por Beth Slamek
Tpm #89

Foi pedalando que a diretora de arte Beth Slamek descobriu a cidade mais hippie do ocidente

 

A imagem mais forte que tinha de São Francisco depois do movimento hippie era a das perseguições de cinema com carros decolando por ladeiras desafiadoras da gravidade. A surpresa – e o que ninguém tinha me contado – é que o melhor jeito de conhecer a cidade é pedalando. Apesar de não ser conhecida como um bom lugar para andar de bicicleta, basta um primeiro passeio pela cidade para você dar de cara com numerosas ciclovias, sinalizações especiais e bicicletarias. Aqui, o ciclismo vai muito além do esporte – é uma postura política, uma opção de transporte inteligente e limpa, que cabe no perfil verde e engajado da cidade. E, para encontrar a companheira perfeita para sua viagem, vá direto ao www.craigslist.org, o maior site de compra, venda e rolos do mundo, que nasceu na cidade e é onde ele melhor funciona.

O ouro de São Francisco está ao ar livre. A cidade é pequena e cercada pelo mar, por isso sua bike vai te levar a lugares de vistas arrebatadoras. Um dos passeios mais legais – e planos – é pedalar pelo Golden Gate Park, que não tem nada a ver com a ponte Golden Gate. Coração verde da cidade, ele é tão grande que fica difícil conhecer tudo. Cheio de lagos, abriga atrações como o museu de artes De Young, a Academia de Ciências da Califórnia e o imperdível Jardim Botânico, meu lugar favorito, com árvores lindíssimas e recantos ideais para descansar.

Outro passeio imperdível é explorar o Presidio National Park. No pico de uma região mais montanhosa, pedalar até ele exige preparo físico. Mas o que vai tirar seu fôlego são as vistas da ponte Golden Gate, da Baker Beach e da ilha de Alcatraz. Descendo pelo parque Presidio, você chega ao pé da ponte e é inesquecível atravessá-la de bicicleta. O passeio pode continuar do outro lado da ponte, seguindo pela Conzelman Road, a estrada que margeia a costa. É uma bela subida, mas cada pedalada rende algumas das paisagens mais lindas da cidade. Poucas sensações se comparam à de chegar a um lugar maravilhoso com a força das próprias pernas.

Um outro programa com vista para a ponte Golden Gate – mas bem mais fácil – é percorrer a marina a partir do Fort Mason em direção à ponte. O caminho, plano, é demarcado por ciclovias e dá para ver toda a baía, onde o mar fica enfeitado de veleiros, velas de windsurf, pipas de kitesurf e toda a sorte de esportes náuticos.

Sweet home
A segunda coisa que você tem que procurar no craigslist é um lugar para ficar. A minha dica é: não se hospede num hotel. No site, você encontra ofertas de aluguel de quartos, casas para dividir e apartamentos a preços vantajosos e em locais interessantes. São Francisco é pequena e quase todos os hotéis localizam-se ao longo da avenida Market Street, o ponto mais turístico e sem graça. Se não quiser dispensar o conforto de um hotel, procure pelos menores e longe dos bairros centrais de Downtown e Tenderloin.

 

Vale muito se hospedar numa casa, principalmente porque você vai ter uma cozinha. Quem gosta minimamente de cozinhar vai pirar com a profusão de produtos orgânicos e fresquinhos. A grande atração são os farmer’s markets. O maior deles fica no Embarcadero e acontece aos sábados. São dezenas de barracas dos produtores das fazendas de orgânicos da Califórnia vendendo direto ao consumidor. Um dos meus programas preferidos é escolher cogumelos frescos. É possível encontrar espécies raras, como porcini e morel, que adoro.

 

Mas a cidade também tem muitas opções de bons restaurantes, com comidas de todas as nacionalidades: chinesa, indiana, italiana, árabe, mexicana e até brasileira. Um dos meus favoritos é o pequeno Burma Superstar, de comida burmanesa, que está sempre cheio, mas vale a espera. Não deixe de pedir a deliciosa Tea Leaf Salad.

Quanto mais hippie melhor
Gastar os tubos em compras em São Francisco não pega lá muito bem, afinal, você está na capital hippie do mundo e o desapego está em alta desde os anos 60. As lojas de departamentos ficam na área turística e quem vive na cidade prefere comprar em lojas de artistas locais a dar o dinheiro às corporações. Vi com meus próprios olhos a gigante Virgin Records fechar, enquanto as lojas de discos de vinil, as livrarias de usados e os brechós vão muito bem, obrigada.

As livrarias são uma atração à parte. Um dos cartões- postais da cidade é a charmosa City Lights, de 1953. Ela foi ponto de encontro histórico da cena beat. Oferece uma lista de livros com destaque para o período beatnik. A minha preferida é a Green Apple, onde você acha livros novos e usados. Prepare-se para passar horas nos puxadinhos que compõem o espaço. As seções de arte e fotografia são de enlouquecer. Outra livraria curiosa é a Bound Together – Anarchist Colletive Bookstore. Como o nome já diz, é uma livraria cooperativa anarquista. Tem publicações revolucionárias, fanzines, revistas de todos os tipos de movimentos libertários e engajados.

A Amoeba Records, famosa loja alternativa, continua valendo uma visita se você gosta de música.
Enorme, reúne uma imensa quantidade de vinis, CDs, pôsteres, DVDs, além de ter shows na faixa. A Rooky Ricardos é uma dessas lojas de enlouquecer amantes de discos, pequena, mas forrada de disquinhos de 45 polegadas que saem a “3 por US$ 5”. Outra loja bacana pelo cuidado e pela edição dos LPs é a Groove Merchant. É recheada de sons exóticos e toda a gama black dos 60 e 70. Virei fã.
O melhor lugar para comprar roupas e acessórios são os brechós. A Haight Street tem vários, como o Held Over e o Wasteland, que mistura o novo e o usado. Nos fundos, tem uma dessas máquinas de foto automáticas que garante a diversão de entrar com chapéus, óculos e lenços e sair com um souvenir especial. E tem os brechós refinados, ou vintage boutiques, mais caros, mas com um preciosismo e amor à causa que enchem os olhos, como o Decades of Fashion, que tem peças antigas pra valer, dos anos 20, 30 e 40.

São Francisco nights
Se você for pedalar o dia inteiro, provavelmente não vai ter força para sair à noite. Mas opção é o que não falta. Dá pra escolher seu tipo de festa pelo SF Weekly, jornal semanal gratuito com a programação da cidade. O meu programa preferido são os shows, especialmente nas casas pequenas. Vale conhecer o Great American Music Hall, um antigo bordel de arquitetura especial transformado em casa de shows. E não poderia faltar Fillmore, palco de apresentações históricas, onde você pode apreciar uma linda coleção de pôsteres psicodélicos dos anos 60 e 70. Um dos lugares onde mais me diverti foi na 111 Minna Gallery, misto de galeria de arte e bar que abriga eventos como o Sketch Tuesdays, mensal, em que novos artistas produzem trabalhos ao longo da noite para colocá-los à venda a preços acessíveis. Comprei um desenho incrível por US$ 20 de um artista que se chama Jay Howell e que hoje já desponta no mundo das artes.

Para assistir a um filme, vá ao Red Vic Movie House, um cinema alternativo que funciona em sistema de cooperativa. Oferece tanto estreias como clássicos ou longas obscuros e raros. Eles ficam em cartaz por dois ou três dias, a seleção é boa, e a pipoca, gostosa.

Para agradecer a maravilhosa estada na cidade, não deixe de louvar à Saint John Coltrane na musical Saint John Coltrane Church. Lá, o famoso saxofonista é venerado como santo nas melhores e mais sagradas sessões de jazz da cidade. Imperdível para o corpo e para a alma, assim como São Francisco sobre rodas.

Tpm+ On the road

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Por Beth Slamek

Se você se empolgar com sua bike e a cidade ficar pequena, você pode ir pedalando até lugares incríveis não muito longe de San Francisco. Além da abundância de sinalização e de materiais como mapas e guias especializados, os motoristas estão acostumados e respeitam os ciclistas, fazendo com que poucos lugares sejam tão seguros e cômodos para se viajar de bicicleta. Aproveite, você está no melhor lugar para fazer isso.

Um passeio imperdível e não muito distante é atravessar a ponte Golden Gate e ir até a Stinson Beach, uma praia maravilhosa e bem selvagem. Fica a uns 30 quilômetros de San Francisco por uma estrada maravilhosa com vistas deslumbrantes da costa. Mas esteja preparado para enfrentar subidas e descidas bastante acentuadas. O ideal é ir num dia e se hospedar por lá para recuperar as energias e voltar no outro dia. No meio do caminho você ainda pode desviar para Muir Woods, um parque estadual onde você pode apreciar alguns exemplares das exuberantes redwoods, as belas e gigantescas árvores da Califórnia.

Para um nível um pouco mais avançado recomendo efusivamente descer pela Highway 1 até a região do Big Sur. Fica a uns 250 quilômetros ao sul de São Francisco, abaixo das cidades de Monterrey e Carmel, e é sem dúvida um dos trechos mais espetaculares da costa da Califórnia. A bicicleta é sem dúvida o melhor veículo para fazer esse trecho tão especial do litoral, pois a estrada acompanha o mar e dá pra parar em todos os cantos e apreciar cada pedacinho de vista. Vale ir fazendo devagar, demorando o tempo que for e ir dormindo pelo caminho. É uma paisagem inesquecível.

Em ambos os casos, ou para qualquer outra viagem que você tenha que pegar a estrada, vale ter cuidados e equipamentos especiais. Coloque um bagageiro traseiro para liberar as suas costas da bagagem, instale refletores, leve um kit de reparos, bomba e procure viajar sempre com a luz do dia. É fundamental também que você saiba reparar um pneu e fazer pequenos concertos para não ficar na mão no meio da viagem. Para saber o básico, procure por aulas de concerto e manutenção de bikes sempre oferecidas nas bicicletarias da cidade. Respire fundo e boa pedalada!

* Beth Slamek, 35, é colaboradora da Trip Editora e passa uma temporada de quatro meses na cidade. Esta é sua terceira visita a São Francisco – a primeira foi em 2002, para uma travessia de bicicleta ao longo da costa da Califórnia.

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