por Giuliana Vallone
Tpm #144

O inesquecível 17 de junho da jornalista Giuliana Vallone

Em junho do ano passado, a jornalista Giuliana Vallone, do jornal Folha de S. Paulo, levou um tiro de bala de borracha e quase perdeu o olho. Aqui, ela conta por que dia 17 de junho nunca mais será o mesmo

O dia 17 de junho sempre foi importante para mim. É o dia em que eu nasci. Mas o aniversário de 2013 é, sem dúvida, o que carrega mais significado. Nesse dia no ano passado fui participar do programa Roda viva, na TV Cultura, enquanto milhares de pessoas tomavam as ruas de São Paulo. Quatro dias antes, eu havia sido atingida por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar no meu olho direito. Por pouco não fiquei cega.

Àquela altura, estava no olho de um furacão que ninguém sabia explicar direito. Suspeito que até hoje muita gente tenha dificuldade para dizer o que significou junho de 2013. Posso dizer que eu tenho.

As manifestações de junho do ano passado tiraram a cidade (e o país) da rotina. Ver a avenida Paulista pegando fogo, literalmente, não era algo a que estávamos acostumados. Todos foram chamados a pensar em como se posicionavam politicamente em suas vidas. Sou de esquerda ou sou de direita? Apoio ou não os Black Blocs? Como avalio os governantes que elegi? Para mim, essa é a maior herança de 2013. O debate ficou mais politizado – para o bem e para o mal. Não houve no passado recente tanta gente discutindo política, criticando ou exaltando governos, figuras públicas, como há hoje. Esse “Fla-Flu” em que vivemos agora é consequência direta desse processo.

O ano passado foi um esquenta para o que vivemos hoje. Há quem goste de dizer que o “gigante acordou, mas voltou a dormir”. Na minha opinião, não é verdade. Muita gente que estava na luta continua nela. Claro, muitas se empolgaram naquele momento e largaram tudo pouco depois. Mas o número de pes­soas nas ruas não é a única forma de medir se os protestos surtiram efeito.

A Copa é uma maneira interessante de celebrar o aniversário de um ano das manifestações. Novamente, estamos fora da rotina a que nos acostumamos, mas de um jeito diferente de antes. Torço pela seleção brasileira, claro. No dia 17 de junho, torci por um gol contra o México até o último minuto, como a maioria das pessoas que conheço. Mas, quando o jogo acabou, fui entrevistar o Sérgio Silva, fotógrafo que, como eu, foi atingido por uma bala de borracha no olho no dia 13 de junho de 2013. Diferentemente de mim, o Sérgio ficou cego. Como eu, ele carrega as marcas emocionais da agressão. Mas também leva uma prótese ocular.

Teve Copa, continuo torcendo pelo Brasil como sempre. Mas a vida não é mais a mesma.

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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