Marcelo Rubens Paiva

por Nina Lemos
Tpm #113

O escritor e diretor de teatro fala sobre a vontade de ser pai, casamento, sexo

A história do escritor Marcelo Rubens Paiva todo mundo conhece: aos 20 anos, ele pulou de uma pedra e acabou numa cadeira de rodas. A fama de rabugento, brigão e militante também é notória. O que nos interessa? O jeito como encara as neuras femininas, o sexo, o casamento, a vontade de ser pai, o sofrimento e, principalmente, como se deve tratar uma mulher: “Hoje o homem tem que ser sensível, porque senão as mulheres vão embora”.

Marcelo Rubens Paiva é um homem que entende as mulheres. Apesar de rejeitar o rótulo e tentar pular fora de tamanha responsabilidade: “Eu só observo e tento entender”, diz ele, num apartamento do Rio de Janeiro, cercado, como sempre, por mulheres (neste caso, eu, repórter, e sua namorada, a filósofa Silvia Feola, 27 anos). Ele nega, mas no dia em que a entrevista foi feita havia publicado a seguinte crônica em seu blog do Estado de S. Paulo (em que também assina uma coluna semanal): “Dar: o dilema”, na qual conta infinitas discussões de suas amigas sobre dar na primeira vez e por aí vai.

“Vocês são muito loucas”, solta o escritor sobre nós, mulheres. Marcelo tem muita amiga e é conselheiro sentimental de várias, entre elas, ex-namoradas. “Tudo para vocês é dramático”, diz o autor do best-seller Feliz ano velho, referência dos anos 80. No livro, Marcelo narra, entre outras coisas, o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos ao pular de uma pedra em um lago em Campinas (SP). A obra fez dele ícone pop para toda uma geração que hoje tem entre 30 e 40 anos. Um ídolo. “Sabia que eu era apaixonada por você?”, confesso. “Sério, mas por quê?” Quem leu o livro sabe. Ele era sensível, politizado, falava de maconha – e ainda tinha uns amigos incríveis.

Hoje, aos 52 anos, Marcelo continua sendo um sujeito politizado, militante, “de esquerda” (termo que não acha que está fora de moda). “Sou o Reinaldo Azevedo de esquerda”, diz, se referindo ao colunista polemista da Veja. Um dia antes de lançar em seu blog a tal história de dar ou não na primeira vez, ele havia publicado um texto da Anistia Internacional que cobrava a revisão da lei da anistia e pedia punição a torturadores e assassinos do regime militar.

Bafafá
A militância, assim como o amor pelas mulheres, tem raízes em sua história de vida. Marcelo foi criado em uma família de mulheres. Tem quatro irmãs e a mãe, Eunice, pra lá de forte. E é filho de Rubens Paiva, o engenheiro que foi assassinado pela ditadura militar em 71. “Minha mãe ficou viúva aos 40 anos, tendo que cuidar de cinco filhos em idade escolar, foi fazer faculdade de direito aos 46. A biografia dela chega a ser mais interessante que a do meu pai”, acredita.

Está explicado por que esse boêmio assumido gosta de falar de mulher. E de política. Após se ver em uma cadeira de rodas, foi fazer uma das coisas que mais sabe: militar. No caso, pela acessibilidade dos deficientes físicos. Coisa que faz até hoje. “Há uns anos, vi uma loja do Ermenegildo Zegna sendo construída na Oscar Freire. Comecei a gritar que aquela escadaria era um absurdo. Imagina. Eu jamais entraria naquela loja, mas gritei só para causar um bafafá.” Marcelo, que se prepara para estrear em outubro a peça Deus é um DJ (há três anos ele é diretor de teatro), gosta mesmo de causar um bafafá (no melhor dos sentidos). Ao ser elogiado sobre a sua recente crônica, A garota de São Paulo, em que define as mulheres da cidade de forma precisa (e fez um sucesso estrondoso), responde. “Ah, deve ter feito sucesso porque vocês, mulheres, são carentes e gostam de se ver retratadas.” “Não fala assim, Marcelo, senão as meninas da revista vão te odiar”, diz a namorada, rindo.

Odiar? Até parece. 

Você escreve muito sobre as mulheres. De onde vem tanta inspiração? Marcelo Rubens Paiva. Tenho muita amiga mulher e sempre gostei de observar. Elas me contam tudo, perguntam o que devem e o que não devem fazer. Sou um pouco conselheiro sentimental de umas 20, 30 garotas [risos]. Me divirto, elas me contam umas coisas que me deixam pasmo. A minha coluna “Dar: o dilema” saiu porque estava conversando com três mulheres e o papo era “dar”. Eu estava só ouvindo. Uma falava: “Quando você sai com um cara na quarta vez, você tem que dar”. Outra dizia: “Se não gostei do cara não dou porque ele pode se apaixonar”. E a outra respondia: “Te entendo, tive esse problema, fui dar para um cara na quarta vez e ele brochou, aí tive que dar na quinta, né? Senão ele ia ficar traumatizado”. Fiquei olhando e falei: “Vocês são loucas. Sexo não pode ser uma coisa tão racionalizada! Vai, dá”. Para o homem não é nada assim. É tipo: “Estou bêbado, te achei um tesão, quero meter”.

E você, gosta de mulher que dá na primeira vez? Sinto tesão por uma mulher que dá na primeira vez. Isso mostra coragem, interesse em sexo. Não gosto de mulher que só dá na quarta vez, me dá preguiça. Joguinho? Não tenho paciência. E o engraçado é que as mulheres acham que os homens também fazem joguinho. Não fazem! Se um homem não liga no dia seguinte, é porque ele não quis. Talvez tenha vontade de ligar dois dias depois. E aí, normal, vai ligar. O homem fica perplexo com os joguinhos das mulheres, eles não entendem nada e ficam perguntando para os amigos: “Poxa, por que ela não respondeu aquele e-mail?”.

Você acha que as coisas estão mais complicadas entre homens e mulheres hoje ou estão complicadas como sempre foram?
Acho bom que seja complicado. Senão também ia ser chato: “Vamos lá transar”. Acho que teve uma mudança sim. Vivi os anos 70 e os 80 e acho que o sexo era menos importante nos anos 70. Era sem encanação. Hoje, as mulheres tomam mais a iniciativa, mas parece que elas levam mais a sério, se apaixonam. Antes, você transava com a amiga, a namorada de um amigo, era uma coisa mais solta. Agora, tem muita ansiedade. Mas acho interessante as mulheres serem mais atiradas.

Você acredita em casamento? Casar, mesmo, só casei uma vez, aos 30 anos, no papel. Achei que ia durar para sempre. Durou seis anos [risos]. Casei com conta conjunta etc. Adorei, gosto de ser casado. Estou praticamente casado agora e amando. Não sinto falta de estar solteiro. Mas também não fico desesperado quando estou solteiro. Sou como a maioria das pessoas.

Acha que o Brasil está menos machista? A nossa presidente é uma mulher e ninguém questiona isso. Não ouvi ainda “só poderia ser uma mulher”. Já ouvi: “Só poderia ser terrorista” [risos]. Mas acho que o Brasil ainda é muito machista. As mulheres ainda ganham menos e você não vê motorista de ônibus mulher, por exemplo. Na Europa e nos Estados Unidos não é assim. Mas também vim de um ambiente onde sempre tive chefe mulher. Não sei se isso é do mundo do jornalismo.

O que você acha dessa mulher de hoje, mais forte, mais independente? Os homens, principalmente da minha idade, tomaram um susto quando surgiram essas mulheres lindas, inteligentes e... chefes! E chefes ótimas, bem resolvidas. Tivemos que nos adaptar a elas. Você tem que cuidar da casa, tem que ser sensível, porque senão as mulheres vão embora. As mulheres não ficam mais em casa sem poder trabalhar. Se você tratar uma mulher mal, ela vai embora.

E mulher vai embora muito fácil, né? Na hora de separar somos objetivas. Nossa, mas vocês vão embora muito rápido! Isso é triste. Quando vocês vão embora é rápido e para sempre! E geralmente já tem outro cara na jogada. Ficamos sem entender nada.

Você era quase um pop star para as adolescentes que hoje têm 30, 40 anos. Tem noção dessa idolatria? Isso porque vocês eram muito carentes, né? Estou lendo a biografia do Keith Richards, e ele fala que as mulheres enlouqueciam porque os Stones eram tipo uma válvula de escape para uma geração. Vai ver é isso o que aconteceu com Feliz ano velho também, foi uma válvula de escape. Tem gente que me fala: “Li Feliz ano velho dez vezes”. Eu falo: “Ah, meu, vai ler outro livro”.

Cansa ser conhecido como o autor de Feliz ano velho? O livro é como aquele sucesso que uma banda toca só por obrigação? Já passei essa fase da maldição. Agora é o meu “Satisfaction”. Eu toco mesmo. Mas tive um período de negar, queria que gostassem de outras coisas minhas. Tem gente que pergunta: “Você tem medo de ser lembrado só por Feliz ano velho?”. Imagina, pelo menos vou ser lembrado, né? Mas não é mais tão marcante. Percebo isso, a molecada não tem nem ideia de quem eu seja. Fui no programa do Serginho Groisman no início deste ano e ele falou: “Ah, porque todo mundo leu Feliz ano velho, quem leu levanta a mão!”. E ninguém levantou [risos].

Como foi o sucesso do livro, quando você só tinha 23 anos? Na época, foi ótimo. Imagina, um deficiente fodido, de 20 e poucos anos, que ia para a faculdade de carona! De repente, fiquei não só famoso, mas milionário. Fui o primeiro a ter fax, videocassete, todo mundo ia em casa assistir [risos]. Logo, fui morar sozinho, uma loucura. Viajei o mundo todo, com tudo pago. Eu mal tinha andado de avião na vida e as pessoas pagavam para eu viajar para o exterior. Foi incrível.

Ainda existe muito preconceito em relação aos deficientes físicos? Existe. Mas melhorou muito. E em função dessa militância que fizemos nos anos 90. Pedimos ônibus, fizemos a lei ser cumprida. A prefeitura de São Paulo instalou uma comissão chamada CPA [Comissão Permanente de Acessibilidade], que fiscaliza os cinemas que não têm acesso etc. Mas, por outro lado, ainda acontecem coisas esquisitas. Por exemplo, ia sair uma foto minha em uma revista de renome e o fotógrafo queria fazer só de cima, para tirar a cadeira de rodas. Porque, segundo ele, isso poderia chocar as pessoas. Choca nada. É só uma cadeira de rodas. Lembro de mim com o Caio Túlio Costa [jornalista, na época editor do caderno Ilustrada] falando que a Folha de S.Paulo precisava ter um aviso de se o cinema era ou não acessível aos deficientes. Porque me incomodava, cada vez que ia ao cinema tinha que ligar e perguntar. E, como não existia o símbolo da cadeira de rodas, decidimos escrever “cinema acessível para deficientes”. Hoje, tem o símbolo em todos os jornais, revistas, guias, padronizou.

“Os homens tomaram um susto quando surgiram essas mulheres lindas, inteligentes e... chefes! Hoje você tem que cuidar da casa, tem que ser sensível, porque senão as mulheres vão embora. Se você trata uma mulher mal, ela vai embora”

Hoje as coisas estão bem melhores. Vou direto a estádios de futebol, é um puta respeito. Nos sentimos cidadãos respeitados. E isso faz muito bem. É engraçado como o pensamento muda. Quando entrei na ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP], pensava assim: “Ah, normal eu ter que ser carregado pelos amigos na escada. Que culpa tem a ECA de eu ter sofrido esse acidente? A culpa é minha, que fui idiota de ter pulado daquela pedra. A ECA não tem nada a ver com isso”. O que aconteceu? Precisei fazer uma operação no braço e fiquei 20 dias sem ir às aulas. Quando voltei, meus amigos falaram: “Marcelo, nós mudamos a sua sala, ela agora é no primeiro andar. E eu: “Como não pensei nisso antes? Como ninguém pensou nisso antes?”. Foi ali que comecei a me sentir cidadão.


Você ainda tem a ONG (Centro de Vida Independente, que defendia direitos políticos e acessibilidade para deficientes físicos)? Não precisa mais ter a ONG. Porque hoje o governo fiscaliza. Passei os anos 90 nessa militância. E foi muito útil. Fizemos um congresso e chamamos uma playmate de cadeira de rodas. Depois veio a Mara Gabrilli [hoje, deputada federal e colunista da Tpm]. Mas as coisas ainda são complicadas. Mesmo em relação aos meus amigos. Percebi que as pessoas que conheci depois do acidente tinham menos dificuldade de lidar comigo do que os amigos de antes. Tanto que os meus grandes amigos até hoje são os que fiz depois do acidente, principalmente na faculdade. As pessoas ficam travadas, lembram do que passei, de como foi difícil. As que conheço hoje não estão nem aí.

Você era do movimento estudantil. Continua militante? Fui pouco do movimento estudantil. Minhas irmãs é que eram as líderes. Em Feliz ano velho parece que eu era mais do que era de verdade. Sou militante, no blog sou o Reinaldo Azevedo de esquerda. Na Marcha da Liberdade eu estava lá, e nem fumo maconha, nem sei onde vende. Acho que a direita está avançando muito no Brasil. Isso me preocupa.

“Percebi que as pessoas que conheci depois do acidente tinham menos dificuldade de lidar comigo do que os amigos de antes. As pessoas ficam travadas, lembram do que passei. As que conheço hoje não estão nem aí”

Você também milita pela revisão da lei da anistia. Quando escrevo sobre isso as pessoas falam: “Ah, mas esse assunto é velho”. Não, não é. Não dá para deixar para lá. Essa militância é complicada, porque como tenho pai desaparecido [o deputado Rubens Paiva desapareceu na ditadura militar em 71, hoje, sabe-se que ele morreu durante a tortura] parece que estou fazendo em causa própria. E não é. Estou fazendo pela honra do meu país. Você vê na Argentina, os caras sendo presos. Agora no Chile, exumaram o corpo do [Salvador] Allende. Isso dá dignidade ao país.

Lançaram um livro sobre seu pai e de vez em quando aparecem reportagens sobre ele. Você consegue ler essas coisas, com detalhes de como ele foi torturado? Não consigo. Li o começo do livro do meu pai, pulei a parte da tortura e fui para o fim. Li porque tinha que aprovar, representando a família. Mas não consegui ler não só por ser uma história pesada. Não gosto de ler o que sai sobre mim. Não fique chateada, mas não vou ler esta entrevista. Fico com vergonha, acho que falo muita bobagem.

Ler sobre o seu pai é mais difícil ainda? 
Enche um pouco o saco. A história do meu pai é uma coisa da qual não consigo me libertar. Ele morreu há 40 anos e é um cadáver vivo. Teve a exposição sobre ele ano passado. Foi muito emocionante. Um cara da Comissão da Verdade ficou na minha casa dias, pegando caixas de arquivos da família, lembrando coisas que nem sabia do meu pai. Entrou no arquivo do DOPs [Departamento de Ordem Poítica e Social], descobriu coisas incríveis sobre ele. É legal, mas é difícil lidar. Mas é a minha história, não posso fugir disso. Minha mãe sempre fez essa parte, de lidar com as coisas do meu pai. Agora, ela está velhinha e eu que cuido.

Você é o caçula de uma família de quatro irmãs. É muito mimado? 
Super. Elas são ótimas, totalmente protetoras. Sou o Marcelinho. Os meus sobrinhos reclamam muito. Dizem: “Tudo é para o tio Marcelo”. Tem sempre almoço de domingo e acordo tarde, sou o último a chegar. Todo mundo está com fome e elas não deixam ninguém comer. Agora que estou aqui no Rio tem uma cuidando dos meus gatos, e elas ficam com ciúmes entre elas. Outro dia, mandei um e-mail elogiando uma irmã e as outras tiveram um ataque. Tive que falar: “Calma, amo vocês também”. Tenho que amar quatro mulheres igual e demonstrar.

A sua mãe também parece ser uma pessoa muito forte na sua vida. 
Acho que ela foi até mais importante que o meu pai, a biografia dela é até mais interessante. Ela ficou viúva aos 40 anos, mãe de cinco filhos na idade escolar. E sem trabalhar. Foi fazer faculdade de direito e se formou aos 46. Isso tudo enfrentando uma ditadura, sem saber o que havia acontecido com o meu pai, com a esquerda toda fora do Brasil. Ela estava bem sozinha. Ela é uma mulher de uma força incrível.

“Escrevi sobre o meu aborto e me chamaram de assassino. Na minha geração todo mundo trepava sem camisinha, todo mundo fazia aborto”

A militância também deve ajudá-lo a lidar com a dor, não? Claro. A gente sai do umbigo. Quando fazíamos coisas pelos deficientes não pensávamos em nós. Víamos que tinha gente precisando. Por exemplo, não ando de ônibus no Brasil, tenho carro. Mas a nossa maior militância era pelos ônibus.


Quais são suas outras causas? Uma vez escrevi sobre o meu aborto. Eu tinha 19 anos, morava em Campinas, ficamos desesperados. Falei com a minha mãe, que deu o dinheiro, que para a gente era um dinheirão, minha namorada não podia contar para os pais, foi horrível. Depois disso, me tornei um militante a favor do aborto. Escrevi uma coluna falando sobre o meu aborto e me chamaram de assassino, como se tivesse escrito uma coisa absurda. Ou que eu era corajoso. Não acho nada corajoso. Imagina, na minha geração, todo mundo trepava sem camisinha, todo mundo fazia aborto.

Você pensa em ter filho? Até penso, sabia? Tenho um amigo que diz que ter filho aos 50 anos é ótimo. E pode ser mesmo. Você não tem mais ambição do tipo “ah, preciso provar que sou um bom escritor”. Tem gente que gosta, então está tudo bem. E gosto muito de criança, meus sobrinhos me adoram. Agora desisti de viajar sozinho, porque alguma coisa sempre dava errado. Como chegar ao hotel e a cama especial para deficientes não estar, e ter que chamar alguém do hotel para me botar na cama, essas coisas. Já fiz muita aventura. Agora, fico com preguiça. Quando minha namorada não pode ir comigo, chamo meus sobrinhos e eles disputam: “Eu que vou cuidar do tio Marcelo”.

Tem medo de envelhecer? Não, porque já envelheci. Daqui a oito anos, faço 60. E fiquei mais tranquilo, menos rabugento. Quando fiz 50 anos, achei que não ia mais pegar ninguém. Pensava: “Imagina, quem vai querer dar para um cara de 50 anos?”. Perguntei isso para uma menina que era meu casinho na época: “Por que você fica comigo?”. E ela disse que era porque os homens de 50 eram melhores que os de 40, porque eram mais calmos, mais companheiros. Pode ser.

E o Marcelo diretor de teatro? É um diretor durão? Sou supercalmo. As pessoas acham que tenho jeito para a coisa. Não sou de brigar, acho ridículo brigar em trabalho. Nunca fiz isso.

Você prefere brigar na rua, né? [Risos] Ah, pelo direito dos deficientes grito mesmo. Brigo, dou escândalo. Tem uma mulher de um restaurante em São Paulo que diz: “Só fiz esta rampa porque o chato do Marcelo Paiva encheu o meu saco”. Enchi mesmo. Mas pelo menos ela fez a rampa, uma rampa péssima, diga-se de passagem.

Já tomou muito pé na bunda, daqueles de ficar sofrendo? Sim, de ficar sofrendo. Tomo muito pé na bunda, claro. Se o Rodrigo Santoro já tomou pé na bunda, nossa, quem sou eu? Sofro muito por amor. É ótimo para escrever livros e peças. A dor é boa para criar. Para criar a alegria não serve para nada.

Você se considera uma pessoa melancólica? Não sou depressivo, mas sofro. Sou bem sensível. Procuro refúgio na bebida, nos amigos e na noite. E, se tomo um pé na bunda, começo a comer um monte de mulher. O que é horrível, porque, quanto mais você fica com mulher, mais sozinho se sente. Se estou galinha é porque tomei um pé na bunda. E no dia seguinte sofro. É fechar os olhos e pensar na outra. Nossa, que horror.

“Tomo muito pé na bunda. Se o Rodrigo Santoro já tomou pé na bunda, nossa, quem sou eu? Sofro muito por amor. É ótimo  para escrever livros e peças. A dor é boa para criar. Para criar a alegria não serve para nada”

E você faz análise? Fiz duas vezes. Há muito tempo.
 
Como consegue ficar sem? Ah. Rivotril. Agora me rendi à química. Antes tinha preconceito, achava que não precisava, que era coisa de maluco. Mas como sou super-hipocondríaco só faltava colocar esses remedinhos na minha lista de neuroses.

Você sabia que tem fama de rabugento? Olha, até já fui mais rabugento. Sou um pouco. Meio neurótico. Mas com a idade acho que melhorei. Sou sarcástico, não levo nada a sério. Esse é o meu problema, não levo nada a sério e isso às vezes incomoda as pessoas. Uma vez fiz uma peça que tirava onda com o próprio teatro e um crítico meteu o pau falando que eu dessacralizava o teatro. Ah, vou levar a sério? Na literatura é a mesma coisa. Aff, Flip [Festa Literária Internacional de Paraty], Deus me livre. Flip é um lugar que nunca fui e não pretendo ir.

Por quê? É muito formal. Me dá vergonha [risos]. As pessoas ficam muito sérias. E aí tem os bêbados, que não aguentam o ambiente sério e caem no chão. Acho que não é para levar literatura tão a sério. Nem as relações humanas. É para brincar. E tem gente que não entende, que me liga no dia seguinte e diz: “Você me disse aquilo ontem, o que tem contra mim?”. Tenho que explicar que não, que sou um gozador profissional. Talvez seja até uma defesa minha, uma maneira de me posicionar no mundo.
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