por Luara Calvi Anic

No ano em que completa 90 anos, Nathalia Timberg segue em turnê com a peça em que interpreta Iris Apfel, personagem que carrega a mesma liberdade da atriz

Ao final de uma apresentação da peça Através da Iris, a atriz Nathalia Timberg recebeu as palmas do público e de um amigo que conhece há pelo menos 50 anos, Sérgio Mamberti, 79, seu contemporâneo de profissão. Quando todos já haviam saído do teatro e a luz estava mais baixa, o ator sentou com a amiga em uma poltrona do cenário e eles conversaram sobre o futuro.

Nathalia, que em agosto completa 90 anos, estreia este semestre a novela A Dona do Pedaço, da Globo e, no próximo, a nova temporada da série Sessão de Terapia. E segue apresentando Através da Iris nas principais capitais do país (confira as datas no fim da matéria).

O monólogo, com texto de Cacau Hygino e direção de Maria Maya, é uma espécie de entrevista documental com a decoradora norte-americana Iris Apfel, que se tornou ícone da moda e um exemplo de autenticidade (em 2014, ela foi perfilada em Iris, documentário de Albert Maysles). Na peça, é como se ela respondesse perguntas ao opinar sobre assuntos diversos. Sergio, por sua vez, tem uma lista de estreias e trabalhos tão extensa quanto a da amiga. “Precisamos comemorar que, mesmo na casa dos 80 anos, estamos nos mantendo de pé, o que é um privilégio depois de uma idade. Somos uma referência”, ele diz. “Nós, os antigos?”, rebate Nathalia, em tom debochado.

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A idade, para a carioca, é uma questão sobre a qual ela diz não pensar muito. “Eu não vivo preocupada com isso”, conta, no camarim do Teatro Faap, em São Paulo, onde a peça esteve em cartaz. É que seus 90 anos não parecem ser um motivo para ela fazer mais ou menos. O tempo serviu para maturar o domínio da profissão que escolheu. “É um ofício que é visto como uma arte, mas toda arte tem o ofício para poder existir. Pede dedicação e muita disciplina”, diz.

Nessa toada, Nathalia fez curso de formação para atores na França e, nos anos 1960, estreou montagens históricas como O Pagador de Promessas, com o Teatro Brasileiro de Comédia, do qual fazia parte. Participou de um dos primeiros grandes sucessos da telenovela brasileira, O Direito de Nascer (1964), da TV Tupi, e seguiu atuando no teatro, cinema e televisão ao longo dos últimos 61 anos. Mas nunca quis assinar longos contratos com uma única emissora. Uma das maiores atrizes do país é, na verdade, uma profissional independente. “Eu diria coerente com a minha maneira de pensar”, complementa.

Nathalia foi casada com o escritor Silvan Paezzo (1938-2000), não teve filhos e tem no trabalho, e na sua liberdade, as grandes satisfações. Ela também adora animais, mas depois do falecimento da cadela Tutsi, que a acompanha em duas fotos na carteira, decidiu não arranjar outra para evitar o sofrimento do bicho, caso ela venha a faltar. “A minha vida não tem nada de excepcional, é tranquila e voltada para o trabalho, desde sempre. Até no período em que eu estive casada continuava focada no teatro”, diz. É justamente esse elogio à liberdade que une Nathalia à Iris Apfel. “Ela mistura tudo, não quer saber das imposições da moda. Eu também detesto. Para mim, [a moda] é aquilo que tenho vontade”. A seguir, a atriz divide com a Tpm algumas das vontades que a fizeram se movimentar ao longo da vida.

Tpm. O que Iris Apfel tem de universal para ter uma peça no Brasil?
Nathalia Timberg. 
O que surpreende as pessoas é que, aos 97 anos, ela é absolutamente contemporânea, antenada, ao mesmo tempo em que é bastante conservadora. Tem uma visão crítica do mundo atual, fala das pessoas alienadas e ligadas a essa porcaria de celular – todo mundo anda com aquilo, as pessoas não se desligam mais desse aparelho.

E a senhora concorda com ela?
Eu não vivo com isso grudado em mim. Tenho uma relação bastante conflituosa com meu celular porque brigo com ele direto. Já fiz uma limpeza, mas ele faz o que quer, interfere, desliga, entra em páginas que não deveria. Vejo e-mail de vez em quando, tenho mais o que fazer. Sou muito ocupada, não posso ficar vendo as besteiras que mandam. Não tenho rede social nenhuma porque acho um horror. É tudo muito superficial, as pessoas estão com uma formação muito precária.

Como anda o público de teatro na sua opinião?
Há muito tempo o Brasil está com uma plateia malformada. Não é interessante ao poder público uma massa com um discernimento real. Estamos apostando no abandono da cultura e em uma ignorância especializada. E, do momento em que se abandona o interesse pela cultura universal, acabamos com um público muito limitado em seus interesses. Temos um contingente significativo da nova geração que não entende a nossa língua. Você não acha isso assustador? É fruto de uma formação sucateada e de tecnologia mal usada. Elas param de ler, não entendem mais o vocabulário e falam errado.

A senhora está interpretando um ícone fashion. Tem algum interesse em moda?
Não. Sou formada em belas artes, para mim a estética interessa, mas não gosto de nada imposto, desde sempre. O grande ponto em comum que eu posso ter com a Iris, uma personalidade tão diferente da minha, é a liberdade dela em todos os sentidos. Ela não quer saber de imposições da moda. Eu também detesto isso, para mim [moda] é aquilo que tenho vontade.

Como uma mulher nascida em 1929, a senhora seguiu um caminho diferente do padrão, não teve filhos, estudou fora.
Acho que não há necessidade de seguir modelos. Temos capacidade de andar no nosso próprio tempo e ter as nossas prioridades. Não gosto que estabeleçam minha maneira de pensar, de falar, tampouco a de viver.

Em algum momento da vida a senhora se arrependeu de não ter tido filhos?
Nunca parei para pensar sobre isso, não acho que o mundo está tão convidativo para botar uma criança nele. As pessoas estão fixadas em fórmulas, elas buscam isso.

Quando, no dia a dia, a senhora se dá conta de que é quase nonagenária?
Ainda tenho muita coisa para estudar para ficar pensando em quantos anos eu tenho e também se vai dar tempo, eu não quero saber. Quando chegar, chegou. Agora, é claro que você tem um desgaste do corpo. Os meus 20 anos já ficaram para trás e não tenho a mesmas respostas, mas aqui [apontando para a cabeça] continua igual.

As pessoas tem uma ideia estereotipada dessa fase da vida?
Sim. É engraçado porque continuam presas a leituras que não correspondem à nossa época. As pessoas se cuidam mais e, hoje em dia, alguém de 60 anos está no meio da vida. Antigamente, com essa idade você já ficava guardada em casa. A medicina não tinha se desenvolvido tanto em relação às doenças que nos assolavam. A mulher quase sempre morria no parto, não havia a percepção que se tem hoje em relação à saúde. Mas ainda existe essa terceira idade na cabeça de muitos. A minha cabeça acompanha o mundo em que vivo.

Você realmente sempre esteve envolvida em muitos projetos, ao mesmo tempo.
Sim. Estou aqui fazendo a peça e já tenho um plano de dois espetáculos adiante. Faço 80 mil coisas ao mesmo tempo. Adoro tudo o que há de interessante nesta época – o que é interessante, porque tem muita coisa para jogar fora.

A senhora está na nova temporada de Sessão de Terapia, dirigida pelo Selton Mello. Já fez terapia?
Nunca. Meu trabalho é bastante sobre perceber os personagens e a me perceber também. O ator vai até mais longe do que o psicanalista porque, enquanto esse vai entender o funcionamento mental do outro, o ator o entende de dentro. Denis Diderot [filósofo e escritor francês do século 18] dizia que o ator já é uma personalidade dividida. Então, você começa a poder se observar um pouco de fora. Muitas vezes, tenho uma visão crítica do que falo e faço e isso me faz crescer. Se você desenvolve uma abertura em relação ao entendimento do outro e às fraquezas humanas, o conhecimento sobre elas leva você a se trabalhar, a usar isso em causa própria.   

Vi que a senhora carrega fotos dos seus cachorros na carteira.
Sim, adoro bichos. Já tive cachorros, mas agora já chega. A Tutsi durou 15 anos e, quando minha mãe morreu, ela arrancava os próprios pelos porque sentia falta. Então, a esta altura eu não quero um bicho que se apegue dessa forma e sofra assim. E não é só para eu ter prazer de uma convivência incrível, é uma troca, o animal investe muito. É uma maldade a dor que um bicho desses sente com a sua perda.

Você acredita em Deus?
Depende do que você chama de Deus. Esse ser limitado, egoísta, injusto, não. Tenho uma visão de estar inserida em uma coisa incrível da qual faço parte. Tenho a sensação de mínimo e máximo, de micro e macro, dentro de uma coisa universal. É uma energia muito maior do que aquela que nós queremos limitar a essa criatura, a esse Deus que o homem criou à sua imagem e semelhança.

Por que você nunca quis fechar contrato com uma emissora?
Desde pequena diziam que eu era muito contestadora. É que eu sempre procurei entender, aquela coisa do “é assim porque é assim” não funciona comigo. Ideias que não possam ser discutidas e analisadas não me servem, imposições também não. Ser livre é muito mais difícil, você assume as suas responsabilidades. Tem um poema do Fernando Pessoa cujo deslanche é o meu modo de vida: "Aconteceu-me do alto do infinito esta vida". Então, já que a vida me aconteceu eu procuro fazer dela o melhor que eu posso.   

Você então diria que tem uma vida independente?
Eu diria coerente com a minha maneira de pensar. Minha vida não segue um padrão, uma fórmula estabelecida. Vou descobrindo o mundo da mesma maneira que vou descobrindo a minha vida – ao vivê-la. Acho que talvez eu tenha enveredado pelo teatro porque ele me permitiu assumir vidas que não as minhas, observar o ser humano com características diferentes das minhas. Sejam elas aprovadas ou não. É muito rico e instigante.

Você trabalha quase todo o tempo. Incomoda quando criticam quem trabalha demais?
Eu gosto de trabalhar, sou workaholic e tudo bem. Não me sinto privada, abro mão das coisas por causa do meu trabalho numa boa. Você já pensou nessa coisa incrível que foram os universos que já percorri? Já estive fora, estudei, mas tudo foi para me armar e fazer isso que desde sempre eu quis na minha vida. Existem as regras de um caminho que pede um determinado tipo de domínio, uma disciplina necessária para fazer o que eu faço. Ao assumir essa minha escolha, eu assumo tudo o que vem com ela, que é me condicionar, da melhor maneira possível, a exercer esse ofício.

Um ofício que demanda muita pesquisa.
Sim, um ofício que é visto como uma arte, mas toda arte tem o seu ofício, o trabalho para poder existir. Dedicação, muita disciplina. Para poder transmitir alguma coisa você precisa tentar entendê-la. Por isso que assumir determinados personagens é uma dificuldade muito grande, porque há coisas dentro dele que você repudia, mas você tem que passar por ali. É a mesma coisa que morrer e renascer todo dia diante dessa vida proposta. Há um pacto, o público se propõe a acreditar nessa situação, nessa vida que você vai contar. E quando isso acontece, acontece o momento do teatro, que é esse casamento.

E você percebe quando o público não está disposto?
Percebo. Às vezes, você tem uma barreira. Gosto muito de falar da qualidade do silêncio. Quantas vezes me aconteceu de agradecer a qualidade do silêncio da plateia. É uma coisa palpável. É uma comunicação, é uma energia que se estabelece, é um casamento. É quase um ato de amor.

Vai lá:
Através da Iris
- Vitória (ES)
29, 30 e 31 de março, Teatro Universitário - UFES
- Belo Horizonte (MG)
13 e 14 de abril, Teatro Sesiminas
- Goiânia (GO)
27 e 28 de abril, Teatro Sesi
- Campinas (SP)
11 e 12 de maio, Teatro Iguatemi

Créditos

Imagem principal: Luara Calvi Anic

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