por Andrea Dip
Tpm #156

A jornalista Nana Queiroz passou cinco anos entrando em presídios femininos do Brasil e traçou um retrato das presas no recém-lançado livro Presos que menstruam

A jornalista Nana Queiroz passou cinco anos entrando em presídios femininos de todo o Brasil e traçou um retrato das mulheres presas no recém-lançado Presas que menstruam. Das precárias instalações às denúncias de tortura, ela fala o que viu por trás das grades

Tpm. Como surgiu a ideia do livro? Nana Queiroz. Em 2010, conheci uma carcereira e ela me contou histórias impressionantes. Comecei a pesquisar e percebi que o sistema carcerário feminino não é composto de monstros. São pessoas como a gente, que, diante de situações difíceis, tomaram decisões que a lei considerou inadequadas.

Qual foi o pior presídio em que você entrou? O de Ananindeua, no Pará. O presídio é superlotado, o prédio é velho e úmido, cheio de bolor. Tinham 30 mulheres em uma cela em que cabiam dez. Os canos tinham estourado, então você dava descarga e o cocô e o xixi saíam do outro lado da cela. Uma mulher dizia: “Estou com febre há três dias, estou sangrando porque estava grávida, mas perdi meu bebê. Ninguém fez curetagem. Tenho certeza de que meu filho está apodrecendo na minha barriga”.

E pela lei a mulher grávida pode ficar em prisão domiciliar. Pois é. Entre as presas, de 6% a 8% cometeram crime contra a pessoa. Ou seja: mais de 90% não são consideradas “perigosas”. Muitas poderiam cumprir penas alternativas ou domiciliares, em regime semiaberto ou ainda fazer trabalhos voluntários. A maioria das grávidas que vi está presa por tráfico. E não porque elas matam gente para o tráfico. Elas são a ponta. Mulheres vítimas de violência doméstica, em geral negras ou pardas, sem ensino médio, de famílias monoparentais, abandonadas pelo marido, que têm dificuldades financeiras e procuram o tráfico como complemento de renda.

Este é o retrato da mulher presa no Brasil? A grande maioria. E as que não estão presas por tráfico, estão por roubo, furto. Todos funcionam como complemento de renda. Um estudo feito em Porto Alegre mostrou que 40% das mulheres presas na cidade entraram para o crime por conta da violência doméstica. Ou o marido bateu e obrigou, ou ela fugiu de casa porque o marido batia e, por não conseguir sustentar os filhos, começou a traficar ou a roubar.

Você testemunhou o abandono das presas que não recebem visitas? Sim, muito. O machismo permeia a realidade da mulher em todos os aspectos, inclusive na criminalidade. Quando a mulher vai presa, o homem visita uma ou duas vezes e ainda diz: “eu visito e não dá pra transar toda vez, se eu for transar tenho que passar por aquela revista íntima. Não vou mais”. Ele arruma outra e vai embora.

Como funcionam as relações entre as presas e as carcereiras? A lei manda que em presídio feminino só trabalhem carcereiras mulheres e essa lei não é cumprida. Aí você quer um travesseiro melhor? Vai lá e transa com um carcereiro. Por um cigarro eles conseguem sexo, tamanha é a precariedade das condições. Elas usam miolo de pão como absorvente interno. O papel higiênico acaba na metade do mês e elas têm que sair caçando jornal velho. Aí esses itens de higiene viram moeda de troca. E quem recebe visita de parentes ganha poder dentro do presídio. Mas o que eu acho mais curioso do presídio feminino é que quase não tem facção criminosa.

Por quê? Desde pequenas as mulheres são criadas para competir. Isso quem diz é Simone de Beauvoir. Ela tem uma tese de que essa é uma maneira de os homens manterem as mulheres afastadas entre si para não se organizarem contra a dominação masculina. Dividir para conquistar. Na cadeia, isso é real porque elas não conseguem se juntar em grandes grupos para fazer rebelião. Se você olhar o Infopen, o número de rebeliões femininas é muito menor do que de masculinas.

Créditos

Imagem principal: A liberdade de olhar/ UNODC

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