por Letícia Lima
Tpm #134

Deus. É assim que é chamado desde vídeo do Porta dos Fundos em que vive o Todo-poderoso

É assim que o ator Rafael Infante é chamado nas ruas desde que um vídeo do Porta dos Fundos com mais de 5 milhões de visualizações o mostrou vivendo uma inusitada versão do Todo-poderoso. A convite da Tpm, uma colega de elenco conta tudo o que sabe sobre ele.

Ao ser convidada para escrever este texto sobre o Rafael Infante – aliás, muito esquisito chamá-lo de Rafael; então vou dizer Rafa Infante –, eu pensei: “Oba! Que delícia!”. Já conheço o Rafa há alguns anos, desde seu começo no site Anões em chamas, quando ele gravou seu primeiro vídeo para a internet, bem antes de ser chamado de “Jim Carrey brasileiro” ou, como prefere o diretor do Porta dos Fundos, Ian SBF, o “Jack Nicholson brasileiro”.

Antes de escrever, marquei de bater um papo com o Rafa no Shopping da Gávea, no Rio, onde ele está em cartaz com a peça Rain Man (na qual ele vive o papel que foi de Tom Cruise no cinema, sob a direção de José Wilker). Pouco antes do horário combinado, recebi a mensagem de que ele se atrasaria um pouco: ele estava esperando a entrega de um armário novo para a cozinha. Achei tão fofo imaginar o Rafa escolhendo um armário com a (futura, logo, em breve) mulher para a casa nova, pensando nos detalhes da organização e ainda esperando para receber o móvel em casa!

Chegando no shopping, ele avisou que precisava comprar incensos, pra quando chegasse em casa, à noite. Eu já sabia do lado zen do Rafa, mas não esperava vê-lo comprando lembrancinhas para a amada e coisinhas cheirosas para a casa. Outro dado importante: o Rafa é muito relax. Despojado a ponto de chegar de mãos abanando, nenhuma mochila ou bolsa, nada. Tudo o que ele precisava já estava no teatro.

Barata Flamejante
Rafa Infante, 27 anos, não pensava em ser ator quando estava no colégio. Achava que teria qualquer outra profissão, só não sabia qual. E quando chegou a hora de fazer faculdade escolheu cinema. Na faculdade ele logo notou que seus interesses sempre eram levados para as coisas que diziam respeito à atuação. Ele queria sempre saber “mas e o ator nessa história, hein?”. Foi quando se deu conta: era ISSO. Ia ser ator. Mudou para a faculdade de teatro e foi chamado para um teste por um grupo de teatro de improvisação. E é aqui que eu e Ian SBF entramos na história: fomos chamados para assistir ao teste dos candidatos e opinar. E então... tchan, tchan, tchan, tchan! Vimos Rafa, ainda de cabelo grande, e sua imitação impagável de Silvio Santos.

Bom, nem precisava dizer que ele foi o escolhido. Mas vou dizer: ele foi o escolhido. E sua fama de improvisador genial logo se espalhou. “O improviso expande a consciência do ator”, ele diz. E o improviso, para ele, é questão de treino – é malhar o cérebro, que aprende as técnicas e fica mais ágil.

Logo Ian o convidou para fazer um vídeo no seu site Anões em chamas, do qual eu também fazia parte. Outros vídeos vieram, depois o Rafa participou de programas para o canal Multishow, como o Barata Flamejante, em que eu, além de atriz, também fui diretora de arte e figurinista. Ou seja, convívio intenso. E então surgiu o Porta dos Fundos, que foi onde tudo aconteceu pro Rafa. Que fique claro: ele é um ator que faz humor, e não um comediante. Faz drama e outros gêneros tão bem quanto comédia.

Cantor e compositor
A presença do Rafa nos sets traz alegria sempre. Com ele não tem tempo ruim, mesmo quando descobre que terá o corpo todo pintado mais uma vez. Explico: Ian está sempre escalando o Rafa para personagens que são muito caracterizados. No Barata Flamejante, o ator fazia o personagem Salamandra, um cara que acreditava ser um super-herói e cujo suposto superpoder era o de se camuflar no ambiente. Então, em todas as cenas ele estava pintado exatamente como o cenário. Rafa passava o dia inteiro de sunga e touca de natação, e o resto era pintura. Teve uma cena em que ele comia uma coxinha numa lanchonete, e a coxinha era pintada junto.

Ian diz que o Rafa tem um humor muito físico, corporal, que funciona muito. Até hoje, no Porta dos Fundos, esses papéis o perseguem. No vídeo Parabéns, por exemplo, o Rafa entra de palhaço. Reparem: é o único que está caracterizado e isso torna a situação mais engraçada. Quase sempre é só ele quem está pintado. Quando participamos de um evento em São Paulo, resolvemos apresentar esse esquete ao vivo. Lá foi o Rafa, de novo, ser o único palhaço coberto de tinta. Mas, como diz o Ian, “no final ele gosta”.

É um ator que faz humor, e não um comediante. Faz outros gêneros tão bem quanto comédia

E ele também se vinga. Uma brincadeira-piada que usa esporadicamente é, conversando com alguém, dar tchauzinho e cumprimentar uma pessoa, como se existisse alguém ali. Só que é sempre alguém imaginário. A (futura, logo, em breve) esposa, Tati, diz que não cai mais nessa. Eu caio todas as vezes, mas finjo que não. Outro talento dele? Criação de letras de músicas. Engraçadíssimas. A mais famosa tem conteúdo que eu não posso escrever aqui (podem me perguntar no Twitter que eu conto). Algumas acabam virando músicas de set, e todo mundo começa a cantar e a colaborar com a letra. Outras até entram pro vídeo, como o funk do Capitão Gancho, que rendeu clipe só dele. Cantor e compositor, Rafa já teve até uma banda, a Preto Tu. Ele e Tati, aliás, compõem juntos. Fofo, não?

Rola
Tatiana Novaes também é atriz, além de escritora – está escrevendo dois livros, um infantil e outro juvenil. Rafa passa horas falando dela e da relação dos dois. Contou, por exemplo, o quanto a Tati foi fundamental na criação do personagem em Rain Man. Ela sentava para ver a peça e fazia anotações sobre o trabalho dele. O Rafa mudou muito desde que a conheceu. Até tentei, mas não há outra palavra: ele amadureceu.

Eles moram num lugar afastado e sossegado (o Recreio), bem diferente do agito da zona sul, onde Rafa viveu a vida inteira. Lá ele cuida do jardim e até varre a casa quando é preciso. Os dois vão se casar em outubro, apesar de já morarem juntos e de já quererem filhos. A madrinha do casamento sou eu! O padrinho é o Ian – que o Rafa diz ser “tudo” na sua carreira. “Tudo está acontecendo por causa das oportunidades que Ian me deu.” 

O colega Marcelo Serrado o define como sagaz, imprevisível, generoso, versátil e galã

Sobre as crenças, ele se define como espiritualizado. Acredita na energia das coisas, em astrologia. Está sempre falando de coisas místicas e das sintonias do mundo. Apesar de a gente não perceber, ele diz que sempre faz um minirritual mental antes de entrar em cena. Foi esclarecedor saber disso. Por trás do menino inquieto e aparentemente desatento, sempre percebo que na hora da cena ele entra com uma força muito grande.

Sempre que temos uma cena juntos, nos preocupamos um com o outro e perguntamos o que o outro acha. Parece um detalhe bobo, mas faz uma diferença enorme. No vídeo Rola, a gente não sabia o que fazer. Lemos o roteiro e não fazíamos ideia de que tom usar. Estávamos gravando numa lanchonete no centro do Rio, e o Rafa me chamou do lado de fora e disse: “O que a gente vai fazer?”. Caímos na gargalhada, tipo “e agora? Como a gente vai fazer isso?”. Daí resolvemos que ele ia oferecer “a rola” do jeito mais natural do mundo e eu ficava com a parte mais difícil, que era ouvir aquilo, mas meio que não entendendo totalmente. A gente não sabia se ia funcionar. Mas nem preciso dizer o quanto ele arrasou, né?

O ator Marcelo Serrado, que divide o palco com ele em Rain Man, definiu o Rafa em algumas palavras: sagaz, imprevisível, generoso, dinâmico, versátil e galã. Ian SBF diz que o melhor é a tal capacidade de expandir o roteiro. “Ele cria em cima das situações e muitas vezes acaba melhorando a qualidade do texto.” E ainda cria cacos incríveis como o “errou feio, errou rude”, no vídeo Deus – um divisor de águas na carreira do ator (que até hoje faz com que as pessoas na rua o chamem de Deus). “Se fossem fazer um Batman brasileiro, o Rafa seria o Coringa sem dúvidas”, completa Ian.

Para encerrar, vou usar o que a Tati contou: quando vai a um restaurante chique aqui no Rio, Rafa gosta de pedir cocô de pombo frito. E diz isso com tanta seriedade, como se fosse uma iguaria francesa, que sempre deixa os garçons constrangidos. Sim, eu vou acabar o texto com o “cocô de pombo frito” pra isso não sair da cabeça de vocês. Mas pra isso eu preciso dar um jeito de a frase terminar com “cocô de pombo frito” de maneira natural. (Droga!) Como se já não bastasse ter dito três vezes... “cocô de pombo frito”.

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