por Natacha Cortêz

Conheça Alexandra Moraes, autora das tirinhas que tratam da relação mãe e filho com muito humor e sarcasmo

Os percalços da maternidade, as dores e delícias de ser mãe em tempos nos quais a mulher nem sempre quer ou pode se dedicar exclusivamente a esse papel, são parte dos diálogos entre uma galinha e um pintinho no Tumblr O Pintinho. Criados  no Paint - um editor e vetor de imagens super limitado e que permite um resultado "tosco e pixelado" - pela jornalista Alexandra de Moraes, 31, os personagens são os protagonistas de tiras bem humoradas, sarcásticas e um tanto amargas sobre a relação e os questionamentos da própria jornalista com a maternidade. 

Prestes a lançar um livro homônimo do Tumblr, que traz uma coletânea de 80 tiras publicadas nos últimos 3 anos e prefácio do cartunista Arnaldo Branco, a autora conversou com a Tpm sobre o projeto e ainda falou das suas percepções a respeito de ser mãe hoje em dia, das cobranças e julgamentos nos quais a mulher é submetida, e do lado fantasioso que os alimenta.
 

"Esse discurso da 'beleza da maternidade', do amor instantâneo de que é só você ter uma criança e de repente você está cheia de amor pro mundo, não é bem isso. Tem um valor muito pesado na experiência toda de você reconstruir esse amor todos os dias." 

Tpm. Como aconteceu O Pintinho?
Alexandra.
Faz uns 4 anos que fiz a primeira tira. Mas comecei a publicar com mais frequência tem uns 3 anos. Na época, eu tinha pedido demissão e acabado de me separar. Vendi meu apartamento e fiquei um ano por conta da minha vida mesmo. Nesse momento, reuni as tirinhas que já tinha feito e comecei O Pintinho.

Mas antes você já fazia as tirinhas.Há muito tempo eu fazia uns desenhos no Paint, sempre gostei do suporte e do formato que ele oferece, dessa estilo mais tosco mesmo, pixelado. A primeira tirinha, que não tinha a ver com o pintinho, o personagem, era um rabisco de uma mãe. Fui desenhando e a coisa foi acontecendo, mas O Pintinho veio depois do nascimento do Benjamin, meu filho. 

O nascimento dele influenciou a criação das tiras então? Sim. Na verdade, a partir do Benjamin comecei a falar do que eu vivia, e o que eu vivia era ele, era a maternidade.  

E os diálogos no Tumblr são entre você e seu filho, o Benjamin. Nem sempre. Na verdade, às vezes os diálogos destoam da coisa da maternidade. Eu falo sobre tudo alí: música, política, alguma bobagem. Mas, na maior parte do tempo, são suposições minhas do que poderia ser uma conversa com o Benjamim, até porque quando comecei o Tumblr, ele tinha cerca menos de 2 anos, então não podia conversar ainda. E o assustador é que muita coisa que imaginei, muitos diálogos que eram só suposição, acabaram acontecendo depois entre nós dois. Eu tinha imaginado como uma caricatura da realidade, e eles viraram realidade. Eu até pensava: não é possível, será que ele tá lendo o Tumblr? [risos] Mas é como se eu estivesse apresentando a vida pro meu filho, sabe? Nem tudo é cor de rosa, e acho  que algumas tiras dizem isso, e são um pouco amargas, porque o humor às vezes fere também. Então, o personagem alí, o Pintinho, mais do que o meu filho, representa meus questionamentos, minha relação com a maternidade. Como eu lido com o desenvolvimento dela. Acho que os personagens são muito mais: um jovem sonhador e uma velha amarga.

Você acaba expondo nas tirinhas um lado menos explorado, menos   admitido e glamouroso da maternidade.
Sim. Porque né, existe um marketing em torno da beleza da maternidade. É uma questão de consumo mesmo, a publicidade precisa vender o glamour da coisa. Esse discurso da “beleza da maternidade”, do amor instantâneo de que é só você ter uma criança e de repente você está cheia de amor pro mundo. E não é bem isso. Tem um valor muito pesado na experiência toda de você reconstruir esse amor todos os dias, não são só delícias, tem dia que é foda mesmo. Tem dias que você não está bem, tem dias que seu filho não está fácil. 

Então O Pintinho é uma publicação autobiográfica? É. Trato dos meus dilemas com a maternidade e meu dilemas com a própria vida. E claro, o relacionamento com meu filho acabou virando tema pra muitas tiras. 

Você se separou quando seu filho era bebê ainda, ele tinha dois anos, né? A separação influenciou na sua relação com o Benjamin? Criar um filho sozinha é diferente. Você vai construindo a situação de uma outra maneira, e no fim, o centro do relacionamento acaba sendo vocês dois. Claro, eu parei pra pensar: como vou fazer isso? Como vai ser criar ele agora? Não vou dizer que é fácil, nem que é mais tranquilo fazer isso sem a presença constante do pai dele. 

E o nugget? O terceiro personagem. Então, ele é o pai. [risos] Foi assim: minha mãe me criou sozinha, meu pai nos deixou quando eu era ainda muito pequena. Criei o Benjamin também mais sozinha, apesar do pai dele nunca o ter abandonado. Mas era um medo meu, sabe? Por causa do meu pai. E essa figura do pai, como um nugget empanado, mostra que aquele ser está morto. O personagem, digo. Ele foi um frango em algum momento e agora é algo artificial. Então, pensando nessa relação do pai ausente, criei o personagem. Daí tem a galinha, o pintinho e o nugget congelado. Essa coisa de pais ausentes mexe comigo, me irrita. 

E você recebeu mensagens de mães que se identificaram com as tiras, com a questão da relação de mãe e filho e com a questão do pai ausente? Sim. E acho isso muito legal. O fato das mães me procurarem, contarem suas histórias, mostrarem identificação, foi o que mais me surpreendeu. Superou minhas expectativas. O Pintinho sair da internet e ir parar nos cadernos da Folha de São Paulo, virar livro, também me surpreendeu.

Sabendo da sua história, o slogan “mais um filho de mãe brasileira” faz muito sentido. As inspirações vão além da relação com seu filho, elas vêm também da sua criação, da história com o seu pai. Sim, é bem isso. E ao mesmo tempo, eu quero mostrar o outro lado, um lado mais vida real da maternidade. O pior disso tudo é que a faceta fantasiosa dela gera um ciclo de neuroses. Existem muitas mães que piram com a coisa toda, e cobram essas piras de outras mães, do tipo: “você ainda não voltou ao seu peso anterior?”, “como você dá leite em pó pro seu filho?”, “como você não está morrendo de felicidade?”. Cobranças de vida perfeita, de maternidade plena, e que incitam um ciclo de julgamentos sem fim.

Vai lá: opintinho.tumblr.com
Pré venda do livro no site da editora Lote 42, por R$ 29,90: lote42.tanlup.com/livro-o-pintinho

Lançamento do livro e tarde de autógrafos
Quando? 18 de maio, às 16h20
Onde? Rua Bahia, 1282, Higienópolis - São Paulo - SP

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