por Erika Mader
Tpm #123

Erika Mader, editora convidada, fala sobre as diferentes plateias que todos têm de encarar

Meu trabalho exige que eu esteja no palco. Quando fora dele, sou cercada por câmeras e holofotes. Essa é a minha profissão. Esse é o meu ganha-pão. Mas enganase quem pensa que somente nós, atores, é que gostamos de um palco. Acho até curioso quando ouço alguém dizer que detesta falar para a câmera ou que não entende como eu consigo me apresentar em cima de um palco. A verdade é que o mundo está rodeado de palcos. Uns com tablado de madeira, luzes apontadas e uma plateia em frente, outros disfarçados, travestidos de lugar-comum. Uns até virtuais, com mural, álbum de fotos e páginas de fãs. Um segurança de porta de festa fazendo questão de barrar a celebridade sem convite, um advogado discursando em tribunal, um médico palestrante, um professor ou até mesmo um empresário exibindo a sua incrível apresentação em Power Point para a firma são atores em plena ação. Uns bons, outros nem tanto. Mas todos querem um palco. Todos têm o seu palco, como já nos adiantou Guy Debord, identificando a nossa atual sociedade dos espetáculos. A cultura dos blogs de moda conseguiu transformar até as ruas da cidade em passarelas. Palcos.

As meninas caminham como se desfilassem na semana de alta-costura de Paris. Mas com um estilo carioca-florido-despojado de ser. Uma despretensão. Um desapego. São todas atrizes à procura de um diretor, de um repórter para registrá-las e elevá-las à condição de cool. E elas vão virar referência para outras atrizes que também querem ser cool. E ser cool é um tipo de atriz em alta no mercado de formadores de opinião. E voltamos ao assunto com o qual iniciei esta análise. Como atriz, fico aliviada em saber que o meu palco tem dimensão, não é tão abstrato assim. Sabemos quando a cortina se fecha ou as luzes se apagam. É nesse momento que nos transportamos para novos personagens. De filhas, mães, irmãs, tias, esposas, mulheres e amigas. O que venho observando ultimamente é um grande número de pessoas presas a personagens eternos. Máscaras que nunca caem. Holofotes permanentes. Precisamos conhecer o limite do nosso palco e aproveitar o tempo livre do break. Não há nada melhor do que descansar no intervalo. Respirar. Sem máscara, maquiagem ou figurino. O mais libertador momento. O do não ser.

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