por Gaía Passarelli

”Pensar que a Índia é um pais de estupradores selvagens é como achar que o Brasil é um país de Alexandre Frotas ou que os homens austríacos são como aquele pai que manteve as filhas em cativeiro”

Outro dia conversei com uma amiga sobre uma conhecida em comum que largou tudo para passar uma temporada espiritual na Índia. Não é novidade, claro. Tem séculos que espiritualidade hindu (e suas quase infinitas manifestações) atraem ocidentais em busca de respostas ou dispostos a pagar por um "decleasing" espiritual. Mas a questão que minha amiga levantou era outra. O que leva mulheres a passar uma temporada espiritual num país com um histórico brutal de violência de gênero como a Índia?

Não é fácil responder. Mas a questão mais importante é entender que casos medonhos como o do estupro coletivo de Delhi não representam todo um país. Os criminosos e seu abjeto advogado de defesa (que tem um discurso bem parecido com o dos nossos comentaristas de portal, diga-se) receberam como resposta não só a pena de enforcamento, mas um levante feminino até então inédito no país. Seis anos passaram, mas caso não foi esquecido. Dito isso, é claro que a Índia não é um país fácil para mulheres. Mas qual é? Em diferentes graus, não é fácil ser mulher em cultura alguma. Para uma viajante, saber de antemão onde está pisando é essencial, mas não a torna imune à violência. Nem na Índia, nem no Equador, muitas vezes nem dentro da própria casa. É possível uma ocidental andar desacompanhada e com a cabeça descoberta nos Emirados Árabes? Como será que é viajar pelo Sudão? Dá, honestamente, para encarar uma viagem sozinha num navio cargueiro? Não sei. Mas sei que se nós comprarmos todos os clichês mundiais como verdades absolutas, nós não saímos do lugar. Literal e metaforicamente.

Pensar que a Índia é um pais de estupradores selvagens é como achar que o Brasil é um país de Alexandre Frotas (que fez aquela aparição lastimável num programa de televisão dizendo ter violentado uma mulher, sob aplausos da plateia) ou que os homens austríacos são como aquele pai que manteve as filhas em cativeiro. Caras como os do crime de Deli e o do Rio de Janeiro são criminosos em qualquer lugar, mesmo que aqui os comentaristas de portal prefiram relativizar e na Índia tentem justificar o injustificável dizendo que “é preciso duas mãos para bater palmas”.

Crimes medonhos contra mulheres acontecem desde sempre, mas cada vez que vemos a sociedade se levantar contra esses casos é por que a grande maioria das pessoas no mundo, gosto de acreditar, não concorda com esse tipo de insensatez. Prova é que vemos cada vez mais levantes como o do começo do mês em São Paulo e Rio (estou escrevendo em 02 de junho), como o de 2013 em Deli (veja abaixo).

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Então, é importante ir para a Índia, ou para qualquer lugar que tire você da sua zona de conforto? É, sim. Menos no sentido de querer mudar a cultura alheia e mais no sentido de derrubar mitos como o de que toda a Índia trata mal suas mulheres, que todo italiano é um porco machista ou que todo norte-americano é um idiota armado. Viajar nos lembra que apesar de coisas serem muito diferentes de um lugar para outro, a estupidez acontece em todos os lugares e a capacidade humana de amar e cuidar também. Aqui, na Índia e em todo o mundo.

A campanha Stop the Shame, relacionada ao obrigatório (e difícil de assistir) India’s Daughter, tem o mesmo espírito da campanha Contra a Cultura do Estupro, tão relevante no Brasil agora. Assista. 

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Créditos

Imagem principal: Tanya Warma, Nova Délhi, India.

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