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Oráculo das deusas

Mara Gabrilli: com presas da penitenciária, passo pelo instante mais feliz que já vivi

Oráculo das deusas

Créditos: Adriana Alves


Por Mara Gabrilli TPM #116

em 12 de dezembro de 2011

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Já contei aqui sobre minha primeira palestra em um presídio feminino. Depois daquela, feita às vésperas do Natal de 2010, fiz outras mais e cada uma foi diferente de um modo maravilhoso. Em comum: o dia da palestra é um evento. Elas se arrumam, pintam as unhas, cabelos bem penteados, muitas estão maquiadas. Todas se emocionam – eu inclusive –, muitas choram do começo ao fim, em meio a pensamentos e reflexões que provoco falando de liberdade, de superação, do poder das nossas atitudes e da capacidade de recomeçar.

As mulheres não paravam de gritar, deixando uma atmosfera de insanidade e emergência, uma tensão de algo prestes a explodir. Como o primeiro andar é ligado ao quinto por um vão livre, elas se comunicam como se estivessem lado a lado. Ao passar pelas grades do primeiro portão, as vozes gritando me atingiram por completo e só foram ficando mais e mais intensas ao avançar por novos portões.

Quando entrei carregada na penitenciária feminina Sant’Ana, que fica no que restou do antigo complexo Carandiru, o impacto foi imenso. Ao passar pelos corredores que unem os diversos pavilhões, com pé-direito e janelas altos, me dava a impressão de voltar no tempo, séculos atrás…

Os corredores amplos contrastavam com os pavilhões apertados de muitos andares onde o burburinho ficava mais intenso. São quase 3 mil mulheres ali cumprindo sentença por seus delitos, a maioria, como na primeira ocasião, 1 e 9 – jargão utilizado para a pena por tráfico de drogas. Mas muitas cunhadas com penas de mais de cem anos por chacinas.

Em Sant’Ana fui cobrada com atitude: não adianta vir aqui falar tantas palavras bonitas e ir embora sem olhar pra trás e esquecer da gente… Perguntei o que queriam. A resposta me surpreendeu: mais cuidados com a saúde feminina, exames de colo do útero e da mama.

Pensei na dificuldade em convencer muitas mulheres a fazerem essa prevenção tão importante, passando o ano sem encontrar tempo para um check-up, e elas lá, excluídas do convívio social e pedindo por isso…

Poucas semanas depois, ainda impactada por esse encontro, fui a outra unidade, em São Miguel Paulista, bem menor e com cerca de 200 reeducandas apenas.

Felicidade plena

Depois de minha fala, elas me presentearam com três apresentações: uma musical, outra de dança e no fim uma peça de teatro que representava os arquétipos femininos com sete exemplos retirados da mitologia grega. Por meio de Ártemis, Atenas, Hera, Héstia, Deméter, Perséfone e Afrodite, elas falaram de maternidade, beleza, saúde, coragem, amor, sensualidade, casamento e tantos sentimentos de resgate do feminino que eu queria ficar mais um pouco ali… Pensei naquele momento, dividindo nada menos que afeto com desconhecidas e presas, que passava pelo instante mais feliz que já vivi. Aquelas muitas mulheres tinham, cada uma, um pedacinho de mim… E eu também mostrei, em cada palavra, um pedacinho de cada uma delas. Aquilo tudo parecia um prêmio por merecimento, um programa cultural escolhido a dedo nas férias em lugar estrangeiro.

Em todos os presídios me fizeram uma mesma pergunta: se mesmo tetra é bom namorar. Em meio aos beijos e abraços emocionados daquelas mulheres, descobri que somos todas deusas.
Disso tenho certeza.

 

Mara Gabrilli, 43 anos, é publicitária, psicóloga e deputada federal pelo PSDB. É tetraplégica e fundou a ONG Projeto Próximo Passo (PPP). Seu e-mail: maragabrilli@maragabrilli.com.br

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