por Camila Fremder
Tpm #109

Camila Fremder lança seu livro este mês, mas libera aqui um dos seus textos inéditos

 

Eu, você, a sua mãe, a minha avó, o cara do sétimo andar, a vendedora da loja de cosméticos, o engraxate da esquina, até a sua faxineira crente chamada Glória... Todos eles mentem. Todo mundo mente. Mente por bem, por mal, de propósito, sem querer, por costume, a troco de nada. A gente vive mentindo, inclusive pra gente mesmo. O que tem de errado nisso? Nada. Apenas percebo que às vezes é mais complicado mentir que dizer a verdade...

– Alô, Camila?

– Oi, eu.

– Aqui é a Lucia do consultório do doutor Carlos, tudo bem?

– Oi, Lucia, tudo ótimo, graças a Deus. (Percebam que começo a mentir que sou legal e religiosa.)

– Então, Camila, você não aparece desde março, estou ligando para agendarmos um retorno.

– Ah, sim... claro, o retorno. Viu, Lucia... (tudo que começa com “viu” vem seguido de um absurdo), tô superenrolada esta semana com um curso de Excel avançado. Posso te ligar semana que vem? (Reparem que eu tento fazer com que fique combinado que eu retornarei, mas ela é experiente no assunto.)

– Semana que vem... hummm, temos horário quarta ou sexta.

– É... quarta não dá, é meu rodízio, e tenho análise e drenagem no fim do dia. (Eu nunca fiz drenagem.)

– E sexta?

– Sexta eu viajo à tarde e de manhã tenho uma reunião com a contadora.

– OK, vamos pra outra semana então... Lá pro dia 12, como é que está?

É vergonhoso, é infantil, mas a pessoa para quem eu mais minto no mundo é o meu próprio dentista. Gente, eu nunca tive cárie, já tirei todos aqueles dentes aberrações que não servem pra nada, não tenho o menor medo de dentista. Eu simplesmente não tenho saco de ir até lá e ficar com a boca aberta por 30 minutos, sentindo o cantinho da boca ressecar e escutar a noia absurda que o cara tem com fio dental. Como assim passar fio dental três vezes por dia? Como ele pede isso pra alguém que faz natação, pilates, cerâmica e francês? Sim, estou mentindo de novo!

E tudo bem eu não atendê-lo no celular, ele liga na minha casa e deixa recado com a Sandra, liga no escritório e deixa recado com o estagiário, liga na casa dos meus pais e deixa recado com a minha mãe. Alguém lembra do comercial do “não esqueça a minha Caloi”? Eu tenho post-its do doutor Carlos por toda parte!

 

 

Mais cedo ou mais tarde, ele me vence pelo cansaço e lá estou eu na salinha de espera, sentada na poltrona listrada que combina com o tapete listrado, dando uma espiada na Caras, curtindo a Alpha FM e repassando todas as mentiras. Quem morreu, como foi, onde é o curso, quanto custa a viagem, como foi a retirada das pintas, a batida do carro, a aula de cabala... Estressante.

Até que, quando eu acho que foi tudo bem, ele me diz a tal frase temida: “A sua mãe vem aqui amanhã”. A sua mãe é o tipo de pessoa que pode pôr tudo a perder, ela é aquela que diz sem pensar: “A Camila nunca foi pra Ribeirão”, “Que aula de pilates?”, “A minha Camila tirando pintas?”. Não teve jeito, tive que ligar...

– Alô, mãe?

– Oi, filha.

– O doutor Carlos falou que você vai lá amanhã.

– Vou sim.

– Então, mãe, andei mentindo...

– Ai, filha, de novo?! Você sabe que eu me confundo toda!

– Mãe, presta atenção, não é tão difícil assim... A gente fez um curso de cabala em casa com uma professora que se mudou pra Israel, morreu um tio do papai do coração mês passado e a professora de francês não é boa, pergunta se ele não tem alguma outra pra indicar...

– Só isso?

– Ah, eu fiz um cinzeiro pra você na aula de cerâmica, lindo!

– Camila, não é mais fácil ir ao dentista?

– Não, mãe, eu sou ocupada demais, eu passo fio dental todos os dias.

–Ai, que mentira!


Vai lá: Parece Filme, mas É Vida mesmo..., de Camila Fremder, ed. Prólogo, R$ 40

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