por Milly Lacombe
Tpm #167

Eu fui. Não pelos mortos, mas pelos vivos e pelas pequenas delicadezas que dão sentido à vida

Na manhã do aniversário do 16º ano de morte de meu pai acordo cedo com uma mensagem de WhatsApp de minha mãe, de 79 anos, que, no grupo da família, escreveu: "Hoje às 18 horas missa para o pai de vocês na Igreja da Lorena". Uma pequena raiva me subiu pela espinha. Primeiro, por causa do aviso de última hora. Para ir à missa, eu teria que desmarcar uma reunião e reorganizar todo o meu dia. Respirei fundo e pensei que esse tipo de cotidianice não poderia ser maior do que a morte e deixei o pensamento ir embora. Em seguida me ocorreu o óbvio: não somos religiosos, minha mãe nunca teve apego a igrejas ou a padres, não acredita em vida após a morte, não gosta sequer de papos espirituais. Para deixar tudo mais estranho, meu pai era altamente crítico a religiões organizadas e tinha muitas dúvidas sobre nossa transcendência. Peguei o celular e respondi no grupo da família:

"Missa? Com padre? Dio… Eu vou, mas você sabe muito bem que o papai não iria."

Ela respondeu em segundos:

"Lógico que iria."

"Mãe! Quando era vivo ele nunca foi. Só se começou a frequentar depois de morto..."

"Engraçadinha", ela escreveu.

Decidi continuar:

"Deixo claro desde já que quando eu morrer não adianta fazer missa porque
eu não vou."

"Não brinca", ela respondeu.

"Mãe, não sei como dizer isso, mas eu vou morrer, certeza."

"Sei disso, mas só depois de mim."

"Ok. Combinado", respondi.

O papo acabou por aí, eu levantei para minha rotina matinal: ioga e meditação.
Embora não sejamos praticantes religiosos, minhas irmãs e eu acreditamos que existe alguma coisa além disso que podemos ver e tocar. Minha mãe e meu irmão, que é médico, são mais céticos e preferem esperar. Ainda assim, minha mãe decidiu agendar uma missa em nome do 16º aniversário de morte de meu pai.

Às 6 em ponto minhas irmãs e eu chegamos à igreja. Minha mãe já estava lá sentadinha em um dos bancos.

"Por que você marcou missa se você não acredita que a gente continua?",  perguntei depois de beijá-la e sentar a seu lado.

"Ué. Por via das dúvidas", ela disse.

"Você vai querer que a gente faça missas para você depois que você morrer?"

"Claro."

"Não entendo", murmurei.

"Vai que quando eu estiver lá em cima isso faça alguma diferença. Melhor pedir a missa do que me deixar lá em cima jogada à sorte."

"Lá em cima? Você anda otimista."

O padre começou a falar e nós tivemos que ficar quietas. Minha mãe pegou o folheto que estava no banco quando chegamos e começou a ler. Ela suava em bicas porque sempre acha os ambientes todos muito quentes e suar é seu estado natural, e ficava me dizendo baixinho que não conseguia achar a parte certa no folheto para acompanhar o discurso do padre. Eu falei que tanto fazia, que era bom ela rezar para a missa acabar logo porque eu estava ficando com fome, e ela riu. Minhas irmãs, por outro lado, pareciam compenetradas e repetiam o que o padre pedia. Minha mãe então me pediu para ajudá-la a tirar o casaquinho, e eu a ajudei porque a artrite a impede de realizar muitos movimentos. Enquanto tirava o casaco com cuidado para que ela não sentisse dor, imaginei quantas vezes ela já tinha feito a mesma coisa comigo quando eu era pequena.

A vida é curiosa; nem sempre a gente se dá conta dessa inversão de papéis e deixa que momentos como esses passem sem emocionar, quando talvez tudo o que importe deste lado de cá seja justamente a gente não ter medo de se entregar à capacidade de sentir as coisas mais simples tão fundo quanto possível. Não me parece que estejamos fazendo isso: ocupados em passar pela vida cuidando de coisas menos importantes, como posses e contas e todo o tipo de acúmulo, já não nos permitimos mergulhar em sensações e emoções. A crise pela qual estamos passando é uma crise de falta de estesia, que é a capacidade de compreender as sensações causadas pela percepção do belo – e essa inversão de papéis que o cotidiano tão delicadamente revela carrega em si uma enorme beleza.

Estávamos na missa de meu pai, o padre falava de vida e de morte como se uma fosse o contrário da outra e eu me lembrei de um certo João Torto que uma vez escreveu alguma coisa assim: "É estranho achar que morte é o contrário da vida. Morte não é o contrário da vida, morte é o contrário do nascimento; a vida não tem contrário".

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Olhei para o lado e vi minha mãe, já sem o casaquinho que eu agora segurava para ela, tentando prestar atenção no que dizia o padre, mas era evidente que ela estava tão entediada quanto eu, ainda que evitasse reclamar. De repente o padre começou a falar o nome das pessoas para as quais aquela missa era dedicada e, além do nome do meu pai, falou o nome de minha avó. Minhas irmãs e eu nos olhamos sem entender. 

"Mãe, você meteu a nonna na missa do papai?", perguntei.

"Ué. Já que dei uma contribuição para a missa achei melhor aproveitar."

"Devia ter colocado o nome do Stephan então", eu disse me referindo ao marido da melhor amiga dela que morreu há pouco.

"Deixa de ser boba, ele era judeu."

Quando a missa acabou, eu perguntei se ela queria ir jantar e ela disse que sim. Minhas irmãs tinham compromissos, então fui com minha mãe para a casa dela, onde abrimos um vinho, tiramos um parmesão italiano da geladeira sobre o qual colocamos um pouco de mel, sentamos à mesa da cozinha e brindamos a meu pai, com quem minha mãe viveu por 34 anos.

"Eu sei por que você foi à missa", ela disse depois de dar um gole no vinho.

"Por quê?", perguntei curiosa.

"Para ter alguma coisa sobre a qual escrever."

Eu ri porque estou mesmo sempre atrás de alguma coisa sobre a qual escrever, mas a verdade é que fui à missa por um motivo mais nobre, que diz respeito aos vivos, e não aos mortos, e que, por isso, não envolvia meu pai. Eu fui à missa por causa dela.

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