por Natacha Cortêz

No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre violência no parto, seja ele normal ou por meio de cirurgia


O Brasil é um dos líderes de cesáreas no mundo; uma em cada quatro mulheres sofre violência no parto, seja ele normal ou por meio de cirurgia. Mais que cicatrizes, as personagens que constroem esses dados carregam memórias que marcaram suas histórias com violência e humilhação
 

Aos 26 anos, a paulistana Sara Ollebar já sofreu todo tipo de violência possível em seus dois partos. Em sua primeira gestação, optou por parto normal, que foi realizado na rede pública, em um hospital de São Paulo. Na ocasião, o marido de Sara foi proibido de entrar no quarto. “Me largaram sozinha, cheia de medos e inseguranças. Fui levada para sala de cirurgia e me fizeram um corte monstruoso, levei 8 pontos de um lado e 10 do outro”.

Em sua segunda gravidez, ela estava com 37 semanas quando foi internada para dar luz à Lara. Em uma espera normal, o prazo recomendado por obstétras é de 40 semanas. Convencida de que desejava um parto normal, Sara foi surpreendida por uma cesárea, só aceita por ela depois de ameaças das enfermeiras. “Disseram que meu bebê estava em sofrimento fetal e morreria se a cesariana não acontecesse. Por causa da pressão, concordei com a cirurgia”, relata.

Quando Lara nasceu, foi direto do ventre de Sara para a UTI. “Foi a maior angústia que já senti na vida. Depois de levar os pontos, me colocaram em um quarto sozinha e fiquei lá das 19h às 5h, tremendo feito bicho. Não conseguia mexer o pescoço. E eu ao menos sabia onde estava meu bebê”, recorda. Ela levou dias para ver e ter o primeiro contato com a filha. “Só dez dias depois fui autorizada a amamentá-la.”

Meses após o parto, Sara estava não tinha dúvidas: a internação de Laura na UTI só foi necessária pela precocidade do parto, que pelas suas investigações, não tinha razão para acontecer. "Mas só soube disso porque fui procurar respostas. Conversei com doulas, parteiras e outros obstétras. Acabei entendendo que meu parto foi precoce sem motivos justos. Os exames apontavam que Laura estava bem. Tê-la com 37 semanas foi precipitado", defende-se.

Hoje, a paulistana está com 32 semanas de gestação e espera Alfred “totalmente segura e confiante”. Seu único medo: “ouvir a palavra 'hospital'". “Até hoje meu coração acelera se tenho que entrar em um”, diz.

 

"Depois de levar os pontos, me colocaram em um quarto e fiquei lá das 19h às 5h, sozinha, tremendo feito bicho. Não conseguia mexer o pescoço. Nem ao menos sabia onde estava meu bebê", Sara Obellar

 

A fotógrafa Letícia Valverdes, 41 anos, nunca sentiu que precisava aprender tanto sobre parto como quando se deparou grávida e morando no Brasil. Era sua terceira gravidez - os dois primeiros filhos nasceram na Inglaterra, onde, segundo ela, “o sistema público encoraja a assistência de parteiras no pré-natal e no parto, e só medicaliza o procedimento quando de fato é necessário”.

Ter seu terceiro bebê no Brasil, mais precisamente em Ubatuba, litoral de São Paulo, testou os limites de Letícia. “Parir no Brasil é muito trabalhoso. É preciso ser PhD em parto para não ser forçada a nada. Temos que estar informadas, escoladas, certas do que queremos e do que, junto com os nossos bebês, somos capazes, e usar destes conhecimento e instinto para não sermos des-empoderadas”, conta.

Ao mesmo tempo que foi surpreendida ao precisar vivenciar seu terceiro parto no Brasil, Letícia teve sorte de carregar consigo anos de feminismo nas costas. Ela explica: "foi a experiência com o movimento que me livrou de violências pesadas na gestação e no momento de parir". A partir daí, ela começaria uma saga atrás de um parto humanizado. Para ela, a única forma de dar a luz, se respeitando e sendo respeitada. No caminho, conheceu mulheres que chegaram até o parto humanizado depois de viver experiências traumatizantes. Letícia decidiu que elas seriam suas próximas personagens. “Sou grata à vinda do meu terceiro filho em minha terra natal, pois na busca por um parto humanizado encontrei a vontade de registrar mães e gestantes com seus corpos e com os sentimentos que a maternidade traz. As marcas deixadas pela maternidade no corpo e na alma.” Então surgiu a série fotográfica Birth Marks - Marcas de Nascença, e Leticia conheceu histórias de abuso e humilhação, relatos que constroem estáticas duras sobre violência obstétrica no país.

Uma em cada quatro brasileiras sofre violência no parto, seja ele normal ou por meio de cirurgia. Os números são da pesquisa “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”, divulgada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo. O estudo ainda mostra que os abusos mais comuns são maus-tratos verbais com a gestante, em formas de gritos e hostilidade; procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação; falta de analgesia (anestesias que podem ser oferecidas a pacientes em qualquer momento do parto, sem prejuízo de sua evolução) e até negligência.

 


Ainda, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2010, o Brasil e a China foram responsáveis por metade das cesáreas realizadas no mundo. Entre 2010 e 2013, a pesquisa "Nascer no Brasil", da Fiocruz, mostrou que 53% dos partos na saúde pública foram cirúrgicos. Bem acima do limite máximo recomendado pela OMS, de 15%. Na rede privada, o índice sobe para 83%, chegando a 90% em algumas maternidades. Cesárea deixou de ser um recurso para salvar vidas para virar sinônimo de parto. “No Brasil, os conceitos de parto e cesárea andam juntos”, indigna-se Letícia. 

Entre 2010 e 2013, 53% dos partos na saúde pública foram cirúrgicos. Bem acima do limite máximo recomendado pela OMS, de 15%. Na rede privada, o índice sobe para 83%, chegando a 90% em algumas maternidades. 

 

A mais recente série da fotógrafa foi feita no último 13 de abril, no Largo São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da USP, na capital paulistana. Suas personagens dessa vez estavam ali para protestar por Adelir – que em primeiro de abril foi surpreendida por oito policiais armados e um oficial de justiça munido de uma liminar. Adelir estava em pleno trabalho de parto em sua residência, a 1h30 da madrugada, quando eles chegaram.

Letícia está acostumada a violência obstétrica. Fotografou muitas mulheres nos últimos anos. Ouviu de tudo, viu cicatrizes de arrepiar a espinha. Mesmo assim, se viu espantada quando soube da história de Adelir. Participar da manifestação do dia 13 era um passo obrigatório de sua caminhada. “O caso da Adelir surpreendeu pela audácia e arrogância da médica em achar que tinha direitos sobre o corpo de Adelir e de sua filha. Mas não necessariamente surpreendeu a todo mundo em seu horror (e que horror) pois quem ouve histórias o tempo todo já ouviu de tudo. Tem muita gente sofrendo em silêncio Brasil afora.”

Adelir, 29 anos, foi retirada de sua casa, na zona rural do município de Torres, Rio Grande do Sul, e obrigada a entrar em uma ambulância. Se não entrasse prenderiam seu marido, Emerson Guimarães, 41 anos, técnico em manutenção industrial. Apavorada, com contrações a cada cinco minutos e preocupada com o susto de seus outros filhos pequenos, Adelir foi escoltada até o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes. A Justiça do Rio Grande do Sul determinou que ela, grávida de 40 semanas, fosse submetida a uma cesariana, mesmo contra a sua vontade. A medida coercitiva foi expedida na noite de 31 de março, após orientação de uma médica do hopital. Adelir acabou tendo seu terceiro filho, uma menina, na terça-feira, dia 1 de abril.

Segundo Ana Lúcia Keunecke, advogada e diretora jurídica da Artemis (organização comprometida com a promoção da autonomia feminina e prevenção e erradicação de todas as formas de violência contra as mulheres), o caso de Adelir é inédito no Brasil. Nunca uma brasileira passou por situação parecida até então. “Não por acaso, o episódio causou indignação no país por ser a primeira vez que a decisão de uma mulher na hora de parir sofreu interferência direta da Justiça”, explica. A advogada acredita que a repercursão do caso é notória e marca a história obstétrica brasileira. "Apesar de uma situação horrível, é mobilizadora. É triste, mas às vezes é necessário um episódio assim para que as pessoas acordem. Para que possamos mobilizar governantes e mudar o cenário do parto no país."

Ana foi certeira em sua opinião. De alguma forma, as coisas começaram a mudar. No último dia 7, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados debateu a violência obstétrica no Brasil. A audiência é fruto do caso Adelir.

O debate foi proposto pelo deputado Jean Wyllys a pedido da própria ONG Artemis, e teve a participação da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos e Minorias, do Ministério da Saúde, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e da própria Adelir, dentre outros agentes do governo e da sociedade civil. 

"O parto natural e humanizado aproxima a mãe do bebê e deve ser, sempre que seguro, recomendado. Toda mulher deveria poder escolher a melhor forma de parir", Giselle Leal


A bióloga Gisele Leal, 37 anos, compara sua história à de Adelir. Sofreu na pele, ouviu ameaças, por sorte não teve o mesmo desfecho que a gaúcha mas também carrega suas cicatrizes. Por causa delas, abandonou a carreira de gerente de qualidade em uma grande empresa e se torbou doula. Ainda, criou o site Mulheres Empoderadas, onde divide tudo o que passou em suas gestações e ainda publica relatos de partos humanizados. A ideia da página é incentivar outras mulheres a desmistificar o parto natural e, ao mesmo tempo, informar a real necessidade de uma cirurgia cesariana. "Precisamos ser informadas. Fomos culturalmente ensinadas que cesarianas são soluções para qualquer mínima dificuldade de uma gravidez. Não são. O parto natural e humanizado aproxima a mãe do bebê e deve ser, sempre que seguro, recomendado. Toda mulher deveria poder escolher a melhor forma de parir. E mais, independentemente dela, ser respeitada acima de tudo."   


Quando é violência obstétrica?  

Os casos de Leticia, Adelir e Sara são mais comuns do que deviam. A violência obstétrica ocorre de forma constante no Brasil, seja na alta ocorrência de cesarianas desnecessárias, imputando à mulher a culpa pela impossibilidade de um parto normal, seja nas agressões durante o parto normal oferecido em hospitais e maternidades, públicos ou privados.

O conceito internacional de violência obstétrica define qualquer ato ou intervenção direcionado à mulher grávida, parturiente ou puérpera (que deu à luz recentemente), ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências. Abusos como esses implicam em violações de direitos humanos, como o direito a integridade corporal, à autonomia, a não discriminação, à saúde e a garantia do direito aos benefícios do progresso científico e tecnológico.

Cesariana sem indicação clínica justificada, uso de soro com ocitocina sintética (hormônio) para aceleração do trabalho de parto por conveniência médica e hospitalar, exames de toque sucessivos feitos por diferentes pessoas, episiotomia (corte para aumentar o canal de passagem do bebê) e privação do contato imediato entre mãe e filho após o nascimento são apenas algumas formas da violência que uma mulher pode sofrer durante o parto.

Tais intervenções, praticadas de forma rotineira no momento do parto são consideradas, de acordo com as diretrizes da OMS (1996), como um fator de risco tanto para a mulher como para o bebê. Crenças e preconceitos a respeito da sexualidade e saúde das mulheres presentes na sociedade patriarcal contribuem com a forma como são vistas e (des)tratadas por estes profissionais.

Mas há outros tipos, diretos ou sutis, como explica a obstetriz e acoordenadora do GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), Ana Cristina Duarte: “impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua preferência, tratar uma mulher em trabalho de parto de forma agressiva, não empática, grosseira, zombeteira, ou de qualquer forma que a faça se sentir mal pelo tratamento recebido, tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e nomes infantilizados e diminutivos, submeter a mulher a procedimentos dolorosos desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos pubianos, posição ginecológica com portas abertas, submeter a mulher a mais de um exame de toque, especialmente por mais de um profissional, dar hormônios para tornar o parto mais rápido, fazer episiotomia sem consentimento”.
 


Agora é lei

Assegurar o contato pele a pele do recém-nascido com a mãe imediatamente após seu nascimento, colocando o bebê sobre o abdômen ou tórax da mãe de acordo com sua vontade, de bruços e cobri-lo com uma coberta seca e aquecida. Essa é uma das recomendações do Ministério da Saúde para o nascimento de bebês com ritmo respiratório normal. O texto faz parte da atualização das diretrizes para a organização da atenção integral e humanizada ao recém-nascido no Sistema Único de Saúde (SUS).

A portaria, que foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (8), recomenda ainda que o aleitamento materno na primeira hora de vida do bebê, exceto em casos de mães HIV ou HTLV positivas. O texto propõe também que o exame físico, pesagem e vacinação do recém-nascido, entre outros procedimentos, sejam feitos apenas depois da sua primeira hora de vida. 

No SUS, bebê deve ter contato pele a pele com mãe logo após nascer, e exames de rotina são postergados para depois da primeira hora de vida.   

Outra proposta da portaria é quanto ao clampeamento do cordão umbilical do recém-nascido, que deve ser feito após cessadas as pulsações do recém-nascido (aproximadamente de 1 a 3 minutos), exceto em casos de mães isoimunizadas ou HIV / HTLV positivas, em que o clampeamento deve continuar sendo feito de imediato.

Ainda de acordo com a portaria, para o recém-nascido com respiração ausente ou irregular, deverá ser seguido o fluxograma do Programa de Reanimação da Sociedade Brasileira de Pediatria. O estabelecimento de saúde que mantiver profissional de enfermagem habilitado em reanimação neonatal na sala de parto deverá possuir em sua equipe, durante 24 horas, ao menos um médico que também seja capacitado.

A portaria publicada pelo Ministério da Saúde altera, ainda, os atributos do procedimento na tabela de procedimentos, medicamentos, órteses, próteses e materiais especiais do SUS. Com a mudança, o atendimento ao recém-nascido consiste na assistência por profissional capacitado, médico (preferencialmente pediatra ou neonatologista) ou profissional de enfermagem (preferencialmente enfermeiro obstetra ou neonatal), desde o período anterior ao parto, até que o recém-nascido seja encaminhado ao quarto em alojamento conjunto com sua mãe ou à unidade neonatal. Com a portaria, essa equipe de atendimento deve incluir médico residente, enfermeiro, técnico de enfermagem e auxiliar de enfermagem.

Consulte aqui a portaria na íntegra.
 

Denuncie a violência obstétrica

Segundo cartilha sobre violência obstétrica publicada pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, a mulher deve exigir da instituição de saúde onde foi atendida a cópia de seu prontuário médico. Esta documentação pertence à paciente, podendo ser cobrado apenas o valor referente ao custo das cópias.

A cartilha ainda indica procurar a defensoria pública como segundo passo. Independente se a gestante usou o serviço público ou privado.

Para denúncias e orientações, a recomendação é ligar para o 180 (Violência Contra a Mulher) ou para o 136 (Disque Saúde)
 


Por que tanta cesárea?
 

*por Ana Cristina Duarte

O aumento das cesarianas no Brasil tem quase infinitas bases. Vamos a algumas:
 

Pagamento por produtividade - muitos plantões médicos são remunerados por produtividade, ou seja, se nascer no plantão, a grana vai para aquele plantão. Se não nascer antes de terminar o plantão, se passar para o plantão seguinte, quem ganha o valor do parto é a equipe do plantão seguinte. O médico que passou o dia ali aguardando o parto e resolveu não operar, não ganha nada.

"Limpeza do plantão" - prática que ocorre em muitos hospitais, onde o obstetra opera todas as mulheres antes de terminar o plantão, para terminar o dia com tudo "limpo", sem mulheres em trabalho de parto para a equipe que assume em seguida. Também acontece muitas vezes perto das 23h-0h, para que a equipe possa ir dormir sem ser incomodada durante a noite.

Falta de anestesista ou de obstetra - em muitas cidades pequenas não há equipes morando no local. Então, para que não haja risco da mulher entrar em trabalho de parto em um dia que não tem médico na cidade, agendam-se todas as cesarianas para o dia da semana em que os médicos estão de plantão.

Falta de especialistas - em hospitais em que se atendem nascimento de bebês de alto risco, como não há especialistas de plantão a todo tempo, os médicos preferem marcar as cesarianas para os dias e horários onde os especialistas estão presentes no hospital, assegurando assim que o recém nascido possa ser imediatamente atendido.

Pacotinho cesárea no SUS - alguns médicos ainda têm a prática (ilegal) de vender cesarianas a serem efetuadas dentro do SUS. A mulher paga direto para o médico, em dinheiro, e ele agenda a cesárea.

Ausência de analgesia de parto - apesar do direito legal à analgesia, na prática as mulheres não têm direito. E diante da ameaça de um parto torturante, com todo tipo de intervenção, e sem o direito a alívio da dor, as mulheres preferem fugir do parto normal oferecido no SUS.

Falta de experiência - muitos hospitais escolas, como o Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, ostentam taxas de cesáreas próximas de 65%, ou até mais. Em geral isso se dá pela falta de experiência da equipe em lidar com o parto normal em situações diferenciadas como o parto de gêmeos, parto de bebês grandes, de prematuros, de mulheres com cardiopatias ou outras doenças. Sem conseguir aplicar as evidências diretamente, quer por medo, quer por falta de prática, acabam recorrendo à cesariana com muita facilidade. No final os médicos saem sabendo fazer cirurgias, mas não sabem atender um parto fisiológico, sequer conhecem os tempos de um parto natural, sem indução.

Estrutura dos hospitais privados - o que faz o lucro das maternidades privadas é o agendamento prévio das cesarianas. Os hospitais não só recebem mais dos planos de saúde por esses procedimentos como também conseguem maximizar o uso dos leitos. Convém lembrar que a UTI neonatal e o banhos de luz são igualmente muito bem remunerados pelos seguros e planos, de modo que a cesariana acaba sendo, de longe, o mais lucrativo dos procedimentos de maternidade. O parto normal ocupa salas e enfermagem por muito tempo, tem pior remuneração pelos planos de saúde e é necessário que o hospital tenha vários leitos disponíveis, sem ocupação, aguardando mulheres que podem ou não entrar em trabalho de parto.

Remuneração (falta de) - os planos de saúde pagam por volta de R$ 300 reais por um parto. Não compensa financeiramente para o médico conveniado. A solução é marcar mais de uma cesárea num só dia, sem comprometer o consultório e a vida privada. Alguns são honestos e já falam logo de cara. Outros vão seguindo o pré natal com frases vagas sobre o parto e no ultrasom de 37 semanas acabam "descobrindo" uma boa razão para marcar a cesariana para a semana seguinte. 

Medo do parto - muitos obstetras tem medo do parto normal e acham a cesariana mais "controlável". Apesar de todas as evidências científicas, acabam sendo contaminados e às vezes congelados por experiências traumatizantes do passado. Não só não conseguem mais aguardar o parto, como recomendam a cirurgia cesariana para amigas, partentes, esposa, etc.

Litigância (medo de processo) - historicamente no Brasil não se processa um médico por um mau resultado em uma cesariana, afinal ele fez todo o possível, usou a máxima tecnologia. No entanto qualquer resultado ruim de um parto normal é visto imediatamente como erro médico e os processos encaminhados ao CRM. Se um médico tira um bebê de 38 semanas e este vai para a UTI por desconforto respiratório, a sociedade em geral acha que ele salvou o bebê. Se um médico aguarda um parto normal e o bebê tem paralisia cerebral, não podendo (e não há como) provar que o evento foi anterior ao parto, a culpa certamente recairá sobre o parto.

Cultura da cesariana - na sociedade em geral, a cesariana é vista como algo melhor, mais seguro, normalizado, banalizado. Nas camadas menos favorecidas, ela é vista como bem de consumo, algo que só as mulheres ricas possuem, e que portanto deve ser melhor, mais desejável. A cesariana está nas TVs, novelas, nas revistas para mães (sem culpa). O parto normal é retratado como a opção nobre porém sofrida. 

Desinformação gerando medo - as mulheres têm pouca informação sobre o processo de gravidez e muitas ficam imersas no medo de algo acontecer. Esse medo inominável e incomensurável também é congelante e não permite que as mulheres duvidem de seus médicos, quando esses indicam a cesariana por "cordão enrolado", ou que enfrentem a família/marido e escolham outro obstetra no final da gestação. O medo é tão grande que basta a promessa de salvação feita por seu médico para que ela entregue seu corpo e todo o seu poder a essas mãos alheias.

Inoperância da ANS - a Agência Nacional de Saúde Suplementar, que deveria regular as práticas erradas no setor privado simplesmente ignora o problema, ou promove medidas tão inefetivas, que o resultado tem sido, nos últimos anos, contrário ao desejado, ou seja, aumento das taxas de cesariana. Com programas que dão pontos positivos, mas não encontram soluções efetivas, o fato é que os planos de saúde não vêem qualquer razão para saírem da zona de conforto dos 90% de cesarianas.

Conivência do Ministério da Saúde - a força com que o M.S. lutou pela amamentação no Brasil, e que poderia ter sido utilizada também na luta pelo direito a um parto digno para todas as mulheres, simplesmente esmorece ou nem chega a ser recrutada. É como se não fosse conveniente entrar em confronto com determinados setores. Por isso as medidas são sempre amenas, de "sedução", promessas de verba para reformas de centros obstétricos. Apesar de que essas medidas também são bem-vindas, o fato é que não haverá mudança significativa nas práticas sem medidas radicais do Ministério da Saúde.

Entre outras medidas precisamos (em ordem aleatória):

1) Segunda opinião na indicação da cesariana;

2) Plantões nos hospitais privados que permitam um parto humanizado e digno a uma mulher que opte por usar o médico plantonista ao invés de seu obstetra do plano (mal remunerado);

3) Fiscalização de prontuários por comissões específicas (existem indícios de que a indicação da cesariana muitas vezes não casa com o que foi dito à gestante para justificar a cirurgia);

4) Planos de saúde começarem a glosar as cesarianas sem indicação;

5) Fiscalização pelos planos de saúde das UTIs neonatais (onde parte razoável dos bebês está internada por desconforto respiratório advindos de cesarianas eletivas não necessárias);

6) Programas dos planos de saúde para partos humanizados, com direito a analgesia peridural a pedido materno;

7) Remuneração dos planos de saúde para partos normais atendidos por enfermeiras obstetras e obstetrizes;

8) Direito de internação de gestante para parto com enfermeiras obstetras/obstetrizes;

9) Direito à informação clara sobre as taxas de cesariana de cada hospital e cada médico credenciado dos planos de saúde;

10) Humanização DE FATO dos partos no SUS, aumento dos Centros de Parto Normal geridos e atendidos por enfermeiras obstetras/obstetrizes, no paradigmas do parto humanizado, natural, com o menor número possível de intervenções, com a presença de acompanhante e doula (se desejado);

11) Direito à analgesia peridural no SUS;

12) Treinamento médico adequado para o parto natural, fisiológico;

13) A ANS deve estabelecer metas para redução de cesarianas, e prazos para o cumprimento das metas. Se os prazos não forem cumpridos, cabem multas aos planos de saúde. A agência pode até fornecer um estudo específico para a aplicabilidade de medidas de redução de cesariana, e propor a redução gradual: de 92% para 70% no primeiro ano, 50% no segundo, etc. EXIGÊNCIA do plantão presencial multiprofissional (obstetra, neonatologista, anestesiologista) e multidisciplinar (EOs e obstetrizes) que devem ser disponibilizados em todos os planos de saúde;

14) Ministério da Saúde precisa se posicionar claramente a respeito do serviço privado. A ANS gerencia planos, não prestadores privados. É preciso gerenciamento do setor privado, tanto quanto do público. Há que se exigir resultados;

15) A ANVISA precisa rever a RDC 36, que regulamenta funcionamento de serviços obstétricos. A imensa maioria dos hospitais brasileiros não segue as diretrizes. E a complexidade para os serviços de baixo risco acabam inviabilizando que se faça uma casa de parto privada nos moldes das européias. O custo básico inviabiliza. 

Ana Cristina Duarte é obstetriz, coordenadora do GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa). Atende partos humanizados hospitalares e domiciliares com algumas equipes de São Paulo e Campinas, e é co-autora do livro Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e homem também), Editora Unesp. 

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