por Bianca Fincati
Tpm #131

Dono do consagrado restaurante paulistano Mocotó põe a mesa também em casa

A fala é mansa, os braços têm marcas recentes de queimaduras, mas é outra coisa que chama a atenção durante a entrevista com Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó: ele não faz referência a si mesmo, nem uma única vez, como chef. É sempre cozinheiro. O que é pra lá de curioso nessa área.

O glamour que a profissão passa (e que, segundo quem entende do assunto, é de muito mais ralação que qualquer outra coisa) faz com que imaginemos profissionais vaidosos. E a palavra vaidoso pode ter duas interpretações. Uma define pessoas que se acham melhores do que as outras. Mas Rodrigo está mais para a outra definição, dada por ele próprio. “Minha maior vaidade é o trabalho, o que me deixa mais orgulhoso de mim mesmo. É ver a casa cheia, as pessoas comendo bem”, diz o paulistano “de coração pernambucano”, como se define, aos 33 anos. O mesmo orgulho se manifesta quando a entrevista é interrompida porque o dono de um restaurante de Maceió, Alagoas, quer conhecê-lo. “Cada vez mais nordestinos vêm e ficam impressionados com o caráter autoral da nossa cozinha. E fazemos tudo para justificar a visita e a viagem.”

Sim, o restaurante de comida brasileira que Rodrigo comanda é um hype, mesmo estando longe do circuito gastronômico badalado de bairros como o Itaim e os Jardins. E, quando dizemos longe, é literalmente: se você não está na zona norte da cidade, onde fica a Vila Medeiros, é preciso caminhar um bocado para chegar até o Mocotó. Mas todo mundo vai. E quem ainda não foi não sabe por que ainda não o fez.

"Passei a dar valor para uma roupa lavada e passada à perfeição"

O restaurante é como uma extensão da casa de Rodrigo, que morava na mesma quadra, mas se mudou há pouco mais de um ano para não mais que dez minutos dali. Sabe como é, vida de chef e dono de restaurante não é fácil... “Cozinheiros têm um rotina muito particular. Quando está todo mundo de folga, a gente está trabalhando mais. E, quando a gente está de folga, está todo mundo trabalhando. O meu convívio social se dá através do Mocotó”, conta Rodrigo, casado com Lígia, 22 anos, que conheceu... no Mocotó. O pai dela era um cliente habitual que um dia levou a família. E assim se apaixonaram cinco anos atrás, ali mesmo, no salão.

Bom rapaz
A mulher de Rodrigo acompanhou de perto a sessão de fotos. “Gostei de tudo”, disse Lígia, taxativa sobre o primeiro ensaio sensual do marido. “Fiquei com ciúme, claro, quando é o marido dos outros é mais fácil.”

O que Rodrigo mais gosta na mulher, estudante de artes na PUC, é que ela é detalhista, perfeccionista, “mais que eu”, e muito feminina, “especialmente em casa”. Foi por causa dela que Rodrigo diz ter aprendido a tomar gosto pelas coisas de uma casa. “Quando morava sozinho tinha uma pessoa que ia duas, três vezes por semana, e arrumava, lavava, passava, mas do jeito que fizesse estava bom. Passei a dar valor para uma roupa lavada e passada à perfeição”, explica.

A chegada das filhas, Nina Maria, 4 anos, e Maria Flor, 3, fez com que se esforçasse mais para ser presente. “Troquei fralda, dei banho, não teve nada que me intimidou”, diz. Hoje, na casa dos Oliveira quem dá o start no dia é ele. Rodrigo prepara o café da manhã, as lancheiras, acorda uma filha de cada vez, leva ao banheiro e arruma as duas direitinho, não fosse por um detalhe: “Minha esposa fica de cabelo em pé com os penteados. As meninas, duas vaidosinhas, me olham e dizem: ‘Pai, não é assim que a mamãe faz’. Respondo que o meu é diferente porque é mais moderno”.

Brunch na esquina
Como volta tarde do restaurante, Rodrigo só prepara na cozinha de casa o café da manhã. “Adoro. É nossa grande refeição: mesa sempre posta, com cuscuz, tapioca, pão assado na hora, queijo de coalho, batata-doce, bolo de rolo, bolo de fubá...”, conta. Quando consegue folgar, aproveita o dia em algum passeio ao ar livre, “o que as meninas mais gostam de fazer”. Se dependesse dele, tinha mais filhos. “Eu queria mais uma menininha, mas ainda tô tentando convencer a minha mulher, ou pegá-la desprevenida”, confessa, rindo.

Rodrigo é um cara focado na família e no trabalho. Todo o oba-oba que costuma cercar chefs de sucesso, com ele não rola. “A cozinha é uma barreira física. Nenhuma garota vai entrar e pedir o telefone do chef”, explica. Mas entrega que chegam bilhetinhos. “Sabem que sou casado e prefiro entender isso mais como um gesto de carinho do que como assédio.”

"Troquei fralda, dei banho, não teve nada que me intimidou"

Por mais de uma vez Rodrigo foi eleito o melhor chef ou teve a casa escolhida como melhor restaurante de cozinha brasileira. Também pôs o Mocotó entre os 101 melhores restaurantes do mundo pela revista americana Newsweek. Mesmo com tantas façanhas no currículo, ele conta em tom de brincadeira que já perdeu a esperança de que o pai, José Oliveira de Almeida, dê o braço a torcer para o sucesso do filho à frente da casa que criou há três décadas. Com 75 anos, seu Zé está sempre circulando pelo salão. De fato, o caldinho de mocotó continua o mesmo. Mas o Mocotó Restaurante e Cachaçaria, quanta diferença...

Novidade fresquinha: este mês, Rodrigo abre o Esquina do Mocotó, no lugar onde o próprio nome diz. “Também será brasileiro, sou devoto do sertão e conservo a alma. Mas esse restaurante será mais livre, vamos trabalhar mais com produtos do Cinturão Verde”, adianta o chef, que servirá brunch na nova casa. Lembra que Rodrigo adora café da manhã? Imagine só o que vem por aí.

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