por Rita Lisauskas

A ditadura da beleza

Quando eu era adolescente não existia computador nem internet. Nem tv a cabo. Muito menos Photoshop. Mesmo com a informação mais restrita e demorando a chegar eu sentia que existia apenas um padrão de beleza.Tínhamos que ser magras – acho que não tão magras como hoje. E tínhamos que ter cabelos lisos. Lembro também que quem era loira era “mais bonita”. Ou seja, loiras de cabelo liso e magras estavam no topo da cadeia. Qualquer coisa que não fosse isso não era tão legal. Eu era morena. Tinha o cabelo ondulado. E era magra. Não era o que mundo esperava de mim, mas até que ele me deixava em paz porque tinha outras figuras a “perseguir”. As gordinhas e as negras de cabelo crespo, por exemplo.

Acho que as coisas pioraram muito desde a minha adolescência porque antes só existiam uma ou duas revistas para dizer como deveríamos ser. Hoje há dezenas de formas de impor conceitos e padrões. Temos as supermodelos. As celebridades. As “saradas”. E todas estão na TV, nas revistas e nos blogs. Todas devidamente photoshopadas e com filtro, colocando aquela beleza pretendida no patamar do impossível. Como ter uma pele tão linda como a daquela atriz? Impossível, baby, não dá para comprar aquele filtro do Instagram e colocar no espelho do banheiro e nos olhos das pessoas. E ser magra como aquela modelo? Esqueça porque dizem que ela passa fome para ficar daquele jeito.

Mas a internet também trouxe à tona a possibilidade de gritar contra isso bem alto. Mesmo que de forma inicialmente solitária ou ingênua. É o que começaram a fazer a escritora Robin Rice e Lisa Meade, que planejaram e estão executando a campanha “Stop the Beauty Madness”, algo como “Abaixo a ditadura da beleza” – embora a tradução literal do inglês não seja essa. A campanha criou 25 imagens para viralizar nas redes sociais com legendas para fazer pensar. Como na foto de uma menina ainda criança, super produzida, com a tradicional pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”. A resposta, chocante e verdadeira: “Bonita”. Elas expõem o absurdo de cada situação – meninas mais novas que sofrem por não se encaixarem em um padrão ou por se encaixarem perfeitamente na ideia de beleza vigente, o que também pode ser muito opressor.

Na página da campanha – que propõe a hashtag #stopthebeautymadness – as criadoras pedem um novo mundo a partir de agora. Um mundo onde nossa beleza seja definida por nossas qualidades pessoais e não por medidas de quadril e cintura. “Nesse mundo nós saberemos que somos mais que nossa aparência, nossas proporções ou forma física. Nesse mundo estaremos nos livrando do nosso papel de compradoras hipnotizadas e assumindo a função de mudar o mundo.” Elas vão além: “Estamos aqui para criar uma nova cultura da beleza. Estamos aqui para salvarmos nós mesmas e nossos filhos de nossas obsessões infantis”.

Embora ache a campanha incrível, acredito que a mudança tenha de ser interna antes de tudo. Ver gordinhas na passarela não faz com que eu me sinta melhor com o meu corpo. O que me faz bem é ver modelos magérrimas, ou atrizes saradas e perceber que isso não faz sentido para mim. Claro que eu gosto de me sentir bonita e entrar na mesma calça jeans de antes do parto, mas não quero mais gastar duas horas do meu dia com academia, cabeleireiro ou no shopping. Prefiro ler, escrever, brincar com meu filho. E a partir do momento em que minhas prioridades mudaram o que a revista diz sobre beleza não me afeta. Ter tido em casa um pai e uma mãe super “feministas” também ajudou, é claro. Lembro do meu pai dizendo que o estudo era a grande arma de uma mulher e de minha mãe comprando a revista Superinteressante para mim em vez da Capricho.

Uma das coisas mais legais de estar cada vez mais perto dos 40 e mais longe dos 20 é saber separar o joio do trigo. Saber que existem coisas que não são possíveis para mim, que outras não existem e que muitas outras simplesmente não importam.

(Quer saber mais sobre a campanha? Clique aqui: http://ow.ly/zB01j)

(*) Rita Lisauskas é jornalista, mãe do Samuel, madrasta do Lucca e do Raphael e mulher do Sérgio. Não necessariamente nessa ordem. Desde 2013 mantém o blog Ser mãe é padecer na internet, que vai estar quinzenalmente no site da // Fanpage: www.facebook.com/padecernainternet  

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