Tpm

por Gustavo Angimahtz
Tpm #159

Um jeito criativo, eficiente e econômico de consumir alimentos. É isso que prega Regina Tchelly com suas receitas cheias de sementes, cascas e talos. A criadora do Favela Orgânica fala do projeto que começou no morro e ganhou o mundo

Aparaibana Regina Tchelly sempre quis ser diferente. Em busca do novo, aos 15 anos, ela saiu de sua terra natal, Serraria, para viver na capital, João Pessoa. Aos 19, já com uma filha nos braços, resolveu tentar a vida no Sudeste. Mudou-se para o Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, e passou a trabalhar como empregada doméstica. Ainda torcia o nariz para alguns legumes e desconfiava da comida vegetariana. Mas logo de cara começou a tomar consciência da importância de uma alimentação saudável. Com o tempo percebeu que ela afetava não só a vida e o bem-estar das pessoas, mas também a construção de um país.

A residência em que Regina trabalhou no Rio tinha hábitos alimentares distintos dos que ela estava habituada. “Lá tudo era integral e, inicialmente, eu não curti”, conta. “Como era obrigada a comer brócolis, por exemplo, tive que aprender como fazer gostoso. Então comecei a brincar com ele.” A brincadeira funcionou. Hoje, a paraibana diz ser capaz de extrair até cinco receitas de qualquer alimento e, mais que isso, se sobra alguma coisa que não consegue aproveitar nas receitas, manda direto para a composteira, onde transforma matéria orgânica em terra. Ou seja, nada vira lixo.

De doméstica a ativista

O projeto Favela Orgânica nasceu na casa de Regina no Morro da Babilônia. “Sou uma pessoa atenta às oportunidades, e tinha chegado um curso para jovens desenvolverem iniciativas que trouxessem benefícios à cidade”, explica a cozinheira. Sua proposta era trabalhar o ciclo dos alimentos – desde a horta até a composteira. O projeto foi selecionado para participar do curso em agosto de 2011, mas a banca avaliadora não o aprovou para implantação. “Foi o melhor ‘não’ da minha vida. A banca disse que minha ideia era complexa demais e que precisava melhorar”, conta.

Menos de um mês depois, no dia 24 de setembro, Regina montou por conta própria, em sua casa, e com a ajuda financeira das vizinhas, uma oficina sobre a importância de “devolver para a terra o que a terra nos dá”. A ideia era ensinar uma cozinha criativa para que as pessoas conseguissem aproveitar ao máximo os alimentos (folhas, raízes, cascas, talos, sementes) e orientar como se faz compostagem com o que é de fato resto. A iniciativa foi bem recebida pela comunidade: “Foram 6 mães de família e domésticas na primeira oficina, 10 na segunda, 15 na terceira e, na quarta, já eram 40 pessoas, vindas de quatro comunidades diferentes da zona sul do Rio, além de pessoas do Japão, da França e da Itália”, lembra.
Hoje, o Favela Orgânica planta suas sementes em diversos países sem deixar para trás as favelas cariocas onde germinou. “Além de cozinhar, trabalhamos com crianças da comunidade, com análise sensorial, pedindo que elas cheirem, degustem e peguem alimentos espontaneamente. Também incentivamos que elas cozinhem”, explica Regina, uma das homenageadas do Trip Transformadores deste ano.

“Faço parte do mundo, então transformo o mundo”

Cozinha criativa 

Regina gosta de trabalhar com o que tem. Se em casa não tem champinhom, cascas de banana substituem o cogumelo; cascas de melancia fazem as vezes de frango desfiado em seu risoto; ramas de cenoura viram molho pesto; e casca de abóbora em sua quiche, ela jura, lembra o sabor do camarão. “Às vezes vem uma chef bem metida e diz que minha quiche de carne-seca está maravilhosa. Aí eu falo: ‘Não, abestalhada, isso é casca de banana, de abóbora, e tome-lhe talo e casca’”, diverte-se Regina. Um único ingrediente não entra nos alimentos que a cozinheira prepara: carne. Isso porque a ideia é que os pratos sejam realmente baratos e que não dependam da mistura. Regina lembra da infância em Serraria quando carne vinha sempre acompanhada de refrigerante e era comida apenas de fim de semana.


A transformação proposta por Regina é a capacidade de enxergar o alimento não como um combustível, mas como um recurso limitado que merece cuidado, carinho e que funciona como uma ferramenta de aproximação. Todas as semanas, ela recolhe sobras nas feiras livres e prova que nem tudo que é descartado é inapropriado para o uso. Faz o caminho inverso: do lixo para a mesa. “Gosto de olhar com amor e respeito para o alimento”, ensina. “Faço parte do mundo, então transformo o mundo”, completa. A valorização da produção local de alimentos é um vetor de seu trabalho. “Hoje, em todo canto, só tem churrasco e lasanha. Se não nos conscientizarmos para resgatar os alimentos locais, vai ficar tudo igual em todas as cidades.”
O aprendizado de Regina com o Favela Orgânica, que em setembro comemorou quatro anos de existência, trouxe mudanças também em sua vida pessoal. “Eu já tive 165 sapatos, hoje consigo ter só três”, conta a chef sobre sua nova política de desapego. Para ela, comer bem e sentir-se bem é a melhor alternativa à voracidade consumista dos nossos tempos.

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