por Nathalia Zaccaro

Protagonista do épico Entre Irmãs, novo longa de Breno Silveira, a atriz deu vida a uma independente e sensata nordestina dos anos 20 que teria muito a dizer no Brasil de hoje

A personagem de Marjorie Estiano no longa Entre Irmãs, que estreia no próximo dia 12, exibe muito do que sentimos falta em tempos de intolerância: escuta. Quando Emília, vivida pela atriz, troca o sertão pernambucano dos anos 20 pela capital, Recife, ela logo percebe que cangaceiros são vistos como bandidos e têm suas mortes desejadas, gays são considerados doentes e mulheres não devem extrapolar os limites domésticos. Emília consegue enxergar humanidade onde a sociedade impõe estereótipos, dialoga com quem a cerca e tira suas próprias conclusões a respeito de tudo.

A sociedade nordestina do início do século fala muito mais sobre o Brasil de 2017 do que Marjorie poderia imaginar quando topou o papel. “Estamos vivendo um retrocesso em diversos departamentos, não sei a que se deve essa falta de interesse pelo universo alheio, mas acredito que temos que passar por isso para alcançar uma evolução”, explica.

Em certo momento do roteiro, Emília tenta entender a homossexualidade de um dos personagens, que é duramente julgado pela família. “Me surpreendeu muito que a cura gay tenha voltado a ser assunto agora, na época do lançamento do filme. É inacreditável”, diz.

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Protagonizado por Marjorie ao lado de Nanda Costa, que interpreta Luzia, irmã de Emília que opta por seguir um violento grupo de cangaceiros, Entre Irmãs foi dirigido por Breno Silveira, de 2 Filhos de Francisco, e inspirado no livro A Costureira e o Cangaceiro, publicado em 2009 por Frances de Pontes Peebles, pernambucana radicada nos Estados Unidos.

Marjorie contou para Tpm o que leva de Emília e também de Carolina, sua personagem na série médica Sob Pressão, sucesso de público e crítica da TV Globo.

A Emília é uma personagem muito forte. O que você absorveu dela durante o processo? Ela é uma mistura linda de força e delicadeza, uma menina que vem do sertão de Pernambuco e que sonha, é curiosa. Através das experiências que vai vivendo, aprende a distinguir o que é idealização do que é realidade. Os sonhos delas amadurecem junto com ela. Emília ouve, absorve e sabe separar o que faz sentido do que não faz. É uma maturidade que muita gente não alcança nunca, eu busco muito isso. É um tipo de inteligência que vem da vivência e não da escola. Não tem nada de teórico.

No filme, fica clara a maneira unilateral como parte da sociedade julgava os cangaceiros. Existe um sentimento de demonização do outro que está ainda muito vivo no Brasil. Você enxerga isso dessa maneira? Quando a irmã dela entra para o cangaço, a imposição de que todos os cangaceiros são bandidos fica em xeque. Ela questiona o rótulo. Acho que a nossa educação é muito fechada, exata, e as experiências da vida vão mostrando que nada é tão preciso, vilão ou herói.  Sobre o Brasil de hoje, acho que estamos vivendo um retrocesso em diversos departamentos, não sei a que se deve essa falta de interesse pelo universo alheio.  É um momento de muito barulho, e isso é mundial. Não sabemos direito onde estamos, o que as pessoas realmente pensam. Precisamos conversar mais. Mas acredito que passar por isso é necessário para alcançarmos uma evolução. O filme fala da importância da sensibilidade para tratar conflitos, para chegar em novos lugares.

Te surpreendeu que a hipótese da cura gay, de alguma maneira abordada no filme, tenha voltado a ser assunto? Sim, me surpreendeu muito. É inacreditável, isso deixa a gente sem referência. Me assusta porque na verdade é uma coisa que já estava ali e que agora está se mostrando. Estamos deixando de ser cegos, a gente tinha uma ideia errada da aceitação popular. A Emília é muito conectada com ela mesma, tem intimidade com os próprios sentimentos. Isso permite que ela tente compreender o outro, ela simboliza muito esse olhar mais humano para o mundo.

Ela é muito romântica e idealiza radicalmente o amor. E você?  Eu crio muita expectativa em relação a tudo, mas não sou tão romântica. Me identifico com a coisa de criar roteiros na minha cabeça de como os outros devem agir, mas não tanto em relação ao amor, mas sim ao trabalho e situações em geral. É inevitável, mas agora tenho consciência de que muito provavelmente nada vai acontecer como eu imaginei e isso de alguma forma me prepara para a decepção.

O casamento representa uma salvação na expectativa dela. Você sonha em casar? Não, nunca idealizei casamento, nunca tive sonho de casar na igreja. Nunca pensei “ai, como vai ser, quantos filhos vou ter”. Tento pensar só no futuro recente.

Você enxerga algum paralelo entre a Carolina, de Sob Pressão, e a Emília? São mulheres de gerações diferentes, embora ambas muito independentes. Carolina enfrenta dificuldades na perspectiva da mulher, a desautorização enquanto feminino. Emília vive essa relação de maneira silenciosa, ela não ocupa a posição de militante, simplesmente vai seguindo, encontra barreiras e as contorna. As duas têm essa semelhança.  A Carolina através da espiritualidade dela tenta contornar situações, se colocar no lugar do outro, e a Emília faz a mesma coisa. Nenhuma delas bate de frente com problemas, não são impositivas. Elas têm inteligência emocional.

Como foi participar dessa série? Me levou a pensar muito sobre a interferência que se pode ter na vida do outro. Sua presença pode mudar o curso da vida de alguém. Me aproximar do ofício médico fez com que eu pensasse sobre como meu próprio ofício pode ser significativo, até onde vai meu alcance. Não é como se fosse uma responsabilidade minha, mas surgiu um desejo de estar mais consciente dessa interferência.

A série foi um sucesso. Você curtiu esse momento? Eu estava fora do Brasil, mas acompanhei muito pelas mídias sociais e fiquei muito feliz, muito satisfeita. No fim da série, quando entra um pouco mais em plano o abuso sexual que ela sofreu, quando aparece o pai dela, recebi muitos comentários de pessoas que viveram essa situação. Perceber o quanto uma personagem fictícia serve de acolhimento e instrução para quem está vivendo algo tão violento me sensibilizou muito. É absurdo como esse tipo de agressão tem um alcance enorme e uma peça de ficção pode ajudar. Já estamos preparando a segunda temporada e estou bastante empolgada com o projeto.

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