por Erica Gonsales
Tpm #92

A jornalista Erica e a fotógrafa Autumn mostram as maravilhas da ilha de Marajó e dão dicas


Não sou aventureira, e a ideia de ir pra uma ilha tão distante me deixou insegura. Minha amiga Autumn insistiu na ilha de Marajó e conseguimos uma brecha de cinco dias para viajar: eu, ela e o André, meu namorado. O dia de voltar seria meu aniversário de 33 anos.

A viagem começa quando entramos no barco que sai do porto de Belém rumo à ilha. O calor é intenso e passamos as próximas três horas embrenhados no rio, cercados de mata amazônica. Logo estamos no porto de Camará, onde subimos numa van rumo a Soure, o município mais populoso da ilha.

A melhor maneira de circular em Soure é de bicicleta, mas no primeiro dia pedimos moto-táxis para ir à praia do Pesqueiro, a mais popular. Pegamos 11 quilômetros de estrada, cercada de manguezais, de igarapés e da floresta amazônica. Sensação de acolhimento na vastidão. De estar mais perto de onde o mundo acaba. Ou começa?

Já passa da uma da tarde e o sol é forte. Fico com receio de o calor me fazer mal. Só pode ser a maldição de uma chatura permanente lamentar coisa dessas. É tudo tão bonito, por que não sossego e dou pra pensar se me dá piripaque. Que barriga essa minha, não vou beber mais cerveja?

Na praia combinamos com os motoqueiros de voltar às 18 horas. A maré está baixa, é longe alcançar a água morna, mistura do rio Amazonas e do oceano Atlântico. Como é um dia de semana de junho, a praia está quase deserta. Na temporada fica lotada, com muito brega no último volume. Mas agora estamos a salvo.

O resgate
A maré está subindo. Depois de atravessar um córrego, estamos num trecho cheio de galhos que espetam para fora da areia. Meu namorado tropeça com o joelho em um dos galhos, e o sangue brota. Amarro minha canga na perna dele e começamos a voltar. Chegamos ao córrego e ele está muito mais cheio. Autumn carrega uma câmera bem cara. E agora? Vou andando e perco o pé, mas consigo chegar ao outro lado. André atravessa com água na altura do peito, levando a câmera acima da cabeça. Andamos lentamente, encharcados, quando ouvimos o barulho dos motoqueiros.

De volta à garupa da moto. De um lado, é o sol caindo e talhando o céu de laranja e rosa; do outro, a lua reinando prata num azul aveludado. Sorrio toda suspiros, cheia de vento desanuviando a praga do meu desassossego.

Com o joelho do André debilitado, ficamos um dia na pousada, sem bobeira de achar que estamos perdendo tempo. Da rede, a chuva caindo grossa e inofensiva. Tentando ler livro, mas as palavras sucedem sem registro. Tento lembrar da última vez que senti essa paz, esse centro, esse tudo que eu busco e não encontro.

À tardinha e só uns pingos que caem dos matos. Imprimimos fotos do dia anterior numa mini-impressora da Polaroid que a Autumn levou. Vamos mandar algumas para nossas mães e amigos. Saio de bicicleta atrás do correio e me toco que faz séculos que não envio uma carta, assim como há muito não me sinto livre como naquele momento.

Fim de tarde encontro com a Autumn e nos sentamos numa lanchonete à beira do rio pra comer sanduíche de queijo marajoara (queijo de búfala cremoso, incrível) e suco de taperebá, uma frutinha ácida e alaranjada.

Surpresas
De volta à pousada, encontro uma moça negra de sorriso perfeito que a Autumn diz ser meu presente de aniversário. Ela pede que eu tome banho e deite na cama. Ganho uma hora de massagem marajoara. Edilene tem a mão firme e uma boca astuta. Me conta quase a vida toda durante a sessão! E me aconselha a experimentar o “viagra natural” de Marajó, o turu. É um molusco extraído dos troncos do mangue que pode ser preparado de várias maneiras. O francês dono da pousada, Thierry, pode preparar com antecedência. Não consegui provar, mas Edilene garantiu que a iguaria faz maravilhas com a libido.

Até então comíamos onde fosse conveniente – como o bar da praia do Pesqueiro, onde almoçamos PF –, então programamos um jantar na pousada, feito pelo Thierry. Caldo de caranguejo, filé de búfalo com batatas assadas e um peixe grelhado com um molhinho ácido e secreto. Tudo simples, mas delicioso. Nos demos conta de que só nos restavam dois dias na ilha e resolvemos conhecer outro município. O francês nos indicou uma pousada na praia de Joanes, no município de Salvaterra.

Antes de deixar Soure, demos uma passada na segunda praia mais popular da região, Barra Velha. É uma faixa de areia estreita que fica lotada de bares. O vendedor de coco me explica que a água, agora marrom, fica verde azulada no verão, quando é maior a influência do oceano.

Atravessamos o rio Paracauari de balsa até Salvaterra e rodamos 25 quilômetros de táxi para chegar a Joanes. Do alto do pequeno morro onde fica a pousada Ventania, uma visão da praia com ondas calmas e falésias no canto oposto. O vento jamais cessa na varanda em frente aos quartos de madeira, tudo rústico e bonito, organizado. Na cozinha, cada um pega o que quiser na geladeira e anota num papel para ser cobrado.

Depois de um temporal, a noite amansa os ventos, é véspera do meu aniversário. A lua nasce cheia e se impõe. Caminhando na praia posso ver minha sombra na areia. A impressão de que estou onde o mundo começa me domina.

Ainda escuro, uma van lotada chega pra nos levar para o porto. No rádio, “até o sol nascer amarelinho”. É segunda-feira, fila para comprar passagem. No barco, começa a chover. Autumn prepara chá e brindamos. Um grande arco-íris se forma no rio. “Feliz aniversário”, dizem meus companheiros. Uma TV está ligada no noticiário, o mundo me invade aos poucos, enquanto o céu fica cada vez mais distante.

* Erica Gonsales, 33, é jornalista e produtora audiovisual. Escreve contos no blog maismalagueta.blogspot.com.

** Autumn Sonnichsen, 25, é fotógrafa californiana, vive há três anos entre Rio e São Paulo e colabora com as revistas Trip e Tpm, entre outras.

DICAS

Não perca
1. Pedalar por Soure, que tem no máximo 30 ruas. 2. Provar o queijo marajoara. 3. Caminhar à noite pela cidade e explorar os poucos bares e barracas de lanches. 4. Tomar sorvete de tapioca vendido por ambulantes no barco que vai de Belém a Camará. 5. Quando vir uma placa nas casas anunciando “vendemos Chopp”, bata palmas e peça um. Não é a bebida, mas sim aquele sorvete de saquinho, vulgo chup-chup ou gelinho.

Quem leva
Gol, ida e volta, de São Paulo a Belém, a partir de R$ 570. De Belém, é preciso pegar um barco até Marajó.

Barcos

Belém-Porto Camará: de segunda a sábado, às 6h30 e às 14h30. Domingos, às 10h. Sai do porto de Belém. A passagem custa R$14,50 e pode ser comprada na hora. Soure-Porto Salvaterra (para ir a Joanes): a travessia do rio Paracauari dura 15 minutos. O transporte de pessoas e bicicletas é gratuito. Para transporte de veículos: (91) 3246-7472.

Pacotes alternativos
A agência Turismo Consciente promove viagens à vila do Pesqueiro, incluindo convivência com os moradores. Para se hospedar em um hotel em Soure, o pacote sai por R$ 994, para três dias. www.turismoconsciente.com.br; (11) 3031-9311.

Transporte na ilha
Vans: geralmente as pousadas marcam o serviço de van para pegar o hóspede no porto. Do porto Camará para o Soure sai R$ 8. Do porto Salvaterra para Joanes, R$ 4. Táxi: pode marcar antes. Associação dos Taxistas Autônomos de Salvaterra, (91) 3765-1634 ou 9111-6569. Fale com o Charles. Moto-táxi: no Soure, os preços são combinados e variam entre R$ 4 e R$ 18. Bike: o aluguel da bicicleta na pousada O Canto do Francês sai por R$ 12 a diária.

Onde Ficar
No Soure: O Canto do Francês, Sexta Rua, www.soure.tur.br/content/view/110/101/. De R$ 90 a R$ 110. Em Joanes: Pousada Ecológica Ventania, Quarta Travessa, (91) 3646-2067, www.pousadaventania.com.

A Clickhoteis oferece hospedagem no mundo todo. Reservas Clickhoteis (11) 2196-2900, www.clickhoteis.com.br. São cinco opções de hotéis em Belém do Pará, como o Regente Belém. Av. Governador José Malcher, 485, (91) 3181-5000. Vale a pena dedicar um dia para conhecer uma das capitais mais bonitas do Brasil, cheia de paradas obrigatórias, como o complexo turístico Estação das Docas (que tem de restaurantes a museus), o mercado Ver-o-Peso, a Fortaleza, bares, restaurantes e outros cantos que exalam a cultura local.

Mimos e informações úteis
A massagem marajoara da Edilene custa R$ 30, na pousada O Canto do Francês. Dê um pulo na agência dos Correios de Soure, Primeira Rua com Travessa 14. Nessa agência funciona um banco Bradesco. Na cidade há um Banco do Brasil.

Cidade dos Búfalos
Os búfalos, que são o símbolo de Soure, estão no meio das ruas, fazem parte do lugar.

Onde comer
No café da manhã: na pousada O Canto do Francês, tem café, chá de cidreira colhida na hora, frutas e um pão delicioso com queijo marajoara e geleia. Almoço na praia do Pesqueiro: Bar e restaurante dos Guarás. A porção de peixe Dourada é R$ 8. No fim de tarde: com vista para o rio, sentar no Bar e restaurante Trapiche – Segunda Rua com Travessa 14 – e comer sanduíche de queijo marajoara com suco de taperebá. Eles também fazem sorvetes de tapioca, açaí, cupuaçu…

Afrodisíaco
Para testar o turu, o “viagra da Marajó”, que é considerado uma iguaria saborosa pelo chef Alex Atala, vá ao restaurante Delícias de Nalva, na Quarta Rua.

Quando ir
Julho, agosto e setembro, chove todo dia, mas menos, o calor é ameno e não há muitos turistas. Na época das férias de verão as praias ficam lotadas, mas é também quando há maior influência do oceano e as águas ganham tom verde azulado.

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