Milly Lacombe: Os descontrolados

por Milly Lacombe

Quando o descontrole coletivo toma conta, talvez tenhamos alcançado aquele instante em que mais um passo em direção ao que parecia impossível é o que vai nos libertar

Temos andado por aí incendiando prédios, degolando estátuas, queimando ônibus. Não pode estar certo isso. Quem apoia depredações está sem juízo. A vida é injusta, mas sair quebrando coisas não vai resolver nada. Onde já se viu tacar fogo em um prédio e achar que isso se justifica? E as estátuas de tiranos arrancadas de seus púlpitos seculares, jogadas em rios, para sempre perdidas? Veículos da polícia depredados, ônibus reduzidos a pó, vidraças vandalizadas. Estamos em descontrole, surtadas e surtados.

Por que tanta raiva justo agora que deveríamos ficar em casa? Precisa? Vamos relaxar e refletir. Eu sugiro que a reflexão seja feita por oito minutos e 46 segundos. Esse foi o tempo em que o joelho do policial assassino ficou sobre o pescoço de George Floyd enquanto ele gemia que não podia respirar e, desesperado, chamava por sua mãe, que já tinha morrido – um dilacerante detalhe de justiça nessa tragédia porque eu, que não sou mãe, posso apenas imaginar o que sentiria uma mãe vendo o filho ser assassinado de forma tão covarde, tão cruel, tão lenta e tão pública.

A vida é brutal. Mesmo sem pandemia ou sem injustiça social. A vida é brutal porque é absurda. É absolutamente devastador saber que vamos morrer. De corona, de coronhada, de bala, de infarto, de angústia, de atropelamento, de câncer, de causas naturais. É devastadora essa consciência. Não há como lidar com o absurdo. A única saída aceitável seria o suicídio. Acabar logo com aquilo que, como sugeriu Schopenhauer, nem deveria ter sido, nem deveria ter começado. Viver, para quê? Ainda mais diante de tanta injustiça, de tanta miséria, de tantos sufocamentos, de tantos joelhos em nossos pescoços, de tantos estrangulamentos, de tantos com nada e de tão poucos com tanto.

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Vidas que merecem viver, vidas que podem morrer. Vidas que são nome e sobrenome, vidas que são números. Vidas visíveis e vidas invisíveis. Bilionários que tentam fazer com que a gente acredite que se transformaram em bilionários porque são geniais, inteligentes, diferentes de todos, e não porque herdaram, ou exploraram, ou sonegaram, ou evadiram. Miseráveis que são levados a acreditar que são miseráveis porque são incapazes, fracos, comuns demais para se destacar, e não porque nasceram sem oportunidades, sem acesso à educação ou à saúde, parados pela polícia a cada passo que dão, tentados pela milícia a cada respiração. A naturalização da mais absoluta desigualdade, da maior acumulação de riqueza que já se viu, da crença coletiva de que esse sistema não é mesmo muito bom, mas é o melhor que já existiu e que, portanto, temos que aceitar que assim é porque sempre haverá desigualdade. Diante de uma realidade que parece imutável e ungida por Deus, por que seguir? Quando o descontrole coletivo toma conta é porque talvez tenhamos mesmo que desistir.

Ou talvez porque tenhamos alcançado aquele instante em que mais um passo em direção ao que parecia impossível é o que vai nos libertar. Mais um descontrole. Mais uma estátua degolada. Mais um prédio incendiado. Mais um veículo de instituição violenta e racista depredado. Mais um surto. A única alternativa ao suicídio, a única coisa capaz de não nos fazer desistir: a revolta, o transe, a dança maluca do eu coletivo descontrolado em nome de um mundo menos injusto, em nome do sonho de poder transformar o modo como vivemos hoje. De que outra forma podem se fazer visíveis aqueles que a sociedade não consegue ver, aqueles cujas dores diárias não alcançam o noticiário, aqueles cujos gritos pelos filhos assassinados não são escutados? Destruindo o único elemento que sociedades racistas e patriarcais baseadas no lucro e no consumo são capazes de enxergar: coisas, propriedades, mercadorias.

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Seria descontrole perder o controle diante de uma sociedade organizada de forma incontrolável? Racismo, machismo, lgbtfobia e opressões, o pesado porrete das instituições nas costas exaustas do trabalhador. Uma polícia formada para manter a ordem oligárquica. Para deixar tudo no lugar. Para fazer com que o progresso nos guie. O progresso do homem branco e de suas corporações. Do homem branco e de seu capital. Do homem branco e de sua ganância. O progresso de seguir furando o solo em busca de recursos finitos cuja finitude nos destruirá a todos. O progresso do acúmulo de riqueza. Da fabricação industrial de alimentos à custa da exploração sanguinária e inominável de aves, gado, peixes. À custa da destruição de florestas. Progresso via consumo, via mercadorias, via construção de shopping centers cada vez maiores e mais luxuosos, de condomínios exclusivos, do cercamento de praias particulares, de fazendas que têm o tamanho de nações, de muros que têm a extensão de mares. Que progresso é esse? Para quem? Em nome do quê? 

Seria descontrole perder o controle diante dessa realidade? Ou descontrole seria aceitar passivamente o absurdo que essa realidade escancara? Não seria o verdadeiro descontrole ficar em casa depois de saber que a polícia executou um menino de 13 anos que brincava com os primos no quintal? Não seria descontrole cruzar os braços depois de ver as imagens do joelho do policial no pescoço de Floyd por oito minutos e 46 segundos? Não seria descontrole reagir passivamente à execução covarde de nossa melhor parlamentar em décadas? Não seria o maior dos descontroles aceitar a política genocida levada a cabo pelo presidente e por seu mais badalado ministro, assistindo sem reagir a morte daqueles que amamos? As coisas estão péssimas, mas violência não resolve nada. Vejam o exemplo de Gandhi, dr. King, Mandela, dizem muitos. E existe aí um bom campo para reflexão, sem dúvida. Mas se o trabalho indubitavelmente lindo e inspirador desses líderes tivesse resolvido as questões não haveria a necessidade de um texto como esse, não haveria a execução de João Pedro ou de George Floyd.

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Não se trata aqui de defender o uso da violência, mas de encorajar a pergunta: o que é violência? Violência é degolar a estátua de um tirano e incendiar um prédio de concreto dentro do qual o racismo se reproduz diariamente, ou violência é um sistema que nos separa em raças, confina alguns à margem, perpetua opressões e se desdobra através de repressões? Violência é ir às ruas berrar raivosamente que muitos de nós morrerão por causa de um vírus se não houver planejamento econômico e de saúde pública específicos, ou violência é um homem fardado entrar na casa de um garoto que brincava no quintal e disparar mais de 50 tiros? Uma granada de flores infelizmente não fará nascer um jardim, como pode sugerir a arte de Banksy.

Não se alcança a liberdade pacificamente, repetia Malcolm X. Qualquer um que impeça a nossa liberdade não merece que reajamos pacificamente à violência desse gesto. Não foi pacificamente que a Revolução Francesa aconteceu. Não foi pacificamente que os norte-americanos se livraram da colonização inglesa. Não foi pacificamente que trabalhadores conseguiram reduzir a jornada de trabalho, exigir segurança. Não foi pacificamente que mulheres conquistaram o direito ao voto, ao divórcio. Não foi pela bondosa canetada de uma mulher que a escravidão acabou. Não existe reação pacífica possível diante da opressão. Não há na história registro de que alguém passou a ser livre depois de dialogar pacificamente com o senhorio, com o proprietário, com o patronato.

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O grande problema é que, assim que o oprimido se vê como tal, ele automaticamente vai passar a lutar por sua liberdade. Por isso é importante que o oprimido não se veja como oprimido. Que o oprimido acredite que, se ele acordar cedo, trabalhar muito, for honesto e não quebrar nenhuma vidraça, vai alcançar a liberdade. Que o oprimido acredite que durante uma pandemia alguns vão mesmo morrer e nada pode ser feito para mudar essa realidade, e que por isso o importante é que ele siga trabalhando para não morrer de fome. Que o oprimido não faça a associação entre o lucro imoral dos bancos e a ameaça que agora é ainda maior de ele não conseguir colocar comida na mesa se parar de trabalhar.

Que ele pense ser impossível que o absurdo acúmulo de riqueza possa ser usado na construção de um fundo para financiar que ele não precise sair de casa a menos que exerça uma profissão essencial. Que ele internalize a noção de que vidas podem ser perdidas, mas a economia não pode parar. Que ele se sinta responsável por sua própria proteção porque liberdade é não ter o estado se metendo na sua vida. Para manter as coisas em seu lugar, o sistema escolhe gerentes, que são oprimidos que jamais se entenderão pelo que são e seguirão fazendo o trabalho que deles se espera: o do controle da ordem.

Mas àqueles que enxergam que estamos sendo empurrados para o abismo só resta o descontrole. O surto. O berro. Demonstrações de que não vamos aceitar passivamente. Demonstrações de que estamos vivos e atentos. Vivos e reagindo. Vivos e esperneando. Não seremos derrotados pacificamente. Não é essa a história que vamos escrever. Podemos até perder, mas vamos perder tirando monumentos opressores de seus pedestais, queimando catedrais de racismo, dando as mãos em meio a uma pandemia para gritar que não aturaremos mais machismos e machistas, racismos e racistas, lgbtfóficos e lgbtfobia e toda a estrutura de poder e de manipulação que vem com essas violências sistêmicas.

“Transformar o momento suicidário em momento revoltoso”, escreveu a filósofa Camila Jourdan em texto para o site da N-1. Pegar uma situação que justificaria que desistíssemos de tudo e transformar ela em ira, transe, catarse. É o que estamos fazendo. Com a benção dos que vieram antes e mostraram que sem revolta não há dignidade, não há sonho, não há futuro. Prédios e veículos podem ser reconstruídos; existências e o sorriso daqueles que amamos não.

Créditos

Imagem principal: @rodrigo_yokota

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