por Antonia Pellegrino
Tpm #124

Homens e mulheres têm direitos iguais. Para eles, resta correr atrás do prejuízo

 

Eu acho que os homens deveriam ter licença-paternidade.” “Pra ficarem enchendo a cara? Ficarem de férias?” Esse breve diálogo revela duas experiências distintas da maternidade, transformadas por causa do papel do pai. Se mãe é mãe, o pai não é mais o mesmo.

Dizem as babás antigas, donas de ampla sabedoria prática, que na última década passaram a ver muitos pais dividindo as responsabilidades do cuidado da criança com as mães. Esses seriam os “novos pais”, em oposição ao pai tradicional.

O pai tradicional é aquele que divide os custos do bebê com a mãe, mas não divide a responsabilidade – estas são as pobres filhas do feminismo. Durante a gestação, ele segue sua vida normalmente: sai, bebe, volta tarde, acorda de ressaca, reclama que a mulher não é mais a mesma. É comum mulheres com essa experiência cultivarem a fantasia de entrar em trabalho de parto numa noite em que o marido esteja de porre.

Quando a criança nasce, o pai tradicional acha que se der “uma ajuda” para a mãe numa troca de fralda ou numa crise de cólica estará fazendo seu papel. Afinal, é dela 90% da responsabilidade sobre o bebê. Sendo assim, ele chega à noite do trabalho, faz um carinho no filho e vai para o quarto. No máximo dá o banho. Para as mulheres que procriam com pais tradicionais, pelo menos até a criança dizer “papai”, ser mãe é ser sozinha.

Como a mãe precisa ter quatro mãos, as outras a entrar na dança serão as da babá e/ou da avó. E, assim, licença-paternidade pra quê?

Pai para toda obra
Já o novo pai é filho da revolução feminina. Para ele, homens e mulheres têm direitos iguais, mas, na maternidade, a mulher é mais poderosa: é ela quem gesta, pare e amamenta. Resta a ele correr atrás do prejuízo: ser parceiro na gravidez e engravidar também; ir às consultas médicas; fazer cursos de pais; estar ao lado da mulher no parto para cortar o cordão e, logo depois, dar o primeiro banho na criança. Enfim, encarar a paternidade como 50% de responsabilidade dele e 50% de responsabilidade da mãe.

Para o novo pai, trocar a fralda das seis da manhã ilumina o dia. Passar o dia fora de casa é morrer de saudade. Chegar do trabalho e dar banho de chuveiro no filho é sua dose de transcendência diária.

Dizem que as crianças hoje em dia já nascem mais espertas. Coincidência ou não, muitas delas são filhas dos novos pais. Não seria um efeito do olhar do novo pai? Talvez. Ainda não sabemos as consequências desse acréscimo amoroso, mas eu acho sortuda a criança que nasce com um pai disposto a limpar-lhe a bunda com franco sorriso no rosto. Certamente isso há de ter efeito na autoconfiança, na coragem para encarar o mundo e, sobretudo, na capacidade de amar desse futuro adulto que, no seu tempo, tornar-se-á um pai ou mãe ainda mais preparado para cuidar.

 

(*) Antonia Pellegrino, 32 anos, é roteirista e escritora. Seu e-mail: a.pellegrino@terra.com.br

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