por Lucas Landau

O dia a dia de Sarah Higino, maestrina que, à frente do Volta Redonda Cidade da Música, transforma a vida de milhares de jovens do município

Dentro da sala de aula, professora Sarah. Na sala de concerto, maestrina Sarah. Fora desses dois ambientes, Sarinha. É assim que se divide Sarah Higino (que não revela a idade), matriarca do projeto Volta Redonda Cidade da Música: entre a rígida disciplina quando está dentro das salas de música e o carinhoso espírito maternal quando está do lado de fora.

Sarah se tornou um exemplo para as crianças de Volta Redonda, no interior do estado do Rio de Janeiro. Mulher, negra, maestrina, pianista e professora bem-sucedida, ela veio de uma família de 10 irmãos e pais batalhadores, que deixaram Minas Gerais em 1941, em busca de emprego na Companhia Siderúrgica Nacional.

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A volta-redondense tem seu trabalho reconhecido por importantes nomes da música clássica brasileira e poderia trabalhar em diferentes lugares do mundo, mas escolheu a cidade em que nasceu para atuar. Ela dá aula de música e coro no projeto Volta Redonda Cidade da Música, que atualmente atende cerca de 4 mil crianças da rede municipal de ensino. O projeto aplica aulas de música nas escolas e se propõe a ampliar os horizontes das novas gerações que não enxergam seu futuro necessariamente atrelado à CSN.

Além das aulas e de assumir a coordenadoria pedagógica e a regência de diversas orquestras do projeto, Sarah é responsável pelo intermédio entre o Volta Redonda Cidade da Música e a prefeitura (que sustenta o projeto social). Conciliando uma agenda frenética, ela atua de forma apolítica entre os setores administrativos da Educação Municipal em busca de ajuda do poder público para conseguir trabalhar com seriedade em prol das crianças de sua cidade.

São jovens de 4 a 17 anos de 39 das 90 escolas da periferia da cidade do aço que não teriam outro caminho senão o da siderúrgica. Jovens que puderam aflorar suas sensibilidades e se desenvolver como artistas profissionalmente graças ao esforço de pessoas como Sarah, que dedica a vida à arte para resistir ao aço em Volta Redonda.

Trip acompanhou três dias da rotina de Sarah.

5/12/17 - Construindo vidas na sede do Volta Redonda Cidade da Música

Sarah conversa com o maestro Nicolau Martins de Oliveira nos corredores da sede do projeto, no bairro Vila Mury, em Volta Redonda. O espaço é administrado por Nicolau, Sarah e José Sergio Tôrres da Rocha, que contam com uma equipe enxuta de sete funcionários na sede — entre limpeza, portaria, segurança e secretaria — e sete professores licenciados em música, que atuam pelo projeto em 39 das 90 escolas municipais existentes, inciativa viabilizada através da Secretaria Municipal de Educação e da Fundação Educacional de Volta Redonda (FEVRE). Todos os professores que realizam o trabalho na rede pública foram formados no próprio projeto antes de cursarem a faculdade, e hoje contam com o auxílio de uma equipe de monitores e repetidores formada também por alunos de destaque do Volta Redonda Cidade da Música.

Sarah rege a orquestra de concerto durante um ensaio na sede. O Volta Redonda Cidade da Música consegue se manter apartidário mesmo subordinado à prefeitura e, assim, segue com o propósito único de transformar a vida das crianças atendidas no projeto. Sua força cultural e social construiu uma tradição na cidade, que protege sua existência até mesmo diante de prefeituras que não simpatizem com a ideia.

Dos 74 alunos presentes no ensaio, 35 eram negros. O projeto atende crianças, adolescentes e jovens dos Ensinos Básico, Fundamental e Médio da rede pública, e o plano é estender a atuação de 39 para 50 escolas municipais de Volta Redonda. O objetivo é educar através do processo de musicalização na escola. No início, eram os professores de música que procuravam as escolas para desenvolver a parceria, atualmente são os diretores das escolas que procuram o contato para implementação da iniciativa.

Os instrumentos que pertencem ao projeto foram doados em diferentes gestões da prefeitura, além dos que chegaram através de doações da sociedade civil. Seja nos ensaios da orquestra (acima) seja nas aulas de música, Sarah trabalha principalmente a disciplina, a responsabilidade e, claro, o bom desempenho musical. Rígida e perfeccionista à frente das orquestras e coros, ela também educa os jovens. O aluno Gabriel Martins, de 10 anos, está há três no projeto e diz: "Sem a professora Sarah seria tudo desorganizado".

Sarah entre os jovens durante o lanche na sede. No refeitório, um cartaz amarelo traz a frase do professor Nicolau: "No dia em que Volta Redonda for conhecida como a 'Cidade da Música', aí, então, estaremos fabricando o melhor aço do mundo".

Ao fim do ensaio, que dura três horas, os alunos guardam os instrumentos do projeto em cases que ficam organizados no chão do lado de fora da Sala de Ensaio. Felipe Silva, 17 anos (à direita na foto), é considerado um aluno promissor — tirou 10 na Unirio, e 9.7 e 9 no curso de licenciatura em música. Em seus planos, estão um intercâmbio, bacharelado e doutorado em música. 

Sarah na saída da nova sede, inaugurada em 2015; o Volta Redonda Cidade da Música foi fundado em 1974 pelo Maestro Nicolau. Hoje, aos 75 anos, o catarinense que foi parar em Volta Redonda aos 16 anos para trabalhar na CSN, conta a história de como conheceu Sarah. "Eu era professor no projeto e precisava de alguém para tocar piano nas minhas aulas. Já conhecia o pai da Sarah da CSN e sabia que os filhos estudavam música." E Sarah complementa: "Ele chamou uma das minhas irmãs, que não topou mas me indicou, aos 8 anos". Depois de fazer cursos técnicos em piano e flauta transversal, de se formar como regente e pianista na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela partiu para o mestrado, também na UFRJ. A volta-redondense hoje é responsável pela regência de quatro dos seis grupos musicais do projeto, além de ser coordenadora pedagógica dos coros e das bandas-mini.

6/12/2017 - Do rádio às aulas e às burocracias, Sarah não deixa pontas soltas

Os dias de Sarah começam sempre cedo. Ela divide as funções extras entre as manhãs nas escolas e as tardes na sede. Na quarta-feira, dia 6, ela começou as atividades às 8h com uma entrevista a uma rádio católica local.

No programa, Sarah divulgou o concerto que seria realizado naquele dia e também a agenda de apresentações natalinas de dezembro.

Na mesma manhã, Sarah teve um encontro com uma funcionária da tesouraria na sede da Fundação Educacional de Volta Redonda, responsável pelos programas do Ensino Fundamental e Médio na cidade. As funções administrativas, como acompanhar os trâmites políticos relacionados às verbas e checar liberação de veículos para transporte dos alunos e dos instrumentos em dias de concerto, ficam por conta da própria Sarah, que tem boa abertura nos segmentos administrativos municipais por conta dos mais de 20 anos em que atua no projeto.

A maestrina conduz a comunicação entre projeto e poder publico. Na foto, ela se reúne com o presidente da Fevre, Eduardo Dessupoio, com que conversou sobre verba para pagamentos atrasados. 

Sarah ensaia em outra escola da rede municipal. Ela enfatiza que "não é escola de música, é música na escola". É por essa razão que o projeto é desenvolvido através da Secretaria de Educação e não da de Cultura. 

Alunos olham atentamente para a maestrina em ensaio com a flauta pífaro. Por conta da sua posição enquanto mulher, negra, de criação simples e que hoje ocupa um cargo em um ambiente ainda tão dominado por homens, Sarah se tornou um espelho para as crianças da periferia, que agora têm para onde olhar e se espelhar para além da perspectiva profissional da siderúrgica.

O pai de Sarah brincava que não precisava conhecer as sete maravilhas do mundo, pois, para ele, elas eram as suas sete filhas. Talvez isso faça sentido com a áurea de realeza que Sarah carrega. Parte disso se deve aos cuidados com sua beleza. Em dia de concerto, ela sempre retoca os cachos no salão. 

Algumas horas antes do concerto, na igreja, meninas aguardam para ensaiar.

Duas horas antes do concerto, Sarah ensaia com as crianças do Coro Infanto-Juvenil e da orquestra. A maestrina conta que aproximadamente 50% dos alunos que participam do projeto se tornam músicos profissionais. 

Já com a roupa para fazer a regência do concerto, Sarah observa as crianças se direcionando ao palco, minutos antes da apresentação.

As crianças são posicionadas por Sarah na igreja São Sebastião, no bairro do Retiro. O espaço faz parte do roteiro de seis concertos que seriam realizados durante o mês de dezembro.

O Coro Infanto-Juvenil já posicionado momentos antes da apresentação. Para esse concerto, foram convocadas cerca de 190 crianças, de diferentes escolas públicas da cidade.

Sarah durante o concerto que reuniu aproximadamente 600 pessoas na igreja. A maestrina diz que a maior necessidade do projeto atualmente é buscar um patrocínio que proporcione mais investimentos e assim levar as crianças para participarem de apresentações em outras cidades e estados. 

“Que a regência da vida deles seja a música”, deseja Sarah aos alunos que participam do projeto. Ela rege com firmeza gerações que só tinham o aço em seu amanhã. Para esse arranjo sair harmônico, é necessária muita força feminina, seriedade como educadora, rigidez ao encarar a disciplina e delicadeza para traduzir tudo isso em sensibilidade musical. O incrível trabalho de mostrar às crianças uma nova possibilidade de futuro e de ser o exemplo para se inspirarem, vai além do espírito maternal que a maestrina traz em si. Parece coisa de rainha. 

7/12/17 - Em casa, desde criança, ela sempre está na companhia da música

Sarah posa em sua casa em Volta Redonda, cidade com 265 mil habitantes (dados do IBGE de 2017), que faz parte do Vale do Paraíba, no sul do Estado do Rio de Janeiro. O nome Volta Redonda se dá justamente por causa do rio Paraíba do Sul: a cidade se localiza em um trecho do rio onde há uma curva acentuada. Fora dessa curva, tem um pontinho que fica pra cima e pra baixo na cidade desenvolvendo um projeto que beneficia 4000 alunos da rede pública do Ensino Municipal. A agenda da Sarah não tem descanso, mas, como boa virginiana, ela consegue se organizar com maestria entre a sede do projeto, as escolas em que dá aula e as sedes administrativas onde faz a comunicação entre o Volta Redonda Cidade da Música e o poder público.

Na casa onde mora sozinha, Sarah estuda piano cotidianamente, é o seu instrumento favorito. Dos compositores, ela prefere Beethoven. Já o estilo musical que mais a fascina é a música francesa. Sarah tem uma relação próxima com a França há muitos anos. É casada com um francês há 11 anos e foi em Paris que ela se aprofundou artisticamente. Em 1999, a maestrina foi convidada por uma fundação internacional para uma viagem de estudos com outros artistas. Esse intercâmbio resultou, três anos depois, em um recital de piano na embaixada brasileira em Paris, onde Sarah interpretou um programa franco-brasileiro.

A música chegou cedo na vida da Sarah. Ela é a filha mais nova de 10 irmãos, sete mulheres e três homens. Seu pai, falecido em 1993, entendia a importância da música e fez questão que todos em casa aprendessem algum instrumento. Aos 8 anos, uma irmã mais velha de Sarah lhe ensinou piano. E foi aí que a menina conheceu Nicolau Martins de Oliveira.

A aula particular semanal de dança é o momento em que Sarah se solta. Ela diz que a atividade traz mais desenvoltura para seus movimentos quando está regendo. E como na dança é o homem que conduz, a maestrina comenta que é um dos poucos momentos em que sai da posição de controle e se permite ser conduzida.

Depois das primeiras funções matutinas, Sarah vai às escolas, onde dá aula e ensaia. Na foto, a professora é presenteada por uma aluna ao chegar em uma escola da periferia da cidade para ensaiar o Coro Infanto-Juvenil.

Sarah com alunos de aproximadamente 10 anos durante ensaio do Coro Infanto-Juvenil para os concertos natalinos.

Em casa, ela sempre está em seu piano tcheco. Como a maioria da população de Volta Redonda, Sarah viu sua vida se desenvolver ao redor da CSN. Foi lá que seu pai trabalhou e prosperou, foi lá também que alguns de seus irmãos trabalharam e seria lá que ela trabalharia em algum momento da vida se não tivesse se encontrado definitivamente com a música. O projeto Volta Redonda Cidade da Música fez por ela aquilo que hoje ela trabalha para fazer por outros, ampliando o horizonte dos jovens volta-redondenses que, assim como Sarah, não sonham com um futuro na siderúrgica.

Créditos

Imagem principal: Lucas Landau

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