por Flávia Durante

Trompetista holandesa que lidera banda de salsa colombiana é atração do Rec Beat 2014

Uma alma latina que por acaso nasceu na Holanda. Assim é Maite Hontelé, trompetista holandesa que se apresenta pela primeira vez no Brasil em pleno Carnaval. Ela é uma das atrações do Rec Beat Festival, que acontece em Recife, e também toca em São Paulo, no Sesc Vila Mariana.

Criada em meio aos discos de salsa e bolero de seu pai, um fascinado por música, começou a tocar trompete aos nove anos de idade na banda de seu pequeno povoado. Sonhava em conhecer a América Latina, e em uma turnê pela Colômbia em 2008 se apaixonou definitivamente pelo país e fincou suas raízes na bela Medellín, a cidade das flores. A partir daí, chegou a inspiração para o seu primeiro disco, Llegó la Mona, em 2009. Em 2010 lançou Mujer Sonora e em 2013, Dejame Así.

Em um papo com a Tpm, Maite fala sobre a paixão pela Colômbia e pela música latina e sobre como é comandar uma banda de salsa em um meio musical tão masculino.

No Brasil não é muito comum ver mulheres tocando instrumentos de sopro. Como é na Europa?
Na Europa é mais comum... Embora uma mulher liderar um grupo de salsa não seja. Não conheço outra trompetista que o faça.

Como surgiu a paixão pela Colômbia e sua música?
Meu pai é colecionador de música "estranha" desde muito tempo. Então quando eu nasci já havia uma coleção gigante de salsa, sons cubanos e colombianos em minha casa. Quando eu tinha nove anos nos mudamos para um povoado e lá se procuravam trompetistas para a banda local. Conheci a sonoridade do trompete pela coleção do meu pai e foi assim que comecei a estudar o instrumento, muito motivada, sonhando com a ideia de um dia poder tocar essa música tropical.

Outra coisa muito importante foram as turnês que fiz na Colômbia em 2004, 2006 e 2008. Essas turnês foram experiências incríveis, o público latino americano tem algo mágico, me transmite uma energia muito bonita. Para um músico é muito importante, te alimenta e te inspira. Me encantei pela Colômbia em 2008 e decidi gravar um álbum que é uma homenagem a música colombiana só para poder tocar mais por estes lados [Llego la Mona, de 2009]. Na turnê promocional me apaixonei por um colombiano e decidi radicar-me em Medellín.

E quando começou a viver na Colômbia, qual a maior diferença sentir em relação à Europa?
Como sou holandesa, gosto muito de planejar as coisas... mas aprendi a relaxar, já não me estresso tanto se alguém chega tarde a algum encontro. Ou se as coisas não saem exatamente como planejei. 

Ah! E o mais importante é que aqui uma festa sem baile não é festa. Aprendi a curtir, a dançar, a rir mais do que nunca, a contar piadas (muito importante aqui). Mudei muito de uma mulher introvertida para uma mulher que aproveita a vida ao máximo!

A América Latina, geralmente falando, pode ser muito sexista. Você já sentiu algum preconceito por estar em um meio musical tão masculino como a salsa?
Felizmente tenho me saído muito bem. Claro que às vezes alguém me olha estranho, “como assim uma loira holandesa tocando música latina?” Mas quando começo a tocar se dão conta que é sério: que sou uma holandesa com sangue latino. Sinto que nasci no continente errado! No começo os homens da minha banda tiveram que acostumar com uma mulher dirigindo a banda. Mas logo se deram conta que é o mesmo: sou música e isso é o mais importante.

Ultimamente está acontecendo algo muito bonito: cada vez mais mulheres ou garotas depois dos shows me certam e contam que as inspirei. Nunca imaginei que teria esse papel. É muito bonito sentir que pude ajudar um pouco desta maneira. Com minha imagem e com minha profissão estou fazendo que as pessoas pensem diferente. Sim, se pode! Uma mulher, de cabelo curto, tocando um instrumento forte que é o trompete mas com elegância.

 

"Ultimamente está acontecendo algo muito bonito: cada vez mais mulheres ou garotas depois dos shows me certam e contam que as inspirei. Nunca imaginei que teria esse papel"

 

Como foi se acostumar com a cultura latina? O que foi mais difícil?
O primeiro ano foi mais difícil: eu quase não tinha trabalho, tive que aprender bem o espanhol, relacionar-me de outra maneira. Mas foi maravilhoso também: todos os meus sentidos estavam trabalhando 100%. Me senti mais viva do que nunca! Além do mais, tive sorte que a Merlin Produções (minha produtora) se sentiu conectada com minha música. Eles me acompanham em tudo e tem sido minha nova família.

Anos depois, a coisa está cada vez melhor: com mais trabalhos, mais amigos e a cada ano com novos desafios: aprender a viver longe de minha família e de amigos de toda a vida, aprender a viver em um país com suas dificuldades. Mas geralmente me ensinando muito, eu aprendi muito! 

O que você levaria da Colômbia para os países pelos quais vai passar?
Na Colômbia, o povo sempre quer que o outro esteja bem. É algo do que gosto muito aqui, realmente te cuidam, são muito generosos e compartilham muito. Também vivem muito mais o momento, sabem aproveitar muito bem a vida! Trato de ter essa atitude sempre e onde quer que eu esteja.

Quais artistas colombianos você acha que o mundo merece conhecer melhor?
Há um grupo que se chama Puerto Candelária, que faz uma mistura de cumbia com pop, jazz e muita loucura, eles são geniais. Tono Barrio é um grupo que toca salsa misturada com outros gêneros como o funk, tocam muito gostoso. A cena musical tem muito o que oferecer aqui. Cada região tem seus estilos, a Colômbia tem uma riqueza imensa na música, seu povo e sua paisagem. Imagino que no Brasil seja igual e estou muito feliz pela primeira vez poder compartilhar com o público brasileiro.

Conta pra gente quais seus planos pra 2014.
Em março lanço um tema novo que foi um clássico do rock nos anos 90. Se chama “You”, do grupo Ten Sharp. Meu arranjador e produtor musical Juancho Valencia fez um arranjo latino para a música e estou muito contente com o resultado. Em 15 de março essa faixa estará disponível no iTunes, como toda a minha música. Até o momento tenho três álbuns que fazem uma mistura de salsa, música cubana, bolero e chachacha. Este ano espero ir a Cuba para gravar uma música nova nos lendários estúdios do EGREM [selo cubano de salsa].

Você tem alguma mensagem para dar às mulheres latinas que tem vontade de quebrar paradigmas e entrar em meios predominantemente masculinos?
Creio que é muito importante que as mulheres não se deixem aprisionar pelas expectativas à sua volta. O mais importante é seguir a vontade que tem na vida e sempre perseguir os seus sonhos. Pode ser difícil pois no início não há tanto apoio. Mas há tantas mulheres fazendo o que as inspiram. Aprenda com esses exemplos, não desvie do seu caminho, não se deixe desanimar por opiniões não tão profundas.

E quais suas expectativas para os shows no Brasil em pleno Carnaval?
Tenho muita vontade de tocar no Brasil e que sorte que tocarei justo na época do Carnaval! Tratarei de dormir o menos possível para viver o máximo possível do Carnaval e da cultura brasileira. Espero dançar, espero comer muito, tomar as bebidas típicas, conhecer o povo… será uma viagem intensa!

Vai lá: Maite Hontele @ Sesc Vila Mariana - São Paulo/SP
2 de março, domingo, 21h, R$ 4,80 a R$ 24,00

Rec Beat 2014 - Recife/PE
3 de março, segunda-feira, 00h30, grátis
http://recbeat.com/recbeat2014/programacao

www.maitehontele.com // Twitter: @maitehontele