Tpm

por Jô Hallack
Tpm #137

Os pilares que sustentam uma das estrelas de Amores roubados, a próxima minissérie da Globo

The XX, Haruki Murakami, Zé Miguel Wisnik e, claro, Godot, seu whippet de estimação. São coisas assim que sustentam Patricia Pillar, uma das estrelas de Amores roubados, a próxima minissérie da Globo.

Ela entra na sala de cabelos molhados. Sentamos na confortável sala do apartamento no Jardim Botânico, no Rio, e vamos começar nossa entrevista. Mas seu olhar pousa sobre um livro na mesa de centro. Um livro roído na mesa de centro.

– Godot!

É, ele acaba de destruir mais um. Desta vez foi Antropologia da face gloriosa, de Arthur Omar. “Ele adora esses de arte bem lindos.” Mostra o que aconteceu com um de seus preferidos, sobre ninhos de pássaros brasileiros. “Olha que coisas mais delicadas e inacreditáveis”, diz, enquanto folheia o que sobrou do livro.

Godot é o whippet branco que está desde o começo dessa cena deitado em um sofá da sala observando tudo e fingindo que não tem nada a ver com isso. “Ele é o meu xodó. Muito expressivo, carinhoso, brincalhão. Queria muito ter um cachorro, mas antes viajava muito. Agora minha vida está mais organizada, me senti apta para cuidar de um”, diz. Não leva jeito para dar broncas enérgicas, mas garante que agora – ali naquela casa – é ela quem manda. Quase sempre.

É sexta-feira e no fim da tarde Patricia Pillar vai sair para trabalhar. São as gravações de Amores roubados. A minissérie da Rede Globo estreia em janeiro e é inspirada em um folhetim de Carneiro Vilela publicado no Jornal Pequeno, do Recife, entre 1909 e 1912. “A emparedada da rua nova” foi um sucesso arrebatador, pois os leitores acreditavam que a história era real e que havia, sim, o esqueleto de uma mulher nas paredes de um sobrado. Na adaptação, a trama foi transferida para os dias de hoje e para o interior.

 

"Tenho pensado muito nessa coisa de não acumular. Em buscar um antídoto para essa filosofia de que o mundo tem sempre que crescer."

 

Esqueça a determinada e maldosa Constância, sua personagem de Lado a lado, novela das seis que chegou ao fim no começo deste ano. Agora é a vez de Isabel, uma mulher que não vive sem seus “tarja preta” e que é casada com o dono de uma vinícola (Murilo Benício) na região do rio São Francisco. “Ela tem uma alma de artista, uma sensibilidade. Mas a vida que escolheu, de alguma forma, a aprisiona.” Até que chega à cidade Leandro (Cauã Raymond), e Isabel se apaixona. “Tudo que estava represado dentro dela é destampado. Todo aquele aguaceiro, aquele açude. Se encanta, cai nas garras desse dom-juan pelo lado da poesia, da delicadeza e da sensualidade. É uma coisa radical. Mas, ao mesmo tempo em que ela é tomada completamente por essa espiral de paixão, ele vai refluindo, porque se apaixona – verdadeiramente – por sua filha [Ísis Valverde].”

Grande parte da minissérie foi gravada às margens do rio São Francisco, em Petrolina (Pernambuco) e em Paulo Afonso (Bahia). Patricia diz que o mês e pouco que passou por lá a fez enxergar esse novo interior. “É o sertão contemporâneo, em que o urbano chega rasgando”, explica. Em uma cena? Motos por toda a cidade. “É o interior do contraste da vanguarda da tecnologia versus o canoeiro que vive de pescar. Da falta de perspectiva de um lado e das concessionárias de carros importados do outro.” Diferenças que podem ser vistas na própria natureza. “Onde tem irrigação é verde. Onde não tem é completamente seco. Às vezes, é uma linha muito reta, uma linha que separa o que é investimento do que não é.”

Voltou inspirada. “O povo do Nordeste é deslumbrante. E, de uma certa forma, me sinto nordestina.” Explica que não se trata de genealogia, já que a sua avó é do Ceará. “Falo de um senso de pertencimento. Não foi à toa que fui buscar Waldick”, diz ela. Foi em 2007, quando dirigiu um documentário sobre Waldick Soriano e um show que resultou num CD e num DVD. “Queria falar do sentimento desse povo brasileiro do sertão. E ele é tão simbólico nisso tudo...” Conta que foi por isso que fez questão de colocar no álbum “O moço pobre”. Cantarola. “Um moço pobre como eu não deve amar. E nem tão pouco alimentar sonhos de amor. O mundo é só de quem tem muito pra gastar. Um moço pobre como eu não tem valor...”

Too much pressure

Não perca seu tempo querendo saber dela o que faz para manter a pele ótima com quase 50 anos. Nem se ela anda namorando alguém. É bom conversar com Patricia sobre o Brasil. Pergunto se, depois do fim do casamento de dez anos com Ciro Gomes, não teve naturalmente sentido vontade de se afastar de papos políticos. Que nada. “Na verdade, o casamento foi uma consequência disso. Eu elogiei o trabalho dele e assim a gente se conheceu”, explica. E, depois de ver tudo nos bastidores, o que mais aprendeu? “Eu não acredito em mais nada do que leio.” (Sintam-se à vontade para não acreditar nestas páginas!)

 

"(...) A mulher anda tão fálica. (...) O homem não tem conseguido exercitar sua natureza e, muito menos, a mulher."

 

Gostou de ver os jovens nas ruas em junho. “Por tanto tempo a gente falou que as pessoas não se manifestavam, e por isso foi uma alegria. Vi que havia ali um sentimento represado. E isso renova uma esperança.” Mas fica cansada com a quantidade de bolsas de grife que se proliferam pela cidade. “Tenho pensado muito nessa coisa de não acumular. Em buscar um antídoto para essa filosofia de que o mundo tem sempre que crescer.”

A vida da Patricia – como a de todos nós – funciona melhor com uma trilha sonora. Na véspera, tinha ido ver a banda inglesa de indie pop The XX. E quase morreu de tristeza ao descobrir – durante o papo – que no dia seguinte seria a estreia de Arnaldo Antunes. Já tinha os ingressos comprados, mas iria virar a noite gravando. Recentemente dirigiu o clipe Vergonha, da cantora Marcia Castro. E o seu lugar preferido para ver shows é o Circo Voador. Adora exposições. Tanto que outro dia foi na do Stanley Kubrick – mas quando chegou lá descobriu que ela não tinha começado. Gosta de palestras, como as do Zé Miguel Wisnik. E, assim como o Godot, de livros. Um dos últimos que leu foi Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami. “Eu nunca vou conseguir falar o nome dele direito!”

E, sobre o novo homem – o assunto desta nossa edição –, Patricia o define como “assustado”. “Porque a mulher anda tão fálica. Uma coisa que é forte é a natureza do feminino e a do masculino. E o homem não tem conseguido exercitar sua natureza e, muito menos, a mulher.” Para ela, vivemos uma crise de afetos. “É como se todo mundo andasse com uma roupa apertada demais, que não é sua. E está difícil relaxar e ser quem você realmente é.” É como diz a velha camiseta da banda Selecter que ela própria usa neste ensaio: Too much pressure.

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