por Nana Tucci
Tpm #108

Mulheres de 20 e poucos anos reinventam o papel da madrasta na vida cotidiana

Você conhece um homem, começa a namorar e resolve morar com ele. Simples? Nem tanto, se ele vier com filhos no pacote. Cada vez mais, mulheres de 20 e poucos anos encaram ciúme e competição para reinventar o papel de madrasta

 

Um dia comum na vida de Luciana inclui deixar Natã, 9 anos, na aula de teatro, caminhar enquanto ele pratica judô, ajudá-lo com a lição de casa no fim do dia e ler um livro antes de ele dormir. Tem também João Pedro, 16, para quem ela prepara um lanche da tarde, e Julio, 18, que às vezes liga na madrugada querendo carona para voltar de uma festa. Aos 26 anos, a artista plástica Luciana Bertarelli realiza tarefas típicas de uma mãe. Mas ela não tem filhos: Natã, João Pedro e Julio são seus enteados.

Há cinco anos, a paulistana se viu representando um papel novo: o de madrasta. Cada vez mais mulheres – e cada vez mais jovens – vêm formando uma nova geração delas. Isso é consequência do aumento do número de pessoas que se casam mais de uma vez. Segundo o levantamento mais recente do IBGE sobre o tema, dos mais de 935 mil casamentos registrados no Brasil em 2009, cerca de 70 mil foram realizados entre mulheres solteiras e homens divorciados.

Agregadas

Assim como Luciana, as mais de 20 mulheres ouvidas pela reportagem da Tpm concordam que ser madrasta significa, acima de tudo, enfrentar o desafio de descobrir seu papel dentro de uma estrutura familiar que já existe. A arquiteta paulista Maria Fernanda Corral, 27 anos, está recém-casada com o também arquiteto Cláudio, 30, pai das gêmeas Bruna e Fernanda, 6. Quando se viu nessa nova condição, recorreu à análise, mas ficou mais tranquila e confiante ao ouvir de seu pai: “O Cláudio é um bom pai? Se é um bom pai, será um ótimo marido”. Hoje, ela se considera mais amiga do que mãe das meninas. “Ou, melhor, avó. Porque pai e mãe educam, podam. Eu agrado”, define. Essa é, para ela, uma das vantagens de ser madrasta: viver os prazeres maternais, como brincar com a criança, testemunhar sua alegria diante de um acontecimento, se emocionar com as descobertas, porém sem a responsabilidade de mãe.

Já a designer gráfica Gabriela Juns, 25 anos, se sente uma irmã de sua enteada, Alana, 22. “No dia em que nos encontramos, foi como se eu estivesse conhecendo uma amiga”, conta. Mas ela teve que aprender a sacar quando é melhor sair de cena. “Eu percebo que às vezes ela quer ficar só com o pai. Meu desafio é me dar conta desses momentos, dar espaço. No mês passado, teve um dia em que ela estava chorosa, passando por problemas no namoro. Fiquei em outro lugar da casa, enquanto o pai conversava com ela”, lembra.

Também casada com um engenheiro- agrônomo, Guilherme, 44 anos, a jornalista brasiliense Clarissa Presotti, 30, não sabia exatamente como era vista pelas enteadas, Manuela, 18, e Julia, 15, no início da relação dos dois. “Era amiga, namorada do pai, madrasta?”, lembra ela, que já brigou muitas vezes com as meninas por picuinhas relacionadas à rotina da casa, pois moram todos juntos. “Eu gosto da casa organizada e as meninas nem sempre deixam tudo arrumado, principalmente quando ficam sozinhas.” Uma medida que Clarissa tomou para melhorar a bagunça foi estabelecer regras e funções para cada uma, do tipo: “Você fica com a louça da noite”, conta. Agora, grávida de sete meses, sente que a relação amadureceu. “Elas começaram a me ver com mais autoridade. Me encaram mais como mulher do pai, mãe do futuro irmãozinho. Sinto mais respeito e carinho delas”, confessa.

 

 

Território marcado

Todos esses dilemas são conhecidos da terapeuta familiar e madrasta Roberta Palermo, autora de Madrasta – Quando o Homem da Sua Vida já Tem Filhos e de 100% Madrasta – Quebrando as Barreiras do Preconceito. No segundo livro, ela reforça o quanto é importante levar em conta o terreno antes de construir uma nova história. Afinal, ninguém fica confortável no início de uma nova união: o pai sofre porque saiu de casa e sente falta dos filhos.
A mãe, porque ficou sozinha com as crianças, tentando entender a mudança. Os filhos, porque não desejam que os pais se separem. E a madrasta, porque não esperava se apaixonar por um homem com filhos.

Parte da família

Planos à parte, elas se apaixonam. E, hoje em dia, essa situação tem uma variante a mais: a presença da ex. Enquanto no século passado mulher só se casava com um homem que já fosse pai quando viúvo, hoje é comum ver mães que dividem a educação dos filhos com os ex-maridos.

Isso por si só tende a deixar o clima mais tenso para a mulher que está chegando. “Madrasta antigamente era a mãe postiça. Ela desempenhava o papel de mãe, pois não havia outra. Hoje deveria existir outro nome porque mãe e madrasta coexistem”, defende a arquiteta Maria Fernanda.

Talvez por isso uma das queixas mais recorrentes entre as entrevistadas pela Tpm foi que a ex-mulher deprecia a imagem delas diante dos filhos, atrapalhando a construção de uma relação sadia. “Para evitar esse tipo de conflito, eu mantenho uma relação distante e respeitosa com ela. Não discordo do que ela fala para os meninos, e quem conversa sobre eles com ela é meu marido”, explica Luciana Bertarelli.

A terapeuta Roberta fundou a Associação das Madrastas e Enteados (AME) e, em 2002, criou um fórum que hoje soma mais de 3.500 mulheres cadastradas – a maioria na faixa dos 30 anos. Em nove anos, estima já ter ouvido 7 mil madrastas, das quais cerca de 80% reclamavam das mães de seus enteados. Ela acredita que a madrasta ainda é vista com desconfiança, como se estivesse ali para desarmonizar as famílias, causando ciúmes, competição, roubando a atenção do pai, enfim, dominando o território sem permissão de todos os integrantes. A psicóloga Elza Montoro, especialista em terapia de casal e família, aponta um caminho: “Ter uma conversa franca com o marido e os enteados sobre a disposição de não concorrer com a mãe biológica faz toda a diferença”, sugere.

Isso não significa que, se o pai não der o aval, a madrasta não possa participar ativamente da educação dos enteados. “Logo no início do namoro notei que ele não educava muito as crianças e pedi autorização para ajudar. Ele me deu”, conta a cineasta paulistana Marina Cintra, 29 anos, que não hesita em dar bronca nos enteados, de 3 e 5 anos. Assim como ela, a publicitária Sharon Menasce, 27, tem a permissão do marido, Nando, para orientar Gustavo, 14. E atribui a isso a boa relação com o garoto. Os dois se conheceram quando Sharon estava se formando no ensino médio, aos 17 anos. Gustavo tinha 4. Como ela morava em São Paulo e o namorado no Rio de Janeiro, quando ia visitá-lo ela queria ficar 100% do tempo com ele. “Por isso, eu e o Gustavo tínhamos várias briguinhas, quando eu conversava com o Nando ele ficava interrompendo, me irritava”, lembra ela. Sharon ressalta também a importância de saber estabelecer limites. “Tenho liberdade de pedir que o Gustavo não vá a algum lugar conosco quando não quero”, diz.

 

 

 

Toda forma de amor

Diante da complexa rede de desafios que passam a fazer parte do dia a dia dessas mulheres, elas se questionam se vale a pena pisar em um terreno tão delicado quando ainda são tão novas. Mas, passado o susto inicial, é possível se adaptar à nova realidade e encarar os enteados como um ganho. “Sempre quis uma família grande, e vou ter uma sem precisar ficar grávida tantas vezes”, comemora Marina Cintra. Para Maria Fernanda, o fato de o namorado ser pai potencializou o que ela sentia. “Eu me apaixonei mais por ele depois de ver o amor que tem pelas meninas. E agora já sei que meus filhos terão um paizão”, expressa. A designer Gabriela, por sua vez, questiona se teria se interessado pelo marido se ele não fosse pai. “Tenho certeza de que ele não seria como é se não tivesse a Alana. Além do mais, famílias modernas, complexas, com anexos, são muito mais interessantes”, aposta. Ela sabe do que está falando.

 

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