunca vamos ter ingressos, porque o desejo é democratizar a cultura, com um texto de qualidade, com atores de qualidade, em alta definição, da melhor forma possível. Contribuições são bem-vindas, mas precisamos é de um patrocinador, o quanto antes.

Vocês adaptam textos de literatura, encenam contos, romances de autores como Antônio Prata. Como é feita essa escolha?
É uma escolha através de feeling, de experiência. O Antônio Prata foi nosso primeiro autor. Ele falou: “Mas eu não escrevo teatro!”, e eu respondi: “É por isso que eu estou te chamando”. São textos que, ao ler, eu consigo pensar em uma encenação. Tenho recebido textos incríveis, existem muitos autores bons por aí, e vou atrás das pessoas em que acredito. Usamos textos de literatura e quase não adaptamos. Às vezes a gente adapta um pouquinho, mas esse desafio também é um tesão. E, quando há uma adaptação, pedimos para o autor fazer.

As peças encenadas no teatro virtual servem como um exercício para serem levadas para o teatro convencional?
Sim, temos esse projeto. Por isso que eu digo que não é uma forma de ofuscar o teatro. Mas colocar uma peça em um teatro é muito caro, existem inúmeras dificuldades para você poder se expressar. Então, fazemos na sala da minha casa. Mas tudo que sai daqui foi feito para ir aos palcos. O Lourenço Mutarelli escreveu uma minissérie para nós, é a menina dos olhos, que é apresentada na Grande Sala. Ele conheceu os atores e escreveu um texto incrível para eles, chamado Corpo Estranho. Fizemos a primeira temporada, vamos começar a filmar a segunda e com certeza faremos uma terceira. A ideia é juntar essa trilogia e fazer uma puta peça de teatro, o desejo é esse.

 

"A grande mídia tem espaço para grandes produções, mas são as que quase não precisam mais desse espaço. Quem consegue patrocínio de um dia para o outro é quem quase não precisa de patrocínio."

 

Você considera o projeto como uma forma de divulgar o teatro na mídia?
A grande mídia tem espaço para grandes produções, mas são as que quase não precisam mais desse espaço. Quem consegue patrocínio de um dia para o outro é quem quase não precisa de patrocínio. Existem pequenas e médias produções incríveis em termos de conteúdo artístico que a gente vê que não tem esse espaço. Essa nova era digital é a hora para divulgar o teatro. Tem muita coisa bacana na internet que ainda não dá dinheiro, mas essa mídia serve, cada vez mais, como espaço de divulgação.

Quais são os próximos planos do projeto?
A ideia é criar como um Orkut, mas uma rede cultural. Foi assim que pensei, lá no começo. Queria que os autores colocassem os textos no site, daí de repente um ator da Argentina, da Rússia pensasse: “Quero encenar esse texto!”, procurasse um tradutor, montasse a cena, fizesse a peça acontecer dentro do teatro para alguém da casa dele.

E todo mundo poder fazer um Teatro para Alguém?
Eu tenho algumas regras, chamo até de dogmas, de brincadeira. Claro que sim, as pessoas podem fazer um Teatro para Alguém em suas casas, mas o teatro deve ser um espaço vazio, porque o teatro vende ilusão, esse é o trabalho do ator. É preciso ter um mínimo de equipamentos de qualidade, nada caro, mas com qualidade, com refletores, uma câmera que possa transmitir a imagem de uma forma bacana. Não é só pensar: “Ah! Vou fazer uma cena”, ir para cozinha e filmar. Já existe isso no YouTube.

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