Pequenas moralidades
Uma tarde de calor levou Adriana Maximiliano a uma livraria independente — e a Maria Martins, escultora brasileira que fez da paixão sua matéria-prima
Maria Martins / Créditos: Divulgação
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Uma onda de calor me fez buscar abrigo na semana passada.
Entrei numa livraria que vem sobrevivendo a crises desde os anos 80. O dono prestigia editoras pequenas e independentes, então encontro ali livros que dificilmente cruzariam meu caminho em outro lugar.
Sempre que entro lá, sinto que devo comprar algo, como se assim ajudasse a manter a livraria de pé.
Dessa vez, comprei “Impossible” (ed. Abbeville Press), do historiador Francis Naumann. O livro é sobre o romance da brasileira Maria Martins com o francês Marcel Duchamp e toda arte que resultou desse encontro.
Fiquei obcecada com Maria.
Ela terminou o primeiro casamento e pagou caro por isso: perdeu a guarda da filha e a própria mãe rompeu relações com ela.
Teve um caso com Benito Mussolini, prestes a se tornar ditador. Mas não julgo. Quem nunca errou ou teve um momento de dedo podre na vida?
Depois se casou de novo com um diplomata brasileiro e viveu em vários países.
Em meados dos anos 40, conheceu Duchamp em Nova York. Viveram um romance movido a desejo e troca intelectual. Apesar dos pedidos do francês, Maria não terminou o segundo casamento, que era aberto.
Mas não foram os romances dela que me prenderam, e sim a energia libidinal de suas obras.
Ao conviver com um mestre zen no Japão, ela entendeu que o apego — ao desejo ou à culpa — é uma fonte inesgotável de sofrimento. Foi ele quem sugeriu que Maria direcionasse sua libido para a criação.
“Faço minha escultura com raiva, amor e paixão, como deveríamos viver se não vivêssemos em uma sociedade de pequenas moralidades e grandes negócios”, escreveu ela.
Essa frase ficou ecoando na minha cabeça.
Maria não era nem tinha uma vida perfeita, mas enxergou perfeitamente uma maneira de viver com autenticidade. Poucos anos antes de morrer, disse: “Apesar de tudo, acho a vida uma beleza.”
E assim me dou conta de que não sou eu quem ajuda a manter a livraria do meu bairro de pé. É justamente o contrário.
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